MULHER DE SALTO ALTO
Maurren Maggi é vaidosa. Adora saltos. Salto alto e salto em distância. Primeira campeã olímpica do Brasil, a sãocarlense deu uma entrevista exclusiva para Glenda Kozlowski, que vai ao ar no Esporte Espetacular. Eram duas da manhã na China. E a moça estava ainda com o gás todo. Excitação em forma de músculos. Falava, revia a prova e se emocionava ao falar da filha Sofia.
Separada do ex-piloto de Fórmula-1, Antonio Pizzonia, Maurren chega a agradecer, de forma torta, os 2 anos de punição por acusação de doping. “Se eu não tivesse dado esta parada, talvez nunca tivesse tido uma filha. E Sofia é tudo para mim”. Curiosamente, ela não gosta de usar a tecnologia para conversar com a filha durante as olimpíadas. “É muito pior, prefiro falar no telefone com ela a vê-la através do computador. Sofro muito, tenho uma saudade enorme e isso podia até ter me atrapalhado”, conta, ainda com lágrimas nos olhos.
Maurren fica em Pequim até o fim das olimpíadas. Foi escolhida para levar a bandeira brasileira na cerimônia de encerramento. Na entrevista que vai ao ar domingo de manhã, no Esporte Espetacular, ela conta que praticamente não dormiu na noite que antecedeu à final do salto em distância. Acordou às duas da manhã, andou sozinha pela Vila Olímpica, voltou a dormir, despertou às cinco e, ao ver o sol nascendo pela fresta da cortina, ficou tão feliz e relaxada com o belo porvir que dormiu até 11 e meia da manhã.
A campeã olímpica também revela a tática que usou para intimidar as adversárias. “Dei tudo no primeiro salto, para obrigá-las a correr atrás. Tanto é que a russa queimou vários saltos. Porque uma saltadora, quando tem que correr atrás e arriscar, fica mais vulnerável ao erro.” Deu tão certo que a felicidade da brasileira a impediu de dar o último salto, coisa que o português Nelson Évora, por exemplo, fizera no dia anterior, mesmo sabendo que já era ouro no salto triplo. Aliás, Évora encontrou com Maurren na Vila antes do salto de ouro da brasileira. São amigos. Não foi o único dourado a desejar boa sorte a ela. “Eu chamo o César Cielo de Olhos Brilhantes, quando eu o encontrei na Vila, não pedi para fazer foto, apenas para segurar a medalha de ouro. Fiz questão disso, tanto é que não pedi para tocar em nenhuma de prata ou bronze. Tinha que ser de ouro”.
E para quem não sabe porque, ao vivo, ela agradeceu a confiança de Galvão Bueno, vai a explicação. No dia em que Diego Hipólito falhou, Maurren estava no ginásio, alguns lugares à frente de Galvão que, por sua vez, estava ao lado de Glenda. Ambos saudaram a atleta e desejaram boa sorte. Só que Galvão, imediatamente depois da falha de Diego, chamou Maurren e gritou, fora do ar: “Esse ouro vai vir de você. Acredite. Vem de você.” Ela não só acreditou como deu um pequeno salto para uma mulher, um grande passo para a brasilidade.
MEDALHA PROIBIDA
É, pois é. Até que a bravura dos jogadores brasileiros nos enganou durante as olimpíadas. Mesmo sem entrosamento e planejamento, chegaram à semifinal olímpica. Aí veio a Argentina, que mais parecia jogar futsal contra uma Seleção aplicada, porém excessivamente defensiva. Há muito não era tão aflitivo assistir a um jogo do Brasil. Tresloucada, a turma azul e branca trançava como um pássaro fazendo um ninho e rapidamente via Renan frente a frente. Toca daqui, dribla dali, chuta de lá... e 1, 2, 3.
Estava dando para enganar. Talvez o primeiro movimento da torcida, depois de um passeio desse, seja chamar Dunga de retranqueiro e covarde. Mas, encarnando o espírito olímpico, tão plácido e compreensivo, digamos que Dunga foi prudente em excesso e acabou não evitando o que já supunha. Uma Argentina inspiradíssima pelo dia que passou na Vila Olímpica ao lado de outros atletas.
O Estádio dos Trabalhadores viu argentinos lançando dardos, saltando alto, arremessando martelos, dando raquetadas, cortadas, pancadas.... tudo para cima de um assustado Renan. O Brasil, lá atrás, procurando a vara perdida, pisando na linha, queimando a largada.
Parece que os deuses olímpicos invejam muito os deuses do futebol. E andam fazendo de tudo para os atrevidos pentacampeões jamais conquistarem uma medalha de ouro. Se bem que desta vez não foi preciso muita artimanha divina.
Na final, torcerei pelos argentinos, sempre faço isso quando o Brasil é eliminado numa competição e eles avançam. E se os jogadores continuarem briosos como foram neste jogo, vem aí mais uma medalhinha. E viva o Bronzil.
DETALHESÉ chover no molhado dizer que as olimpíadas são muito mais do que 200 e poucos países, 10 mil e muitos atletas reunidos num lugar só ( apesar das sedes distantes). Que venha o toró, pois. Afinal, Pequim 2008 está potencializando o espetáculo midiático do esporte. Câmeras inusitadas estão por toda a parte, fora ou dentro dos eventos. A bela tomada em movimento que sobrevoa o teto do Ninho do Pássaro é conseguida através de uma câmera deslizante num trilho de aço especialmente colocado numa torre do outro lado da rua. Centenas de micro-câmeras pegam o mundo submerso da natação, o suporte que agüenta a força da vara no atletismo, além dos incríveis registros conseguidos pela supercâmera e seus 1.000 quadros por segundo. Sem contar o vai-e-vem frenético de atletas, flagrados pela cidade passeando, fazendo compras ou visitando os estúdios de televisão de seus respectivos países. Nariz de cera feito, listo abaixo alguns detalhes pequineses, olímpicos ou não, flagrados graças à revolução digital da máquina fotográfica leve e que cabe no bolso. Pode servir de alento para quem anda ansioso e nervoso por possíveis medalhas no vôlei e futebol.











AGORA VAI?A China não quer perder o trem da história e vem enchendo o vagão de medalhas. Especialistas duvidam que o trono americano no quadro de medalhas seja ocupado por atletas de olhos puxados. Quase todos. O jornalista Marcelo Barreto, que estréia blog no site, há muito garante, no ar e fora dele, que os chineses serão os “campeões” olímpicos. As aspas se justificam. Para o Comitê Olímpico Internacional, não existe um país vencedor das olimpíadas. O quadro de medalhas é apenas um estudo comparativo de desempenho.
Mas vai convencer o mundo, que adora uma disputa unha a unha. Desde a Guerra Fria, um dos maiores atrativos dos Jogos é acompanhar, medalha a medalha, quem atingirá o teto. Os Estados Unidos, bicho-papão histórico, acumula um cartel impressionante. Antes de Pequim, descansam guardadinhas em território americano 2.190 medalhas, sendo 896 de ouro. Atrás, muito atrás, a ex-União Soviética, com 1.010 no total e 395 douradas. Para os curiosos, o Brasil acumula 17 de ouro, 21 de prata e 38 de bronze. Sempre antes de Pequim.
Tanta tradição e força nos mais variados esportes faz com que os tais especialistas apostem as fichas sempre nos Estados Unidos. Os primeiros dias olímpicos, porém, andaram assustando. Apesar do atletismo ter começado há pouco e ser um tradicional celeiro dourado para os americanos. Só que, além do Marcelo Barreto, um outro estudioso e amante da história olímpica admite que a hegemonia recente do país de Bush está indo para o brejo. O presidente do Comitê Olímpico Americano.
Ele mesmo. O maior embaixador do desempenho yankee em terras orientais. Peter Ueberroth deu entrevista ao jornal China Daily, aqui em Pequim. Disse que, ao ver o desempenho chinês em Atenas, teve a certeza de que o país chegaria ao topo. “O trabalho que eles estão fazendo é muito sério. A evolução é impressionante. A cada ano mais crianças se inspiram nos atletas atuais e são incentivadas a seguir uma carreira esportiva”, disse. “Não será surpresa alguma, para mim, ver os Estados Unidos superados”.
Independentemente de qualquer paixão ideológica e histórica pelos Estados Unidos ou China, vai ser muito bom se isso acontecer. Não só para deixar 1 bilhão e 300 milhões de pessoas felizes, mas porque assim o balanço de poder retorna às manchetes. E nada melhor para um líder do que um vice-líder fortíssimo e incomodando. Certamente a incrível história olímpica americana foi potencializada pela necessidade de treino e planejamento constante, já que outro país sempre ameaçou.
Para quem não se lembra, em Seul-88 houve uma lavada da União Soviética, em Atlanta-96 Estados Unidos na cabeça, mais para trás, Montreal-76, União Soviética e Alemanha Oriental terminaram na frente dos americanos. Vale lembrar que nas primeiras olimpíadas, em 1896, os Estados Unidos terminaram com um ourinho à frente da Grécia: 11 x 10.
Então escolha a bandeira, que pode ter 50 estrelas brancas sobre um fundo azul e listras vermelhas e brancas, ou 5 estrelas amarelas espalhadas por um vermelho forte. E torça. Sem deixar de aplaudir o derrotado.
Ah, sim. O blog junta-se a Marcelo e Peter. E também acredita na supremacia chinesa estampada dia 24.
FRASE DO DIA
Muito se mostra, muito se torce, muito se fala durante as olimpíadas. Porém, com menos de uma semana de competição, emerge a melhor frase dos jogos até agora:
- O Cesão é muito doido, meu!
Por si só já é engraçadíssima, mas vindo de Flávia Cielo, mãe do nadador brasileiro mais feliz do mundo, ganha um sentido ainda mais especial.
Mostra a surpresa da mãe, que mesmo com toda a confiança, sabia que os 100m livre não é a prova mais forte do currículo de Cesar Cielo. Presente ao Cubo, a família mostrava humildade ao ver os colegas de raia do Cesão. Só que o Hulk louro brasileiro enlouqueceu, estapeou a água como nunca, se lixou para o sétimo tempo nas eliminatórias e cravou o mesmo tempo do americano Jason Lesak, capa dos jornais por salvar o recorde de ouros de Phelps no revezamento 4 x 100.
O próprio doido confessou que não esperava a medalha. E chorou mesmo minutos depois. Sem vergonha. A maluquice aquática de Cesar Cielo acabou contaminando toda a entourage, desde família a amigos. Todo mundo ficou doidão. E já diz que ele vai ser ouro.
Tomara. Acho difícil. Mas...
- O Cesão é muito doido, meu!