ALÔ, TORCIDA DO FURACÃO! ISSO É VERDADE? E VOCÊ, QUE NÃO TORCE PARA O ATLÉTICO PARANAENSE, TORCERIA PARA SEU TIME PERDER EM NOME DE OUTRO OBJETIVO?
EIS ABAIXO UMA NOTÍCIA REPRODUZIDA DA INTERNET:Torcida do Atlético-PR quer queda do FluRubro-Negros pedem que time entregue jogo para a PonteLeandro Dias
O dia 24 de novembro de 1996 está vivo na memória dos torcedores do Fluminense e do Atlético-PR. Na ocasião, o Tricolor precisava vencer o Vitória-BA e torcer para que o Criciúma pelo menos empatasse com o Furacão, em Curitiba, para não ser rebaixado. O Flu conseguiu derrotar o Vitória, mas não contava com a derrota do Atlético em casa, o que resultou na sua querda. Dez anos depois, o time paranaense enfrentará a Ponte Preta, adversária direta do Flu na briga pelo rebaixamento, na última rodada, neste domingo e, dependendo dos resultados, poderá novamente decretar a queda do Tricolor das Laranjeiras, caso o Furacão seja derrotado pela Ponte. E se depender dos torcedores atleticanos, a comemoração será intensa.
Membros da maior comunidade do Atlético-PR no Orkut, site de relacionamentos da internet, criaram um tópico e querem que o time entregue o jogo para a Ponte Preta. Vale lembrar que em 1996, após a vitória do Criciúma por 2 a 1, os jogadores do time catarinense comemoraram com a torcida do Furacão.
Tudo isso porque na partida em que o Atlético derrotou o Fluminense por 3 a 2, pela 20ª rodada daquele campeonato de 96, o goleiro atleticano, Ricardo Pinto, que começara sua carreira no Tricolor, foi agredido pela torcida do Flu, nas Laranjeiras, após fazer um gesto obsceno para a mesma. Dali em diante, criou-se uma rivalidade entre as duas equipes.
- Depois do que eles fizeram com o Ricardo Pinto, eles precisam cair de novo. O jogo contra o Criciúma foi inesquecível. Eu lembro que teve jogador nosso cara a cara com o goleiro chutando para a lateral. Torci muito para o Criciúma. Depois do jogo ainda cantamos uma musiquinha: "Eu, eu, eu o Fluminense se f..." - recorda um torcedor, que ganha coro de outro:
- "Recordar é viver". Sugiro que, como na década passada, a gente acabasse com o Fluminense. Lembro que nos gols do Criciúma, nossa torcida vibrava. Quero esse time na Segundona - pedia um dos torcedores.
Alguns contemporizavam, mas não deixaram de alfinetar o rival.
- O Flu vai cair por seus próprios "méritos". Se Deus quiser - ironiza.
"O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: — o da imaturidade."
Nelson RodriguesPAUSA PARA UM GÊNIONelson Rodrigues foi o melhor jornalista esportivo do mundo. Conseguia transformar uma pelada em um jogo fundamental para a humanidade. Eis uma entrevista com outro grande jornalista também, Luís Mendes, sobre Nelson, com quem conviveu durante muito tempo.
Como começou a carreira de Nelson como cronista esportivo? Em 1936, o "Jornal dos Sports" era comandado pelo irmão dele, o Mário Filho, que teve a idéia de convidar pessoas que não eram do futebol para assinar colunas.
A idéia era que literatos escrevessem sobre futebol. E como Nelson era um dramaturgo conhecido, começou a escrever sobre o assunto também.
Você, que era um especialista no assunto, chegou a ler essas primeiras crônicas. Como eram? Nelson aproveitou sua paixão pelo Fluminense e foi criando um estilo próprio. Ao mesmo tempo, escrevia os contos de "A vida como ela é" para a "Última Hora" e fazia as seções esportivas do "Jornal dos Sports" e da "Última Hora", onde assinava a coluna "À Sombra das Chuteiras Imortais".
Na sua opinião, por que Nelson se destacou na área esportiva? Nelson era um grande escritor apaixonado por futebol. Nelson criou coisas interessantíssimas como, por exemplo, o Sobrenatural de Almeida, uma entidade que explicava o inexplicável.
Todos os fatos inexplicáveis, ele responsabilizava o Sobrenatural de Almeida. Se um time inferior ganhasse de um time superior, se o Bonsucesso ganhasse do Fluminense, por exemplo, ele dizia: "O Sobrenatural de Almeida não deixou o Fluminense ganhar, e ajudou o Bonsucesso descaradamente". Era a linguagem dele.
Como ele era em relação ao Fluminense, seu time de coração? Era capaz dos maiores sacrifícios pelo time. Nelson era uma pessoa que não gostava de viajar, nem de se afastar muito de casa. Costumava dizer que o lugar mais distante que visitava era o Méier (bairro do subúrbio carioca). Uma vez, o Fluminense foi jogar em Niterói. Neste tempo, na década de 60, não havia ponte entre as duas cidades, só se chegava lá de barca. Quando entrei na barca, dei de cara com Nelson, ele virou-se para mim e disse: "Ao que me leva o Fluminense, atravessar o Atlântico!" Ele estava indo só a Niterói, que é logo ali, ao lado do Rio de Janeiro...
E quando o time perdia, como ele reagia? Ele ficava triste e tal, mas não falava nada, não reclamava. Não era do tipo que ficava se queixando, contestando os fatos. Entendia.
E havia muita gozação dos colegas? Não, porque ele também não encarnava em ninguém. Quando outro time ganhava, ele aceitava e pronto.
Vocês também foram colegas na TV. Como foi essa experiência? Fazíamos o programa "Grande Resenha Esportiva", que foi a primeira mesa-redonda da televisão sobre esporte, Nelson era um dos convidados e eu conduzia o programa.
Você conheceu Nelson a partir do programa? Eu já conhecia Nelson de nome. Ele era um homem de grande prestígio, de grande força popular. Escritor, dramaturgo, essa coisa toda. Mas ele também me conhecia de nome, porque eu fazia cobertura esportiva para o rádio. Quando nos juntamos e passamos a conviver, fizemos amizade.
Você lembra de algum comentário inesquecível de Nelson na TV? Houve uma vez, num jogo entre Botafogo e Fluminense, que o árbitro deu um pênalti a favor do Botafogo. O lance era claro, o jogador tinha dado uma tesoura voadora no pescoço do Jairzinho. No programa que foi ao ar naquela noite, Nelson disse que não havia sido pênalti. Então eu disse, vamos ver o vídeo tape. Todos que estavam na mesa, João Saldanha, Armando Nogueira, José Maria de Castro concordaram com a arbitragem, menos o Nelson, que disse: "O vídeo tape é burro!". Essa frase ficou até famosa depois.
Você lembra de outros casos? Uma vez, eu e João Saldanha fomos à Argentina, cobrir um jogo Argentina X Uruguai. Quando voltamos, Nelson nos perguntou durante a mesa redonda, se tínhamos visto algum jogador que nos impressionasse. Então, eu disse: "O Labruna e Osto". E o Saldanha concordou: "Essa ala esquerda Argentina é infernal".
Aí Nelson, ordenou "Câmera em mim". A câmera fechou em seu rosto e ele Nelson soltou: "Vejam só os senhores, o Luís Mendes e o João Saldanha, que nasceram, se criaram e vivem na terra do Pelé e do Garrincha, elogiando o Labruna e o Osto!".
Ele era nacionalista, acima de tudo. Criou a expressão "Pátria de chuteiras", que no início era contestada pelo João Saldanha. João não aceitava essa idéia do Nelson de que o futebol era a tradução da pátria brasileira.
Ele tinha algum jargão, algum termo ou comentário muito usado nos debates da TV? Ele tinha umas coisas muito engraçadas. Quando ele queria encerrar um assunto, dizia: "É só". Ou seja, "não se falava mais nisso". Ele sempre usava isso.
Nelson gostava de aparecer na TV? Não. Ele era tranqüilo, muito tranqüilo. Ficava assim meio murcho, de repente, chegava a vez dele, e ele dava um show.
Durante o debate, ele e o Scassa discutiam muito. Porque o Scassa defendia o Flamengo fanaticamente, como todo rubronegro. Nelson, não. Fazia um estilo mais educado, porém muito incisivo e tremendamente inteligente.
Nelson nasceu em 1912, ano do primeiro Fla X Flu da história... Nesse primeiro Fla X Flu, aconteceu um caso curioso. Tinha ocorrido uma cisão no Fluminense: dez jogadores saíram do time e foram para o Flamengo. Então, esse primeiro jogo foi entre o ex-primeiro time do Fluminense, contra o segundo time do Fluminense, que tinha passado a ser o titular... E o Fluminense ganhou de 3 a 2!
Existiu algum Fla X Flu que tenha sido marcante para o Nelson? Nas vitórias do Fluminense, ele vibrava muito. Mas lembro de uma crônica que ele escreveu sobre um Fla X Flu, de 63. Foi o jogo que tinha levado mais público ao Maracanã até então: 172.20 pagantes. O Flamengo seria campeão com um empate, e foi empate, 0 X 0. No último instante do jogo, Escurinho, ponta esquerda do Fluminense, chegou sozinho na frente do Marcial, goleiro do Flamengo, e chutou. Marcial saltou e pegou a bola. No momento em que ele segurou a bola entre as mãos, terminou o jogo. O Nelson escreveu uma crônica sobre o Marcial, dizendo que a bola tinha homenageado aquele que evitou a vitória do Fluminense. Escreveu uma crônica linda, mesmo sofrendo a derrota.
Nelson preferia ir de arquibancada, ou de cadeira, tribuna? Ele ficava na tribuna da imprensa, sentadinho. E olha, vou contar uma coisa curiosa, ele não via direito o jogo. Ele nem olhava. Quando ouvia aquela vibração de público ele, perguntava para quem estivesse do lado: "O que foi que aconteceu?" Aí, o outro dizia assim: "O fulano perdeu um gol na cara do gol..." No dia seguinte, estava tudo lá no jornal, ele escrevia como se tivesse visto... Ele não prestava muita atenção. Acho que ele via o jogo, mas se distraía.
E como era a relação dele com os atletas? Ele não convivia com os atletas, mas escrevia sobre eles com muita propriedade. Sobre o Garrincha, por exemplo, acho que nunca ninguém escreveu tão bem... Quando não tinha assunto, ele falava do Garrincha...
O Nelson tinha algum jogador preferido? Acho que era mesmo o Garrincha. E o Pelé também. Como eu. Se me perguntassem quem foi o maior jogador do século, eu votaria no Garrincha.
Na copa de 62, Garrincha confirmou isso pro mundo, ganhando praticamente sozinho. O Pelé se machucou no segundo jogo e não voltou mais. Garrincha então assumiu todas as jogadas da seleção brasileira. Ele armou, chutou em gol, fez gol de cabeça, fez tudo. Foi a maior proeza individual da história das Copas. Nem o Maradona em 86, que fez grandes jogadas, chegou aos calcanhares do que fez o Garrincha, em 62.
Nelson costumava fazer comentários para o rádio durante o jogo, na cabine do Maracanã? De vez em quando. Às vezes, ele ia à cabine, e eu perguntava: "Nelson, como você vê o jogo e tal?" Ele costumava admitir se o adversário estivesse sendo superior, mas não era muito incisivo na demonstração dessa superioridade.
Qual a sua opinião sobre o Nelson escritor? Nelson escrevia muito. Sabia escrever até como mulher. Foi como Susana Flag, que ele fez uma novela que se tornou muito famosa, um livro grande, imenso. Como era o nome desse livro? Não lembro agora o nome, mas era um nome bem bonito, bem escolhido....
Era "Núpcias de Fogo"? Isso. Nelson era muito bom para dar títulos. Ele tinha uma coluna que se chamava "Meu Personagem da Semana", no jornal. Uma vez, falei pra ele: "Nelson, você escreve muito bem, é uma maravilha sua forma de escrever, mas esse título está errado gramaticalmente. Ele perguntou: "Como assim?" Expliquei que a palavra personagem era feminina e ele concordou: "Você tem razão, mas eu não vou mudar o título." Acabou que ele tinha razão, porque atualmente as duas formas, feminina e masculina, são aceitas.
Nelson Rodrigues se dividia entre a crônica esportiva e o teatro. Como ele transitava entre esses dois mundos? O futebol nunca colidiu com o teatro. O teatro tem matinê, de tarde, mas tem à noite a mesma sessão. Então, ele sempre conseguia freqüentar os dois...
Nunca houve uma colisão entre as duas paixões. Ele adorava o teatro. Na minha opinião, Nelson é o maior autor brasileiro. Era muito incompreendido na época. Uma vez, foi vaiado no Teatro Municipal, e escreveu em sua crônica que vibrou com a vaia. Ele considerava a vaia como uma consagração.
Nelson escrevia sobre todos os assuntos, era um homem eclético. No meu modo de ver, ele foi perfeito em tudo. Foi muito bom em tudo aquilo que fez. Embora, na época em que estava vivo, fosse muito combatido. Alguns críticos de teatro arrasavam o Nelson.
MAIS DE NELSON NA PÁGINA WWW.NELSONRODRIGUES.COM.BR
OS ELEITOSEleição, qualquer que seja, tem lá seus encantos e polêmicas. Se votar em um candidato já dá um barulho daqueles, onze então. Mas como andaram pedindo os meus votos, já que Milton Leite, Poli e Lédio abriram as cédulas deles, eis o que mandei para a CBF compilar e premiar, segunda-feira que vem, no Theatro Municipal, do Rio, os melhores do Brazucão 06. Fiz uma licença poética no meu time. Recuei um pouco Iarley, para premiar o bom campeonato dele. Mas confesso que o time não é lá essas coisas. Talvez tenha sido o torneio do conjunto, dos bons técnicos e não dos craques.
Rogério Ceni (SPFC)

Ilsinho (SPFC)

Fabão (SPFC)

Fabiano Eller (INTER)

Marcelo (FLU)

Josué (SPFC)

Mineiro (SPFC)
Iarley (INTER)

Morais (VASCO)

Reinaldo (BOTA)

Souza (GOIÁS)

Treinador: Muricy
Árbitro: Simon
GLOBO ESPORTE ANTECIPOU...Eis os três goleiros candidatos:
Rogério Ceni, Sampa, Diego Cavalieri, Palmeiras e Bruno, do Flamengo.
O que acham???
FIGURINHAS (CONTINUAÇÃO)....— Foda-se. Isso aqui não é drama de novela das seis. Pago com cheque na padaria.
Estava certo.
— Ainda dá para comprar um negócio, amigo?
— Dá doutor, só que os jornais já acabaram.
— Figurinha tem? — perguntou ao mesmo tempo em que esticava os olhos para dentro da banca. Logo viu o bolo de pacotes azuis fechados, envoltos por um elástico creme.
— Qual?
— As do Campeonato Brasileiro.
— Mas já fechei o caixa, o senhor tem trocado?
Tinha. E comprou dez. Pôs a pasta no sovaco esquerdo e foi caminhando e abrindo e seguindo a canção.
Como era horário de verão no Rio, às sete da noite ainda não estava escuro. Mas o dia ficava com aquela cor a que os franceses chamam de “entre le loup et le chien”. Entre o lobo e o cachorro. Para o caçador, é difícil distinguir ao longe se o bicho uiva ou late. No Brasil, o popular lusco-fusco. Enfim, estava difícil ver as figurinhas. Abriu o primeiro pacote e se empolgou. Não tinha as quatro. Nem acreditou. Vibrou muito por dentro. “Yes! Yes! Yes!” Dentro das probabilidades matemáticas era um milagre. Mas elas estavam lá, sorte pura. Argel, Elias, Wallace e Dil. Legal. Finalmente desencalhou.
Abriu mais um.
Odair, Nei, Rogerinho e Adriano.
— Puta que o pariu, não tenho nada!
A adrenalina que sentiu foi impressionante. Nada similar a um gol no último minuto. Era um êxtase repentino, misturado à raiva e vingança. Quis voltar e dar um beijo no jornaleiro, mas a banca já estava fechada.
Terceiro pacotinho.
Sotelo, Darci, Batata e Jean.
— Catso mio! — berrou em bom italiano. O velhinho que passava estranhou. Homem barbado desses dando soco no ar com figurinhas nas mãos.
Fez as contas rapidamente. Faltam 28.
Cristiano, Camanducaia, Dida e Éder Aleixo.
— 24!
Deu vontade de beijar o camelô e explicar a história toda. Que nada. Márcio quer abrir o quinto. Chegou a sonhar o impossível.
— Seria a maior cagada do mundo se eu tirasse todas as que faltam. Dá certinho. Quarenta figurinhas em dez pacotes.
Mascote do Vasco, Fabrício, Batistinha e Alemão.
Tirar vinte inéditas em cinco pacotes já era a maior cagada do mundo. Sonhava em ver a cara do filho Vini, que certamente responderia que para ele, Vini, só faltava uma. Dane-se que o pai tirou vinte em quarenta possíveis.
Tupãzinho, Renato Gaúcho, Odemílson e Ronaldo.
Coisa de Deus. Qual é mesmo o santo padroeiro das figurinhas?
A essa altura do campeonato, Márcio já tinha a certeza mística de que completaria o álbum. Começou a abrir com mais cautela ainda. E pensou: “Vou deixar para abrir o último lá em casa”.
Hélio Maranhense, Itaqui, Djair e escudo do Criciúma.
Ergos, Adinam, Pitarelli e Ronald.
Nonato, Galeano, Sérgio Manoel e Cleiton.
Não tinha nada.
Só falta um pacotinho. Colocou o bolinho salvador na pasta e foi se encaminhando para casa. Sua cabeça estava a mil. Acabava de protagonizar uma história inesquecível e talvez inacreditável. Era preciso contar para Patríca, para o filho, para o chefe e torcer para que acreditassem. O jornaleiro poderia ser uma testemunha. Olhou para os céus, beijou o último pacotinho. E saiu cantarolando.
— Completei, oi, completei, oi...
Estava se lixando para o ridículo. Ria de orelha a orelha. Encontrou uma senhora anônima.
— Completei o álbum, minha tia. Completei.
De repente, estacou. E se o último pacotinho fosse diferente, ou melhor, normal. Iam ficar faltando quatro. O filho ia achar que ele comprara as outras figurinhas e que era tudo mentira. Parou na portaria. Pensou. Mas queria compartilhar a alegria com a família. Vinicius era cabeça-feita e não ia se deprimir porque o pai completou o álbum primeiro. Se completasse, claro.
Pegou o elevador.
Morava no quinto.
Faltavam quatro.
Parou no terceiro.
Pensou um segundo.
Apertou a emergência. Solavanco abrupto. O elevador deu uma sacolejada, vomitou um barulho mecânico assustador e ficou lá no terceiro mesmo. Márcio refletiu mais um segundo e resolveu abrir o último pacotinho. Devagar.... devagarzinho.
Samuel...
Mona...
Gallo...
E Ronaldo Marconato!
Ronaldo Marconato!
— Eu te amo, Ronaldo Marconato!
Pôs o elevador para andar. Não resistiu e soltou berros adolescentes.
— Puta que o pariu! Cadê o Marconato, ninguém sabe, ninguém viu! Ê ô, ê ô, Marconato é o terror!
Pensou em ir ao 503 antes de ir para casa. Poderia esfregar as figurinhas na cara daquele moleque atrevido, impertinente, abusado, aleijado, manco, cego, gago, bicha, leproso.
Melhor ir para casa.
Completou o álbum antes de todo mundo.
Juntou as últimas quatro figurinhas ao bolinho. Daria um beijo em Patrícia e faria um suspense sacana com o filho. Claro, perguntaria pelo desempenho acadêmico de Paula. Em que período que ela está mesmo?
Mais um álbum completado. Só que esse com a ajuda de Deus.
Deus?
Enfiou a mão no bolso, pegou as chaves de casa.
— Completei o álbum, graças a Deus.
Deus?
Tirou o molho de chaves do bolso. Primeiro a Papaiz. Enfiou no buraco dentado. Rodou. Parou.
O arrepio voltou com uma força impressionante. Tremeu.
Deus?
Pela primeira vez, desde a hora em que tirara as duas moedas do bolso perto do jornaleiro, trocou o emocional pelo racional. Dez pacotes. Quarenta figurinhas. Todas inéditas. Completou o álbum que há mais de uma semana estava estagnado.
Estranho.
Deus?
Estranho Deus.
Começou a sentir frio, arrepios, medo.
Ouviu um barulho. Olhou para trás. Pela primeira vez, em doze anos de prédio, achou o corredor longo demais.
— Vinicius, não é o teu pai aí na porta? — ouviu a mãe perguntar, de dentro do apartamento.
— Acho que é. Vou ver.
O tempo de Vinicius chegar até a porta durou uma eternidade.
Uma eternidade gélida, apavorante. Um estranho sentimento fúnebre se apoderou de Márcio. Jurou que sentiu cheiro de enxofre. Largou a chave. Suava mais que pára-brisa na neblina. Estava desesperado. Em pânico. Pensou na vida, em Vinicius, em Paula, em Patrícia, no parto de ambos. Na vida, na mãe, no pai, no Botafogo, no Brasil, na puta que o pariu. Na vida.
Vinicius chegou.
De dentro do apartamento, desvirou uma vez a chave. A maçaneta rodou. Márcio sentia a camisa social colada nas costas. Ensopada. A porta se abriu.
— Pai?
Entrou voando em casa. Esbarrou em Patrícia. Levou um esporro. Foi direto à mesinha de cabeceira.
Primeira gaveta.
Nada.
Segunda.
Nada.
Terceira.
Nada.
— Cadê????
Cadê o quê? Se espantou a família.
Na cozinha. Lembrou que de manhã o folheara na cozinha. Correu.
Achou. Estava em cima da geladeira, ao lado do liqüidificador. Com medo abriu. Faltavam quarenta. Saiu em disparada e atingiu o corredor do prédio.
Coincidência ou não, um raio rasgou o céu. Verão no Rio. Vem temporal. A esquadria de alumínio do basculante do corredor brilhou. Em segundos caiu um temporal. Verão no Rio.
Morreu de medo. Aproveitou que Vinicius deixara a porta de casa aberta. Correu até o incinerador que ficava próximo às escadas, no corredor. Tentou abrir. Era de ferro, já carcomido e enferrujado. Forçou. Cortou a mão. Sangue. Teve a certeza que carecia.
Pensou um segundo.
Outro raio.
Chutou a portinhola de ferro, que esganiçou e abriu lentamente, chiando histérica e aguda.
Arremessou o álbum de figurinhas lá dentro. A caçamba engoliu. Teve a sensação de também estar sendo sugado. Apoiou as duas mãos na parede para não ir junto com o álbum, que lentamente, como um pássaro abatido, caía sem resistência pelo esôfago do prédio. O filho e a esposa, encostados na porta do apartamento, nada entendiam. Voltou correndo para casa, empurrou os dois, abriu a pasta, que jogara em cima da cama de casal, pegou as quarenta figurinhas. Voltou. Jogou-as também no incinerador. Desceu correndo pela escada. Vinicius, de bermudas, descalço e sem camisa, olhava estupefato. A esposa, de penhoar, mostrava espanto e incredulidade.
Quinto.
Quarto.
Terceiro.
Segundo.
Térreo.
Desceu mais um. Até a garagem. Chamou o faxineiro.
— Chico!
Chico veio calmo, mas foi logo apressado.
— Abre isso aí!
— Posso não, seu Márcio.
Enfiou a mão dentro do macacão cinza do faxineiro, pegou um molho de chaves, percebeu logo qual era a certa. Chico, assustado, saiu fora.
Abriu a porta central do incinerador. Sentiu um calor terrível e fedorento saindo das entranhas do lixo. Olhou fixamente para o cubículo negro durante dois minutos, algumas figurinhas ainda caíam devagarinho do quinto andar.
Ergos, Cleiton, Ronald...
Lentamente os jogadores iam sendo cremados.
O álbum já lambia e se contorcia. Ficou preto. Sumiu.
O último a cremar no forno foi Alemão, do São Paulo.
Márcio ficou lá ainda por uns cinco minutos. A fuligem invadiu seu rosto, seu bigode, sua barba.
Fechou a porta, o barulho de metal o assustou. O frio passara. Deixou o molho de chaves na porta do incinerador. Berrou por Chico, mas antes que o faxineiro chegasse, pegou o elevador dos fundos. Subiu.
Entrou em casa sem falar com ninguém.
Não jantou.
Dormiu.
Levantou de manhã e foi trabalhar. Patrícia nunca lhe perguntou nada, muito menos Vinicius.
Márcio até hoje não sabe se alguém completou o álbum.
Márcio até hoje não sabe se ele completou o álbum.
A única coisa que Márcio sabe até hoje é que ele não comprou pão naquele dia. De manhã, comeu cream cracker. Com requeijão.
FIGURINHASDez ou vinte?
Vinte, claro. Agora ele tem dinheiro.
Quando não tinha, nem dez eram.
Eram dois, no máximo três.
Pacotinhos. Mágicos pacotinhos. Na sua época de moleque os pacotinhos tinham cores pardas e papel vagabundo. Atualmente seguem normas técnicas e padronização industrial. Não são tão mágicos. Mas são pacotinhos. A velha mania de erguer o pacotinho, colocá-lo contra o sol e olhar os limites das figurinhas para não rasgá-las quando abri-lo ainda permanece.
— Vinte pacotinhos do Campeonato Brasileiro, por favor — pediu ao jornaleiro, sem vergonha alguma. Lógico, poderia estar comprando para os filhos, os sobrinhos ou para si mesmo. O jornaleiro, um tal de seu Mônaco, sabia que muitos marmanjões compravam figurinhas, pois eles próprios colecionavam o álbum. Não era crime. Era até mais lucrativo, pois crianças compram pouco, adultos compram muito. Adoram se vingar da infância carente, quando eram privados de loucuras consumistas por pais comedidos. Quantos autoramas hoje são vendidos para macacos velhos frustrados? “Autorama não cabe aqui em casa!”, disseram os pais dos macacos, quando o motivo verdadeiro era um só. Falta de dinheiro mesmo.
Márcio observou Mônaco. Doutor Márcio e Seu Mônaco, se for o caso. Ia contando na mente os pacotinhos que o jornaleiro ia separando. Como Mônaco não era bobo, sabia da malícia e pegava um da parte de cima do bolo, depois um do meio, depois o último e assim em diante, na progressão geométrica mais louca, porém mais lógica, de que se tem notícia no mundo dos cálculos. Mônaco não fazia isso porque era um cara legal. Fazia porque conhecia seus clientes. E já tinha sido criança um dia. E hoje, mais do que ninguém, sabia que as editoras adoravam repetir figurinhas em pacotinhos próximos.
Márcio tinha lá seus 44 anos e dois filhos. Paula e Vinicius. Paula fazia arquitetura, Vinicius fazia o álbum do Campeonato Brasileiro. Levava vantagem sobre o pai pois trocava figurinhas na escola. Mesmo tendo alguns amigos adultos que também colecionavam, Márcio não costumava levar diariamente seu montão de repetidas para a repartição. Não pegava bem. Até o dia em que seu chefe perguntou?
— Trouxe?
— O quê?
— Figurinhas — sussurrou o manda-chuva, do alto dos seus 43 anos.
— Amanhã trago — prometeu.
— E a gente troca no banheiro.
Trocar figurinhas no banheiro não é coisa de macho. Pensando bem, trocar figurinhas no banheiro é coisa de muito macho.
Tenho, tenho, não tenho, tenho, tenho, tenho, tenho, não tenho, tenho, tenho, tenho, tenho, não tenho.
Sempre que chegava em casa, desafiava o filho.
— Tirei o Túlio Maravilha, mané!
— Me dá, me dá. Só falta ele na página do Fogão — implorou Vinicius.
— Que isso, Vini? Figurinha é coisa séria. Não tem essa de pai e filho, não.
— Ah, é? Então quantas faltam para você?
— Setentinha....
— Rá, otário, faltam 43 para mim.
— Que isso, garoto? Chamando seu pai de otário?! — irritou-se um pouco Márcio.
— Ah, pai, colé? Figurinha é coisa séria. Não tem essa de pai e filho, não.
— Vamos acabar com a palhaçada? Vinicius, larga isso, acaba de fazer o dever e vem jantar. Márcio, quer fazer o favor de trocar de roupa, lavar as mãos e vir para a mesa?
Dona Patrícia deixava claro que achava um absurdo o marido, naquela idade, colecionar figurinhas. Pior, ficava gastando dinheiro em vez de guardar na poupança para trocar o carro, um Uno Mille 89, que não subia ladeira de jeito algum, por um outro carro mais potente. Nas poucas discussões que tinham, as figurinhas predominavam como assunto principal da discórdia. Desde que casaram. No começo curtia, achava legal o espírito jovial do marido, o surpreendia de noite trazendo pacotinhos da banca perto do banco onde trabalhava e até colava algumas figurinhas no álbum. Afinal, era melhor que ele trouxesse figurinhas da banca de jornal e não revistinhas pornô.
Depois encheu o saco.
Era inútil convencê-la matematicamente de que não era um rombo no orçamento colecionar figurinhas uma vez por ano. Ainda mais quando tinha Copa do Mundo! Aí era obrigação. O único ano em que não colecionou nenhum álbum foi 1993. Ainda bem. O Botafogo fez uma campanha ridícula e ele se recusaria a ter em casa o álbum de um campeonato onde seu time ficara em 31o lugar.
Eram 32 times.
Outra frustração foi o de 89. O Vasco foi campeão. Até aí tudo bem, pelo menos não era o Flamengo. Mas ficou faltando só uma figurinha. Uma mísera figurinha para completar o álbum.
Zé do Carmo.
Foi humilhante.
Foi jantar.
Foi colar as que tirara.
Vampeta, Sérgio Soares, Bolé, Célio Silva, André Pimpolho, Vilmar, Givaldo, Edinho Baiano, Niltinho, escudinho do Cruzeiro e Rodrigo. Onze em vinte pacotinhos. Tá bom. Diferentes das do ano passado, essas agora são autocolantes. Não gostou. O bom é a melequeira da cola Polar. Ou Cascolar. Aquele cheiro inconfundível, a mumunha de colar no álbum pondo uma bolinha do líquido branco em cada um dos quatro cantos do verso da figurinha e uma no meio. Quando era moleque, não colocava no meio.
Para poder tirar com a faca depois.
E negociar por muitas figurinhas com os inimigos do bairro. O trágico era quando conseguia uma boa cotação por alguma figurinha já colada e, na hora de retirá-la do álbum com uma faca, a ansiedade dominava e o rasgo era inevitável. Negócio desfeito e álbum estragado.
Certa vez comprou dez pacotes na saída do trabalho. Deixou para abrir em casa. Tinha vergonha de mostrar seu vício dentro do ônibus. Quando chegou e sentou na poltrona creme da sala, Vinicius se aprochegou e começou a ajudar a abri-los. Logo parou. O olhar do pai, silencioso e frustrante, o despertou.
— Você quer abrir todos, né?
— É — respondeu o pai, ruborizado.
O filho era compreensivo e passou os cinco minutos seguintes olhando Márcio abrir os pacotinhos. Era um ritual.
Primeiro passo, uma balançadinha. Não aquela balançadinha no piru quando o xixi já foi todo embora, aquilo é balançadona. E carece de técnica e precisão para o líquido amarelo não atingir as pernas do companheiro do mictório. Era uma balançadinha suave, sutil, de leve. Depois, virava o pacote de cabeça para baixo. Rasgava na ponta esquerda e tirava de uma só vez uma tirinha de menos de um centímetro. Com a mão direita pressionava o pacotinho, eliminando o vácuo e revelando as quatro figurinhas. Retirava elas cuidadosamente, para nenhuma rasgar e iniciava o suspense.
A primeira dava logo para ver, as seguintes sofriam a mesma agonia que as cartas no pôquer. Abertas lentamente, uma a uma, o escudinho do clube ia aparecendo e de repente...
— Adoílson! Não tenho!
O tempo ia passando e o filho o deixando para trás.
— Pai. Tenho algo chato para te dizer. Acho que você não vai gostar.
Tensão.
— Repetiu de ano? Virou bicha? Tá fumando maconha? Terminou com a Glorinha? Virou Flamengo?
— Não, só faltam treze...
Ira.
— Merda! Desgraçado! Não te dou mais dinheiro para passagem!
— Foi trocando, pai, trocando... ha, ha, ha! — saiu correndo quarto adentro.
Márcio estava arrasado. Não podia desabafar. Era o tipo de papo que a esposa Patrícia não estava muito a fim de ter. Mas era importante. Para o chefe da repartição faltavam sete, para Vinicius treze, para o moleque do apartamento 503, a quem interceptara no elevador, faltavam cinco, para o filho da Estela, do trabalho, oito e para ele, quarenta!
Quarenta! Nunca acontecera uma distância tão grande entre ele e os competidores mais próximos. Quarenta era demais. E há tempos que não conseguia novas. Comprava dez pacotes e já tinha todas, ia olhar o bolinho de repetidas dos outros e tinha tudo. O que estava acontecendo? E Patrícia não compreendia.
Ia para o trabalho ansioso. Sabia que seria caçoado pelo chefe. A cada dia faltava menos para seu superior completar o álbum. E Márcio empacado nas quarenta figurinhas. Toca o telefone. É Vinicius.
— Pai, faltam sete para mim, mas tenho uma boa notícia. Consegui o escudo do Bragantino!
— Esse eu já tenho, caceta, falta o do Santos.
— Putz, é mermo. Foi mal, é que é meio parecido.
Uma semana depois já tinha gente desesperada procurando o Saulo, do Paraná Clube. Era o pirralho do 503. Pirralho, não. Pirralho escroto filho da puta nojento. Prestes a completar o álbum. Para Márcio continuavam faltando quarenta. Pensou em escrever escondido para a editora solicitando as que faltavam e mandar todo mundo à merda. Mas não seria ético de sua parte. E figurinha é coisa muito séria. E ética.
Deu na louca e comprou cinqüenta pacotes.
Nada.
Pior, estava tão transtornado que não mostrava mais as repetidas para o filho. Vai que ele finaliza o álbum na sua frente.
Cada dia um sofrimento. E se alguém completa antes dele? O filho da Estela tirou o Saulo! Graças a Deus ele não tinha. Vai que é repetida e o putinho do 503 descobre?
Não estava mais conseguindo trabalhar. Já sabia de cor o nome dos quarenta jogadores que faltavam.
Comprou mais cinqüenta pacotes.
Nada.
Trocou de banca. Comprou mais trinta.
Nada.
Fez o sinal-da-cruz antes de abrir.
Nada.
Parou um garoto na rua que estava batendo figurinhas com outro colega. Tirou a carteira do bolso e disse que pagava um real por cada uma que não tivesse. Os moleques adoraram.
Tenho, tenho, tenho, tenho, tenho, tenho, tenho e.... tenho!
Merda!
Os moleques não entenderam nada. Acharam que era promessa.
Só faltava uma para o Vini.
Borges. Goleiro do Vitória.
Que coisa mais sem graça. Completar um álbum com o Borges, do Vitória. Desdenhou para si. Mas logo se lembrou de Zé do Carmo. De 1989...
Vergonha.
Lembrou-se de Romário e Edmundo. Ambos não toparam participar do álbum e desfalcaram a página do Flamengo, onde jogavam.
Vergonha.
Só falta o Palhinha para o chefe.
Só falta o Bobô para o filho da Estela.
Só faltam quarenta para Márcio.
Que coisa de louco. Chegou a combinar com Mônaco, o jornaleiro, de deixar a lista com os números das que faltavam, mas de nada adiantou. Por incrível que pareça, ninguém tinha.
Greve. De ônibus. Vai ter que voltar de metrô. Saco. A estação, em Copacabana, fica longe de casa. Pegou carona com o chefe, que por ser chefe tinha direito a uma vaga no prédio do banco. Evitou conversar sobre figurinhas.
— Não vai dar para te deixar em casa, mas eu dou uma paradinha no Lido.
— Tudo bem, eu dou uma andada.
— Vai ver o jogo, amanhã?
— Não sei. Qual jogo?
— Acorda, Márcio. Grêmio x Ajax, seis da manhã.
— Ah, claro. Vou.
Estava tão transtornado que começou a se perguntar quais as figurinhas do Ajax que faltavam. Aí lembrou que o Ajax joga na Holanda.
— O Grêmio ganha? — perguntou ao chefe, com medo dele responder algo como “ganhar eu não sei, mas que eu completei a página do Grêmio, eu completei, ha, ha, ha”.
— Ganhar eu não sei, mas que vai ser jogo duro, vai. O Ajax está jogando muito. Vi um jogo deles na TV a cabo.
Ufa.
Pararam.
— Aqui tá ótimo, obrigado.
— De nada, Márcio. Até amanhã.
Saiu do carro, pegou a direção de casa mas teve que parar. O chefe buzinou.
— Ô Márcio, faltam quantas mesmo para você?
— Quarenta — respondeu, envergonhado.
— Não esquece de mim se tirar o Palhinha. Nem estou comprando mais.
Era seu trunfo. Ninguém estava comprando mais. Quando começam a faltar menos de cinco figurinhas, todo colecionador que se preza pára de comprar. O trabalho aí passa a ser o de pesquisa. O boca-a-boca atrás das que faltam. Seu único medo era ficar mais preocupado com as figurinhas que não tinha do que com a campanha do Botafogo, que ia bem e tinha chances de ser semifinalista do campeonato. Cruzeiro e Fluminense já tinham se classificado.
Voltou devagar para casa, olhou as lojas que começavam a cerrar as portas, cumprimentou o quitandeiro, comprou um pãozinho de queijo recheado com provolone e passou por uma banca de jornal que já fechara. Apenas a porta lateral estava aberta. O jornaleiro fazia a última conferência.
Automaticamente, Márcio meteu a mão no bolso. Duas moedas de um real. Dava para dez pacotinhos. Mas lembrou também que tinha que comprar pão.

A foto acima foi feita na Paraíba. E meu desejo seria estar numa dessas cadeirinhas, papeando com amigos. Sobre tudo, sobre nada, ou sobre dois textos bacanas. Um acadêmico, outro poético. O primeiro é de Nelson Rodrigues:
“Quando acabou a etapa inicial do jogo Brasil x Paraguai, o placar acusava um lírico, um platônico 0x0. Ora, o empate é o pior resultado do mundo. O torcedor sente-se roubado no dinheiro da entrada e inclinado a chamar os 22 jogadores, o juiz e os bandeirinhas de vigaristas. Acresce o seguinte: de todos os empates o mais exasperante é o de 0x0. Essa virgindade desagradável e irredutível do escore já humilhava o público e, ao mesmo tempo, o enfurecia.”O segundo de um teórico inglês, Terry Eagleton, professor de teoria cultural na Universidade de Manchester.
“É verdade que existe uma forma específica de cultura que possui significado político extraordinário. Trata-se do esporte e, em particular, o futebol. Basta pensar em como seria transformada a paisagem social e política britânica se não mais existisse o futebol para fornecer às pessoas a tradição, o ritual, o espetáculo dramático, o senso de existência corporativa, a hierarquia, a lealdade, a agressividade selvagem, o combate gladiatório, o espírito de rivalidade, o panteão de heróis e a apreciação de habilidades estéticas que fazem falta tão grande ao cotidiano capitalista.”
A INTOLERÂNCIA E DEUSVocê acredita em Deus? Não importa. Você acredita em intolerância? Importa. Um torcedor do PSG foi morto com um tiro num subúrbio de Paris. Ele e mais uma turba de intolerantes encurralaram um torcedor israelense do Hapoel, que vencera o time francês, pela copa da Uefa, por 4 x 2. Um policial francês, negro, foi defender o encurralado. E acabou virando vítima de insultos racistas, além das ameaças de agressão física e morte. A dupla oprimida acabou dentro de um banheiro de McDonald´s, trancada e aterrorizada. E veio a morte do insano.
Há duas semanas, uma foto prosaica na internet emocionou o mundo. Uma mãe inglesa deu a luz a gêmeos. Um negro e um branco. Independentemente de explicações genéticas, o simbolismo comove. A tal Natureza, estuprada diariamente pelos habitantes do planeta, ensinando regras básicas de convivência e sobrevivência. Não importa a derme nem a cor. Os genes podem ser iguais. Todos somos iguais. Para desespero dos intolerantes. E felicidade dos que acreditam ou não em Deus.
Não satisfeita com os gêmeos botafoguenses, a Natureza ainda me apronta mais uma. Olhem o que aconteceu em Porto Alegre:
Moradores da periferia de Passo Fundo (315 km de Porto Alegre) acreditam que uma gata do local deu à luz filhotes de cachorro, que ela está amamentando.
O diretor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Passo Fundo, Adil Pacheco, pretende coletar nesta semana amostras de sangue dos animais para confirmar que eles não têm nenhum tipo de parentesco.
Segundo o professor, que visitou o local no último sábado, a gata pariu em um campo aberto e o mais provável é que ela tenha "herdado" os filhotes de alguma fêmea canina que também tenha dado à luz por perto.Que América e Paulista sejam muito felizes. Seja na B ou na A. E que São Raimundo, Guarani, Vila Nova, CRB, Paysandu e Portuguesa sejam muito tolerantes. Seja na B ou na C.
A Grande Ilusão
Não, não, o post não tem a ver com o filmaço de Jean Renoir, que revisita a Primeira Guerra Mundial e nos emociona por esculachar a irracionalidade humana.
A Grande Ilusão no Brasileirão é olhar a tabela, daqui a cinco anos, ou quem sabe no mês que vem, e sermos traídos por mentiras e falácias que ocultam a realidade do campeonato.
Senão, vejamos.
1 – O Fluminense jamais entrou na zona de rebaixamento. E foi o time que mais perigou cair para a série B, tirante os que caíram, claro.
2 – O Palmeiras, na voz do próprio Juninho, só não caiu porque os outros conseguiram ser piores.
3 – O Corinthians, com a tal incrível reação comandada por Leão, continua um time limitado, previsível e satisfeito com vitórias por 1 x 0.
4 – Os cinco principais artilheiros do campeonato não têm a menor chance de ir para a Seleção. Souza, Schwenk, Cícero, Soares e Tuta.
5 – O grande herói da série B não foi o Galo, nem Timbu, nem Leão. Palmas para o América de Natal, dono da campanha mais kamikaze, com apenas três empates.
6 – O Flamengo continua frágil, apesar da Copa do Brasil e da posição na tabela. Se não melhorar, sai cedo da Libertadores.
7 – O Santos também precisa melhorar. O time se sustentou lá em cima, mas está longe de ser um esquadrão.
8 – Mineiro corre o risco de ser o melhor do campeonato. Pior para o campeonato que tem um volante gente boa, corredor e destruidor como seu melhor jogador.