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Garambone

Sidney
Garambone

Jornalista

Na imprensa há 20 anos e com passagens por Jornal do Brasil, O Globo, O Dia e Istoé, é atualmente editor-chefe do Globo Esporte e debatedor do Arena Sportv. Tem mestrado em Relações Internacionais, escreveu três livros
( O Caçador de Barangas, em 2000,
O LEDO ENGANO



Aconteceu em Turim. Do Torino e da Juventus. Uma brasileira de 29 anos sofreu um acidente de carro no sábado passado. Seu nome: Aparecida. Numa semana de estranhos, assustadores e cronenberguianos acidentes automibilísticos, Aparecida se viu derrapando e jogada num muro na beira da estrada. A ambulância chegou minutos depois e o médico, ao examiná-la, decretou sua morte. Ficou lá, estendida, sob um pano italiano, durante duas horas. O rabecão chegou e os funcionários levaram um susto. Ela ainda respirava, estava viva. O rabecão travestiu-se de ambulância e rumou para um hospital próximo. Ela ainda está lá. Não morreu.

E nós com isso?



A analogia pode ser duvidosa, mas a história é incrível e traz lições. Quem somos nós para decretar a morte de alguém? Ou para recusar o talento de alguém, eventualmente. Há pouco mais de um século, o impressionista francês Edouard Manet brilhou no Salão dos Recusados, que abrigava artistas novos e sem sucesso nas mostras tradicionais de arte parisienses. Em pouco tempo, o público percebeu que a nova arte, o talento indiscutível e as cores de uma proposta diferente de arte estavam batendo ponto neste tal Salão dos Recusados, que virou o point cultural da cidade.

E nós com isso?

Vejamos o morto e recusado Botafogo. Acusado, maltratado, renegado por toda a crítica especializada. Vai cair de novo. Vai voltar para a Segundona. Elenco medíocre. Poucos conseguiam ver, sob a velha e histórica camisa alvinegra, lampejos suarentos de Zé Roberto, Ruy, Reinaldo e rapaziada do etcetera. Cuca reclamava, falava nas entrevistas, que o time ou era prejudicado ou tinha muito azar. O muito azar e o imponderável maluco ele vai ter que se acostumar. Faz parte da história do clube. Pois bem. Já já Lúcio Flávio se recupera. O time vai melhorar. Veio Lima, elogiado por Rogério Ceni e vítima de uma cegueira momentânea de Muricy. E o Botafogo, em duas rodadas, apresentou o futebol mais bacana do Brasileirão. Quem somos nós para prever o futuro...

Troquemos o sujeito principal do parágrafo anterior. Grêmio. Correndo, suando, fazendo bonito... Mas sabe como é...o Grêmio, vindo da série B, elenco modesto, Mano Menezes... e Tcheco voltando... e Léo Lima chegando como banco e subindo para os 11 eleitos... e Hugo, sempre eficiente, renegado lá atrás pela MSI corinthiana.

Amigos, sejamos sempre prudentes. O palpite é livre e sempre bem-vindo. Mas no campeonato brasileiro mente quem ousa enterrar times antes de faltarem 10 jogos para final. Esperemos sempre os 2/3 da competição. As variáveis são gigantescas e as viradas, não de mesa, já fazem parte da pequena tradição dos pontos corridos do Brazucão. Nada está decidido.

Mas como o ser humano não aprende... São Paulo, Internacional ou Santos será o campeão. He he he.

E AINDA...

Em vez de brigar, as torcidas organizadas podiam pular de alegria em camas de hotéis. Amiga Marcella deu a dica de site delicioso: www.bedjump.com



Precisamos arrumar logo um apelido para Kaká e suas arrancadas. O dragster milanês? O foguete bonitinho? Kaká Turbo?



País de Gales costuma ir pouco à Copa. É o paradoxo do reino unido. Não dá para Irlandas, Escócia e Inglaterra disputarem a mesma competição.

Cantinho da infâmia...

Não é Nadal, não é Nadal, e o Rafael já está nas quartas do Aberto dos EUA.
Escrito em 05/09/2006 |Comentários: »
10 TENTATIVAS DE PARAR O SÃO PAULO E UM JABÁ...




Vira e mexe alguém quase consegue. O Paraná tentou, deu pinta que ia vencer o bicho-papão do Morumbi em São Paulo.... e nada. O Fortaleza chegou a fazer 1 x 0 faltando menos de cinco minutos. Mas o líder do Brasileiro não esmoreceu e quase vence o jogo, se não fosse Albérico. Neste domingo que passou, o Santa Cruz empatou e imaginou que agora ia. Ia para o buraco, porque o São Paulo novamente se impôs e voltou da terra de Brennand com mais três pontos, deixando Fernando Alonso e outros para trás, mesmo com um jogo a menos. Façamos, pois, um exercício hipotético, quem sabe para ser impresso pelos futuros adversários, de dez maneiras de parar o quase, virtual, praticamente, tetracampeão brasileiro.

1 – Tentar uma tática suicida lançando dois falsos pontas, bem abertos, para segurar Souza e Júnior ( ou Lúcio ou Leandro improvisado). Assim, o 3-5-2 do tricolor paulista corre o risco de perder o meio-de-campo.

2 – Tocar a bola pacientemente, sem perdê-la, atraindo a linha de defesa do São Paulo e assim, com um bom lançador, surpreender com bolas esticadas para algum elemento-surpresa. O Internacional conseguiu fazer isso no primeiro jogo da final da Libertadores.

3 – Rezar para os outros apóstolos de Cristo, reclamando que Paulo está sendo beneficiado pelos céus.

4 – Botar os goleiros para treinarem faltas. Assim, quem sabe, fazer um em Rogério Ceni, deixando o artilheiro dos 65 gols deprimido e vulnerável.

5 – Não tremer na hora que Ceni se encaminha para bater falta ou pênalti.

6 – Provocar um piriri coletivo no elenco do tricolor oferecendo rapadura estragada na véspera dos jogos.

7 – Torcer para que Muricy sempre opte por Aloísio, o que deixa o time um pouco mais lento, e atrair a jogada aérea para tentar sair em contra-ataques rápidos.

8 – Pedir na boa, na camaradagem, para Josué e Mineiro não correrem feito alucinados os 90 minutos do jogo.

9 – Jogar no 3-6-1 assumindo a postura humilde de marcar como no basquete, homem a homem, para evitar o rodízio de posições que o São Paulo costuma fazer.

10 – Fazer uma parceria milagrosa, comprar o time inteiro do São Paulo e mandar os jogadores passearem na Europa até o Brasileiro terminar.


O JABÁ...

Pois é, amigos, terça-feira agora, no Rio, e depois na quinta 14 em Sampa, lançarei meu primeiro romance. Não tem esporte, não tem jornalismo, mas tem muito cinema e muita conversa. Quem não tiver absolutamente nada para fazer, pode dar um pulinho na Livraria Argumento, no Leblon, ou na Livraria Cultura do Market Place, no Morumbi, semana que vem. Será bem-vindo. O convite é esse aqui abaixo.




E AINDA...

Quando eu defendia o Botafogo, todos riam de mim. Nunca nenhum time tinha conseguido demolir a Arena da Baixada como o alvinegro carioca foi capaz.



O próprio Tite avisou que em algum momento o Palmeiras ia levar um tombo. Mas nem ele esperava este estabaco terrível.



O Flamengo precisa aprender a atacar.



Internacional e agora o Santos com o Zé Roberto precisam de foco absoluto e nenhum tropeço para tentar ameaçar o São Paulo. O Grêmio corre por fora.



E aí, Leão? Reclame da arbitragem agora.



Triste ver o Nordeste na ponta debaixo da tabela. Triste mesmo.



Brasil 3 x 0 Argentina. Mas ainda é cedo...

Cantinho da infâmia...

Sem André, o tênis perde um pouco Agassi...

Escrito em 04/09/2006 |Comentários: »


O exagero da Tolerância Zero


Quarenta do segundo tempo no Morumba. “Burricy, Burricy!!!”, berra a torcida do São Paulo irritada com o técnico Muricy Ramalho. Oito rodadas atrás, Fluminense perdendo ponto no Maracanã, mas ainda bem classificado na tabela. Vaias para Tuta, vaias para Pet. No mesmo dia, em outro estádio, o Flamengo, já campeão da Copa do Brasil, toma ovações desagradáveis da massa rubro-negra causando desconforto em Renato, um dos artilheiros da equipe. Semana passada, o Internacional cede o empate ao Goiás no Serra Dourada e é criticado por torcida e imprensa na volta ao Sul, poucos dias depois de ter sido campeão da Libertadores.

Tá demais.

Talvez seja a frustração com o Estado brasileiro, que há déacadas não cumpre sem papel hobbesiano. Talvez seja a estranha guinada social da classe média, cada vez mais organizada em comunidades e guetos que pensam igual e agem igual. Talvez seja o perigoso anonimato da Internet, que permite violência verbal e agressão gratuita. Talvez o macro-exemplo internacional, com povos ainda se odiando apesar de raízes similares e razões seculares e estúpidas de intolerância. Ou mesmo nossa herança judaico-cristã familiar, que nos fez reclamar de mãe e pai ignorando o que fizeram para não morrermos de fome no caminho até aqui.

Enfim. Tá demais.

Vaiar quem está bem? Quem há pouco nos deu alegrias inesquecíveis? Nem parece, por exemplo, que o Corinthians é o atual campeão brasileiro. Que o Santinha, heróico, saiu da Segunda Divisão no ano passado. Nossa exigência está beirando á sandice. Ninguém é paciente. Ninguém dá chance ao tempo. Seja nas arquibancadas, nas ruas ou no trabalho. E de tanto sairmos às ruas, no caso os pós-balzaquianos, para exigir a derrocada do autoritarismo e da injustiça, nos transformamos num Narciso às avessas. Tudo está ruim, nosso time não presta, independentemente da colocação na tabela, do que fez até agora, e do incentivo que precisa para virar.

Para finalizar esta pequena reflexão niilista, reproduzo pertinente e-mail inspirador de Rodrigo, um dos comentaristas do Garamblog:

Formamos um grupo de universitários, advogados, jornalistas, professores, com um só objetivo. Não formamos uma torcida organizada, e sim um grupo organizado que hoje conta com 600 membros no site de relacionamento do orkut. Vou colocar aqui o nosso lema:

"O Movimento GUERREIROS DO ALMIRANTE surgiu do anseio de resgatar aquela torcida vibrante que o Vasco sempre teve.Nosso Movimento não é,nem pretende ser,uma nova torcida organizada.Somos apenas um grupo de VASCAÍNOS que têm como objetivo único apoiar o VASCO o jogo TODO.Não pretendemos utilizar camisas ou faixas com o nome do Movimento GUERREIROS DO ALMIRANTE.Não temos ligação alguma,nem somos contrários a nenhuma torcida organizada,assim como NÃO TEMOS QUALQUER LIGAÇÃO COM GRUPOS POLÍTICOS DO CLUBE.Nossa atuação se restringe apenas à arquibancada dos estádios.Nosso intuito é apoiar com músicas e gritos de incentivo ao nosso Vascão.Quem quiser se juntar ao movimento,basta ser um fanático torcedor do Vasco e ter gogó para cantar o jogo todo.Qualquer vascaíno que aderir a esse Movimento estará ciente de que será cobrado pelos outros membros se não cantar o jogo todo."

E aí?


Escrito em 02/09/2006 |Comentários: »
SANTO ALBÉRICO


Foi o Yahoo que ensinou. Santo Albérico. Não é chiste de blogueiro, muito menos infâmia noturna. É santo mesmo. Santo Alberico, sem acento, viveu no século XI, liderando uma abadia francesa que se notabilizou por abrigar monges que buscavam resgatar a vida simples e pobre dos cristãos originais. Alberico e seus monges fizeram história na comunidade de Cister.



E nós com isso?

Novecentos anos depois, Albérico e seus monges desceram a latitude e fizeram história no Morumbi. O tricolor de aço quase protagonizou um filme de Hollywood na mansão do tricolor paulista. Que história. Ele tem 35 anos, é velho para o futebol, sempre jogou na dobra de cima do mapa, a não ser por uma temporada no Matonense. Albérico Santiago da Silva. Pernambucano, cara marcada, olhar desconfiado.

Defendeu uma, duas faltas brilhantemente cobradas pelo maior goleiro-artilheiro do mundo. Vibrou feito bicho doido ao ver seu time fazer 1 x 0 a cinco sagrados minutinhos do fim. Foi impotente, quis se imolar por não defender a bela virada de Lenílson minutos depois. E quando o juiz já pensava em sibilar, viu-se diante novamente de Rogério Ceni. Desta vez sem a barreira entre eles. Pênalti para o São Paulo.

Albérico não precisou fazer o sinal da cruz. Apenas voou, como vários santos, e espalmou a bola, ali transformada em hóstia sagrada. Estacado, como um goleiro de botão, o personagem berrava por dentro, por fora, punhos cerrados, como carregando um andor imaginário. A noite foi dele. E o campeonato vai ficando cada vez mais ensanduichado. Deve ser a multiplicação dos pães.

Podia ser Lima, o novo palito alvinegro, com seus dois gols no Maracanã. Podia ser Tuto, que segurou o Vasco em Sanjanu. Talvez o fujão Tévez, ingrato, financista cego e insensível. Ou Perdigordo, brilhando no lugar de Tinga. Quem sabe Souza, o artilheiro de Neanderthal, fazendo o Goiás respirar. Ou Mano Menezes e seu incrível exército de Brancaleone.

Nenhum deles. O nosso personagem da semana é Albérico. Que rima com Ibérico. Que rima com Américo. Que rima com feérico. Que rima com Nelson Rodrigues.
Escrito em 01/09/2006 |Comentários: »


Você venderia seu filho?

Assim, de repente, com ele entrando na faculdade? Aparece alguém rico, que se diz um pai melhor, que mora num lugar sazonalmente frio, mas muito bonito e cheio de dinheiro e civilização. E leva o teu filho? A metáfora pode ser forte e exagerada. Mas a prole talentosa do futebol brasileiro está indo embora antes de tirar o aparelho dos dentes e dirigir um carro. Foram Jonatas, Sobis, Marcelo e mais uma penca de jovens.

Os pais estão certos? Estamos sendo românticos demais? Peguemos, pois, assim, como exemplo, o Fluminense. Gastam-se páginas e verbos para se elogiar Xerém. Os meninos lá comem, dormem, são medicados, aprendem cidadania, devem estudar e rapidamente estréiam como titulares. Cabeça feita, maduros e zuuum. Pegam o primeiro avião para Rússia, Espanha ou um terceiro continente à sua escolha.

O clube está certo? Tem que fazer caixa? Mas vendendo as sementes em vez das frutas podres e velhas? Renovar um elenco de ano em ano é impossivel. Explicar para os que ficam que o grande barato é jogar num clube quitanda também é muito difícil. Se é preciso vender pequenas jóias para equilibrar o orçamento, melhor assumir que o planejamento feito foi ruim.

Talvez, mais uma vez, pela enésima vez, estou sendo um tolo. Talvez o próprio jogador olhe para trás, para os amigos, a primeira chuteira, o primeiro treino, a peneira, o carinho recebido e pense rapidamente "sou um profissional". Talvez se o Fluminense não vender o Marcelo, o clube quebre e seja muito pior.

Mas com este rodízio absurdo de jogadores, de treinadores, de craque que vai embora chorando e volta seis meses depois para o rival, de alguns jornalistas que glorificam os que burlam as leis do cavalheirismo em campo, só falta mesmo os dirigentes venderem a torcida. Corinthians e Flamengo fariam um dinheirão.

Escrito em 29/08/2006 |Comentários: »
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