
Diga-me para quem torces... IIIComo diria a feiticeira do desenho... E lá vamos nós! Mais três times para debatermos, discordarmos e exercitarmos nosso lado pseudo-sociológico. Quando o blog inventou moda de jogar no ar a “Timelogia”, achou que a revolta popular seria gigantesca. Esperou muitos insultos e poucas contribuições. Mas os comentaristas são sensacionais e não só elogiaram a idéia de jerico, como deram idéias, retificaram, ratificaram e assim caminha a humanidade blogueira.
Vamos, pois, afundar a pretensão em águas cruzmaltinas, palestrinas e colorados. E lá vamos nós... E lá vamos nós, lá vamos nós, vamos nós...

VASCAÍNO – Time de penetração popular impressionante, não só no Rio de Janeiro, mas principalmente no Nordeste. O bipresidente Lula, antes de migrar para Sampa, era Vascão em Pernambuco. O vascaíno se irrita porque nunca mereceu os refletores chiques, por causa da temida zaga Orlando e Abel, das bravatas de Eurico e da origem portuguesa. É um batalhador solitário. Construiu um estádio com recursos dos imigrantes, foi um dos pioneiros em aceitar negros no elenco, abriu mão de patrocinadores e hoje já não sabe mais se agradece ou blasfema os anos Miranda, que não acabam nunca. Em compensação, adversários quando estão numa fase horrorosa costumam falar: “ah se a gente tivesse um Eurico...” Bem-humorado, brinca com a própria fama: “Que mané teatro o quê, rapaz, eu sou Vasco!” E adora se referir ao time como “meu Vascão”. Abandonaram o simpático “cruzmaltino”. Por causa do jeito opulento de Eurico, virou o patinho feio do Brasil e passou a ter a rejeição dos outros torcedores. Mas atravessa todas estas tormentas e segue firme e forte, como o navegador que o batizou. Tratam o rival Flamengo como “eles”.

PALMEIRENSE – Torcedor crítico, sarcástico e divertido. Não à toa cultuam a turma do amendoim. Vaiam desde o primeiro minuto se for preciso. “Tum, tum, tum, tum... time medíocre!”. Orgulham-se da origem italiana, não renegam o nome original Palestra Itália e mesmo tendo tido triunfos maravilhosos na era Parmalat, veneram a inesquecível Academia e, para rimar, Ademir da Guia. O Palmeirense tem um lado niilista na alma. Teme pelo pior o tempo todo e adora fazer pouco caso das conquistas corintianas. Não gosta de ir ao estádio do Morumbi e, ao longo da história, aprendeu a lidar com o preconceito de forma inteligente. Foram chamados de porcos no início dos anos 70, por causa de uma associação duvidosa de calabresa e tripas italianas, e simplesmente assumiram o apelido, convivendo com o singelo periquito e rebatizando o Parque Antarctica de chiqueiro sem o menor pudor. Apesar de amados nacionalmente, gostam do clima clube de bairro, chegam mais cedo para comer sanduíche de pernil nas cercanias do estádio e são o time oficial dos moradores de Perdizes, na zona oeste da capital paulista. Divide com os vascaínos o amor incondicional por Edmundo, mesmo ele tendo jogado pelo Corinthians. Já Magrão sofre.

COLORADO – Nos anos 70, encantou o Brasil pelo talento em campo de Falcão e cia e organização de clube. O torcedor do Internacional aprendeu a ser poderoso e demorou a lidar com a decadência técnica, os anos de ostracismo e a terrível ascensão gremista. Reza diariamente para ser campeão do mundo e se igualar ao rival. É desconfiado por natureza e sempre tem uma explicação surrealista para derrotas e fracassos. Adora se vacinar, prevendo derrotas antes delas acontecerem. Mesmo sendo um time popular, manteve a grafia inglesa no Sport Club e adotou o pejorativo “macacada” ( inventado pelos gremistas para ofender), pulando igual símios nas arquibancadas do Beira-Rio na extinta Coréia. Orgulha-se por conseguir aliar a raça dos Pampas com a finesse brasileira, vide Figueroa, Dunga, Mauro Galvão e Carpegiani. E para provocar, adora rebatizar os triunfos do Grêmio como meras conquistas lamacentas e sem charme. Chama o time de Inter e é um apaixonado pelo clube, independentemente das conquistas. Traz na história uma linda tradição de tolerância, pois foi fundado pelos irmãos Poppe, que vindos de São Paulo foram discriminados pela sociedade gaúcha de então. E assim resolveram fundar um clube internacional, para brasileiros e estrangeiros. Deu certo.
POR QUE NÃO VERONTEM, HOJE E AMANHÃ, de Vittorio de Sica. Nunca é tarde, nem cedo, para ver o strip-tease antológico da highlander Sophia Loren, a mulher que não envelhece.
POR QUE NÃO LERA SOMBRA DAS CHUTEIRAS IMORTAIS, Nelson Rodrigues. Para quem curte este blog, a leitura é obrigatória. Colunas eternas do maior de todos, capaz de transformar qualquer lance banal em homérica disputa fundamental para o espírito.
Diga-me para quem torces... II
Promessa não é dívida. Achei que conseguiria postar três times por dia. Mas uma entrevista no Sem Censura ( fundamental para autores iniciantes e desconhecidos), demandas de bebê e, confesso, um certo temor pela responsabilidade, ou irresponsabilidade, de rotular torcedores atrasaram o cronograma.
Outro pequeno drama: quais times escolher para a segunda rodada de polêmica. Apesar da maioria dos comentários ter sido positiva, foi inevitável alguns litígios entre eles. Uns mais polidos, outros mais exaltados. Mas tudo na mais pura e mentirosa troca de idéias. E chega de nariz de cera! Hoje invadimos Minas Gerais, Rio e São Paulo.

CRUZEIRENSE – Apesar do futebol, hoje, ser esporte de massa, diluído em todas as classes sociais, o Cruzeiro pertence àquela estirpe dos outrora times de elite. Acham o atleticano sem requinte, consideram o campeonato mineiro algo menor e nutrem uma aura internacional por causa das conquistas extra-Minas. Aliás, antes mesmo do São Paulo adotar esta internacionalização, o Cruzeiro já se sentia o mais globalizado dos brasileiros. Consideram-se vitrine perfeita para futuros craques, vide Ronaldinho e Fred. Mas são muito seletos. Se o time está mal, não lotam o Mineirão apoiando. E se está bem, pensam duas vezes antes de abandonar a TV a cabo. Os mais antigos creditam à Tostão, Dirceu Lopes e Palhinha o amor pelo futebol refinado. Os mais novos acreditam que foi em Belô que Luxemburgo realmente mostrou seu valor. Para terminar, dizem-se pioneiros nos centros de treinamento de grande excelência. Não à toa a Seleção cansou de se concentrar na Toca da Raposa antes da Granja Comary.

BOTAFOGUENSE – Um estudo de caso à parte na história do futebol mundial. Apesar do Flamengo, internacionalmente, ser sinônimo de Rio de Janeiro, é o Botafogo o verdadeiro detentor da alma carioca. O nome é do antigo bairro dos casarões. O alvinegro é a burguesia boêmia e poética da cidade. O Rio melancólico e bêbado, que sofre pela amada nos braços do amigo. O lamento e a incredulidade. Tudo pode dar errado a qualquer momento. Atualmente, apesar de estarem bem na tabela, não descartam o pavor pela sarjeta do rebaixamento. São apaixonadamente inseguros sem serem raivosos. Lamentam que Garrincha seja visto mais como craque-problema do que como o maior jogador brasileiro depois de Pelé. O jargão “tem coisas que só acontecem ao Botafogo” não é jargão. É a mais pura verdade. O último exemplo foi no pior pênalti batido no mundo contra o Flu, pela Copa do Brasil. No Mourisco, tudo é superlativo, menos o Manequinho.

CORINTIANO – Raça, bagunça e democracia. O corintiano é sinônimo de fanatismo popular. O cara não sabe bem a razão, mas morre de amores pelo Corinthians. A história paulistana, redesenhada pelo craque-pintor Rebolo, talvez explique isso por sociológicas raízes imigratórias, identificação geográfica ou simples paixão gratuita. O torcedor corintiano é um dos que mais acompanham o time Brasil afora. Sai de São Paulo atrás dos ídolos. E canta o tempo todo. Só vaia depois que o jogo acaba. Por que Tévez deu certo no Parque? Porque tem uma lógica própria, anárquica, mas com justiça no coração. Lembram do episódio Fininho? O jogador era perseguido e o argentino, após um gol, foi pedir aplausos para o companheiro. O Corinthians que não fala, hoje, nada tem a ver com o Corinthians que foi a comícios pedir eleições diretas para presidente. Lealdade, humildade e procedimento são o lema de uma das suas torcidas. Orgulha-se de sofrer. Orgulha-se de vencer de forma sofrida. E canta, a plenos pulmões, que, além do Corinthians ser sua vida, sua história, seu amor... ô ô ô corintiano, maloqueiro e sofredor. Com muito orgulho!
POR QUE NÃO LER?ALMANAQUE DO FUTEBOL, Gustavo Poli e Lédio Carmona. Sem patrulhamentos, porque são meus amigos de vida e redação, o livro é uma delícia, cheio de curiosidades e detalhes. Além de tratamento gráfico espetacular da Casa da Palavra.
POR QUE NÃO VER?CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch. O louco diretor pira na batatinha num filme que mistura vários níveis de realidade. É como diz Lédio: “não entendi nada, mas adorei”.