PALMEIRAS – UM ESTUDO DE CASODias turbulentos no Palestra Itália. Treinos ideais para sociólogos e psicanalistas. O Palmeiras, ao contrário do que muitos pensam, não está dando um azar danado nos jogos. O Palmeiras, como o Fluminense, é um sortudo de marca maior, porque já devia estar na zona de rebaixamento, mas rodada após rodada é salvo por resultados medíocres dos adversários diretos.
Mas o que vale como matéria-prima para os estudiosos não é isso. Vejamos 3 casos curiosos ligados ao tetracampeão brasileiro.
MARCOS NÃO QUER JOGAR – Tal qual um conto de fadas, o goleirão pentacampeão parece ter sido amaldiçoado por alguma bruxa nariguda depois de tantos anos de glórias. “Terás nas mãos teu ganha-pão, terás nas mãos teu infortúnio e tua mágoa no coração”, disse a feiticeira. Mas a magia não se contentou em fazê-lo operar a mão em 2004. Vieram lesões e contusões em várias partes do corpo. Jogar bola, hoje, para Marcos, é um martírio. Eis que Marcelo Villar apela ao carisma do careca para vencer o Goiás em casa. Ele entra, não compromete, mas o time toma de 3 x 1. Sai Villar, entra Picerni. Marcos continua. O time toma de 4 x 2, com falhas. Balanço: dois jogos e sete gols. Marcos tem vergonha na cara e pede para sair. Quantas vezes temos vergonha na cara e pedimos para sair? Pouquíssimas, porque segundo a doutrina americana, seríamos “loosers”, perdedores, fracassados, resignados. Quando a grandeza, muitas vezes, está em reconhecer a impotência.
EDMUNDO – Mais uma vez saiu bravo. Deu duas entradas ríspidas em Valdívia, foi substituído por Picerni no treino e fez cara feia. Na coletiva, o treinador minimizou o fato. Ora, ora. Então por que o substituiu? Não é melhor todos terem disposição até no treino num momento como esse? Junta todo mundo no gramado, conversa, fala que o empenho é louvável, mas tomemos cuidado com o companheiro etc e tal. Isso, segundo alguns consultores que ganham dinheiro em certas empresas proferindo palestras, muitas vezes sobre o óbvio, é chamado de péssimo gerenciamento de recursos humanos.
FILHOS??? – Na invasão pacífica de torcedores e sócios à sala do presidente Affonso Della Mônica, não houve violência. O cartola-mor não estava lá. E coube ao diretor administrativo Roberto Frizzo dar a seguinte declaração: “A angústia deles é a nossa angústia. Todos são considerados por mim filhos do Palmeiras e essa casa é deles também”. Só faltou pregar a foto de Getúlio Vargas em alguma parede do clube. Exemplo lamentável de postura paternalista e equivocada. Que angústia? A possibilidade de queda do Palmeiras? Angústia é viver sob a mira do desemprego. É ter que fazer malabarismo no sinal de trânsito mostrando que não está armado. É chegar na caixa do supermercado e ter que deixar algumas mercadorias para trás porque o dinheiro não dá. É visitar o filho na prisão. Eles são filhos das mães dele. O Palmeiras não é pai de ninguém. É um clube de futebol criado no século XX. Só.
POR QUE NÃO LER?FUTEBOL EM FRASES, Cláudio Dienstmann. Curto e curioso. 1001 citações interessantes sobre o esporte que amamos. Alguma delas: “Futebol bem jogado é o mais belo espetáculo de imagens do mundo” ( Spielberg). “Futebol era jogado, hoje é corrido” ( Otacílio Gonçalves). “Futebol é o melhor trabalho do mundo” ( Stoichkov).
POR QUE NÃO VER?PEQUENA MISS SUNSHINE, de Jonathan Dayton e Valerie Faris. Última coqueluche dos papos de botecos. E todo mundo sai apaixonado pela menininha do filme.

BOTAFOGO DE FUTEBOL E ORGULHO
Durante a semana, torcedores adversários do São Paulo cochichavam entre si: “eles têm uma pedreira na quinta-feira, o Botafogo, no Morumbi”. Já os são-paulinos não cantavam vitória, como andaram cantando, com razão, antes de outros jogos em casa. Que delícia ouvir isso. O jogo acabou e todos tinham razão. O Botafogo foi bravo, imprensou o São Paulo, não se acovardou, jogou para a frente até o último minuto e levou três gols idênticos. Contra-ataques letais do tricolor paulista, depois de uma pressão alvinegra em busca do gol. Felicidade da torcida local, mas orgulho da torcida carioca.
Não é de hoje que o Botafogo voltou a ser respeitado. E ser respeitado é um luxo dentro do futebol brasileiro. Campeão brasileiro com autoridade, o alvinegro do Mourisco tem revelado bons jogadores, como Reinaldo, Zé Roberto e Diguinho, e chega ao fim do torneio ainda sonhando matematicamente com uma difícil vaga para Libertadores. Um tapa de luva nos apressadinhos de março. Ah, como me lembro de um turbilhão de opiniões convergentes e idênticas. O Botafogo vai brigar para não cair. O título carioca é ilusório.
E Cuca deu uma lição aos falastrões. Mais do que isso. Desde a queda para a série B, o time andava de mal com a fama de ser um dos clubes mais queridos do Brasil. Virou saco de pancada, chacota nacional e a torcida, cabisbaixa e errante, aceitava as chibatadas dos agora poderosos.
Volta o Botafogo glorioso, que não pode perder, perder para ninguém. A camisa toda preta, invenção de fabricante e patrocinador, fez do time um amontoado de árbitros, mas quando a listradinha tradicional é a escolhida, casando com o short preto e as meias cinzas, faz-se aí uma digna homenagem a Nilton Santos, Roberto, Garrincha, Quarentinha, Heleno de Freitas, Fischer, Mendonça, Paulinho Criciúma, Túlio e outros que entenderam direitinho o que é defender aquele escudo tão admirado pelas crianças. A estrela branca sobre fundo preto, como um herói de quadrinhos sem cores, só é solitária poeticamente. O planeta do futebol gira mais contente desde que o Botafogo voltou a fazer parte da constelação brasileira.
POR QUE NÃO VER?AMARCORD, de Fellini. Com o sucesso do filme brasileiro “Eu me lembro”, livremente inspirado na obra-prima do italiano, vale rever as memórias de um dos maiores cineastas de toda a história.
POR QUE NÃO LER?SIDARTA, de Herman Hesse. Ícone dos bichos grilos de outrora, nos ensina a ter sucesso na mais difícil das viagens. A viagem ao nosso mundo interior.

CONTROL C CONTROL V
(ou Recorte e Guarde)O Garamblog recebeu o texto abaixo de um tricolor, Marcelo Liporace. Sugiro aos outros tricolores usarem o comando acima e guardar no computador. Serve como documento para argumentar com os outros torcedores, já que o Fluminense caminha serelepe e fagueiro para a série B. E pior, sem vergonha na cara. É um desabafo de torcedor. Mas serve como fina ironia para os próprios dirigentes atuais refletirem sobre o ano de 2006, quando o time era favorito para o Carioca, perdeu, favorito para o Brasileiro, está quase caindo, favorito para a Copa do Brasil, perdeu, favorito para a Sul-Americana, perdeu, favorito para ser mais uma vez o Melhor do Rio, sem comentários.
É duro ver que um dos clubes mais tradicionais e vitoriosos do Brasil deixa como legado a seus torcedores apenas o exercício da retórica histórica. Porque título importante que é bom, nada.
Inúmeras vezes o Fluminense é mencionado depreciativamente na mídia esportiva. Os motivos são sempre criativos, apesar de muitas vezes estapafúrdios, descontextualizados da verdade dos fatos, como a tal versão fantasiosa e sistematicamente construída de que estamos na primeira divisão do futebol brasileiro por uma virada de mesa solitária. O comentário, retirado de seu contexto real, serve apenas à desinformação e ao reforço de um preconceito perverso.
A história do futebol brasileiro só poderá ser contada se contada como a própria história das viradas de mesa. Não se pode afirmar onde uma acaba e começa a outra, tal a promiscuidade entre seus enredos. Mas não precisamos ir tão longe; vamos começar pelo ano de 1981, quando Palmeiras, Bahia, Coritiba, Guarani e Náutico, cujo desempenho nos campeonatos estaduais foi pífio, descredenciando-os a disputar o Brasileiro, receberam gentilmente o convite para participar da festa da elite, sob o grotesco álibi de um regulamento que permitia que em um mesmo ano os clubes que disputassem a Taça de Prata pudessem ascender à Primeira Divisão. Em 1982 os beneficiários desse esdrúxulo critério foram, entre outros, Atlético Paranaense e
Corínthians, os mesmos de quem vamos falar mais à frente. Em 1986 o mesmo Botafogo do fanfarrão Bebeto de Freitas devia cair à luz do regulamento do Brasileiro daquele ano.
O Clube dos 13 prontamente correu em socorro de seu afiliado e promoveu a Copa União, mantendo o alvinegro carioca no andar de cima. Em 1993, já aí comovida com o desespero do Grêmio, que não subiu pelo campo, a CBF fez retornar à Série A os doze primeiros da B, ajudando de lambujem o Vitória da Bahia, oferecendo-lhe elevador para a cobertura em plena competição. Foi o São Caetano da vez. Há ainda os casos de São Paulo, Vasco e Santos, que não conseguiram desempenho nos estaduais de forma a credenciá-los à divisão da elite, mas foram convidados, aceitando a mesura docemente constrangidos. Há muito mais. Mas para o que aqui vai se argumentar é o que basta.
O Fluminense, pelos critérios vigentes em 1996, deveria ter sido rebaixado. Muito bem. Mas isso caso o campeonato tivesse transcorrido em um ambiente de normalidade esportiva. Qual o quê! Tão logo se encerrou a farsa, o Brasil assistiu perplexo
a uma série de reportagens do Jornal Nacional trazendo à tona um dos maiores escândalos não apenas do futebol brasileiro, mas de toda a nossa pródiga história de escândalos. Vinha à luz o indecente episódio do 1-0-0, que ficou conhecido como o Caso Ivens Mendes. Sob o olhar estarrecido da sociedade brasileira, o JN denunciava um imoral esquema de manipulação de resultados, capitaneado pelo diretor de arbitragem da CBF e pelos senhores Alberto Dualibi e Mário Petráglia, dos reincidentes Corínthians e Atlético Paranaense. Naquele momento o futebol brasileiro se viu diante de sua maior vergonha, vazou o fundo do poço nas asas da prostituição de quem por ele deveria zelar.
Quando se esperava a punição criminal dos envolvidos e o sumário rebaixamento das agremiações beneficiadas pelo esquema (que, por sinal, ganharam títulos nacionais após a irrupção do escândalo), adotou-se a solução salomônica e asquerosa de não rebaixar ninguém, limitando-se a CBF a punir desportivamente os dirigentes, e não os clubes imoralmente beneficiados. Nesse momento de mancha histórica de nosso futebol a decisão includente e equivocada deveria ter sido objeto de repúdio por parte de todos os dirigentes dos clubes não envolvidos e por toda a imprensa ética. Não se viu nem uma coisa nem outra. Em vez de protestar publicamente contra a imoralidade, um abjeto dirigente tricolor, destituído da representatividade emanada da imensa maioria de nossa torcida, fez do deboche a expressão do regozijo, espocando um champanhe que nos transformou em inimigo prioritário da opinião pública. Aquele gesto, abominável em si, teve ainda o condão de desviar do foco das medidas que deveriam ser adotadas para iniciar-se a moralização do futebol brasileiro com a punição dos responsáveis por um episódio chulo e vergonhoso, o do esquema 1-0-0. O champanhe foi o habeas-corpus da quadrilha, esta uma expressão muitas vezes usada pelo Jornal Nacional para definir a turma dos dedos leves e contas pesadas.
O Fluminense caiu em 1997. E disputou a Segunda Divisão. Caiu em 1998, e, para espanto de uma opinião pública descrente, disputou e ganhou a Terceira Divisão, tendo a correr pela beira das várzeas em que jogamos um técnico tetracampeão do mundo. Só o Fluminense, por seu passado e peso em nossa história, pôde se dar esse luxo. Estávamos preparados para disputar a Segunda, em 99, quando um imbroglio jurídico - por sinal, mais uma vez envolvendo até a medula a vestal Botafogo, do ínclito Bebeto, e o São Paulo do nem tão ínclito Sandro Hiroshi – patrocinado pelo Gama, prometia inviabilizar a realização do Brasileiro de 2000. À semelhança de 87, com a Copa União, optou-se por entregar ao Clube dos 13 a organização do Brasileiro, que recebeu a redentora alcunha de Copa João Havelange. Foram muitos os convidados, afinal a JH contou com a oceânica participação de 116 clubes! Seu regulamento era um convite ao delírio, e possibilitou inúmeras “viradinhas” de mesa nos módulos inferiores. Foram mais de 10! A JH produziu ainda um absurdo diante do qual toda a imprensa brasileira se calou: o fato de o São Caetano ter se habilitado à Libertadores sem que houvesse disputado a Primeira Divisão. Estranho, não é?
Se a JH serviu como base para definir os representantes brasileiros na Libertadores, por que não serviria para definir os participantes de nossa Primeira Divisão do ano seguinte? E aqui cabe lembrar: da JH a 2002, o Fluminense foi o clube brasileiro que mais pontos acumulou na divisão de elite.
Recusamos veementemente o papel de beneficiário exclusivo das armações do futebol brasileiro. Somos a torcida líder em acesso à internet; a responsável por transformar um simples uniforme, o laranja, no maior fenômeno de vendas entre todas as torcidas brasileiras; só perdemos em exposição de mídia, em 2002, para os finalistas Santos e Corínthians; batemos freqüentemente os recordes de audiência em tv por assinatura; somos uma nação orgulhosa de sua história, um clube de massa, com representação em todo o território nacional.
A ter que recuar para que se restaure o império da ética, voltemos a 1996, quando a face podre se tornou visível. Aí sim poderemos zerar o hodômetro moral do futebol brasileiro, com a punição exemplar dos envolvidos no episódio Ivens Mendes, inclusive as agremiações beneficiadas por essa nódoa de nossa história. Até lá exigimos que o Fluminense seja respeitado pela força de sua torcida e tradição, que não pode ser confundida com atitudes isoladas de inquilinos transitórios de Álvaro Chaves.
Não se pode embaralhar o Fluminense com o gesto isolado de um dirigente, assim como não se pode tomar o Botafogo pelo Bebeto; o Vasco pelo Eurico; a Globo pela do Galvão; a ESPN pela do Trajano. Citar o Fluminense como beneficiário exclusivo das nefandas articulações de bastidores, como exemplo único de transgressão às normas, é de um delírio cretino. Ao citar um caso isolado, tragam-no para o ambiente cultural em que ele se forjou, um ambiente em que não há bandidos nem mocinhos, e sim uma absurda cumplicidade e omissão. Só os torcedores podem mudar esse quadro.
Como nos ensinou um dos mais ilustres tricolores, o imortal Nelson Rodrigues: “O Fluminense tem a vocação do eterno: tudo passará, só o Fluminense não passará”.
O que você faria?
Afinal na série A faltam três jogos para o campeonato acabar e na série B apenas dois. E muita gente já tem a vida resolvida. Alguns para melhor, outros para pior. Juntemos as mãos e façamos um execício de encarnação esportiva e espirtual.
Se fosse jogador do Santa Cruz e tivesse um jogo em Porto Alegre fundamental para o Grêmio? Entregava os pontos? Lutava enlouquecidamente para diminuir a vergonha e quem sabe sair da lanterna? E se fosse torcedor? Passaria o dia em Boa Viagem com duas rolhas no ouvido? E pensaria seriamente em deixar as rolhas lá, porque sua paciência acabou?
Se fosse jogador do Fortaleza e tivesse que receber a Ponte Preta em casa? Olharia para o time de Campinas com ódio e jogaria qual ensandecido para puxar a Ponte também para a série B? Seria solidário e nem se importaria de perder a partida, já que do outro lado existe um time ainda com esperança? Tentaria golear para evitar ainda mais as gozações do rival Ceará, dizendo que está te esperando na Segundona. E se fosse torcedor? Iria ao estádio apoiar o Leão ou boicotaria por pura mágoa?
Se fosse jogador do Atlético Mineiro? Pouparia os músculos na capital cearense e não se importaria em ser ou não campeão da série B, porque o mais importante já aconteceu? Ou então guardaria forças para o último jogo contra o América de Natal, que talvez chegue já classificado e facilitaria a tarefa do título? Se fosse torcedor apoiaria todo e qualquer resultado porque esse Galo merece carinho?
Se fosse jogador do Sport Recife e tivesse um jogo duríssimo contra o lanterna Guarani, desesperado mas ainda com chances de se salvar? Jogaria pianinho porque o pior já passou e o Atlético Mineiro praticamente garantiu o título da série B? Ou aproveitaria o estádio vazio para empurrar de vez o Guarani sarjeta abaixo e ainda voltar para Pernambuco cheio de esperanças de levantar a taça?
É o paradoxo dos pontos corridos. Vai chegando o fim e temos três tipos de jogos. O
maravilhoso, com dois times cheios de interesses no resultado, seja para não cair, ser campeão ou se classificar para os torneios sul-americanos. O
suspeito, com um time precisando da vitória e outro completamente desinteressado e podendo, indiretamente, ajudar ou prejudicar terceiros. E o
furreca, com dois times que já resolveram a vida e simplesmente esperam o sinal do recreio para poderem descansar e esquecer, ou relembrar, 2006.
POR QUE NÃO LER?A ARTE DA ENTREVISTA, organizado por Fábio Altmann. Um primor de livro, com entrevistas históricas, de Hitler a John Lennon, feitas por grandes homens da imprensa mundial. Estava esgotado e está sendo relançado.
POR QUE NÃO VER?OS DOCUMENTÁRIOS DE MICHAEL MOORE. Com a popularidade de Bush despencando, vale rever o que o gordo de boné, com todos os seus exageros, já alertava há tempos.