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Garambone

Sidney
Garambone

Jornalista

Na imprensa há 20 anos e com passagens por Jornal do Brasil, O Globo, O Dia e Istoé, é atualmente editor-chefe do Globo Esporte e debatedor do Arena Sportv. Tem mestrado em Relações Internacionais, escreveu três livros
( O Caçador de Barangas, em 2000,
PÉ DE PATO



Galvão Bueno tem um pacto com o futuro. Não é possível. O jogo estava 1 x 1, o chimarrão estava começando a entornar e, de uma hora para a outra, ali, na altura dos 25 do segundo tempo, o narrador começa a crescer o tom: “Muita gente lutou para estar aqui! É a história de um clube! É o Colorado gaúcho tentando uma vaga na grande final. Tem que ser agora. Tem que pressionar. É escanteio. É agora! Vamos, Inter. Fernandão, Iarley, Eller e o garoto Luis Adriano que entrou agora são bons de cabeça. Bateu Ceará... GOOOOOOOOOOLLL!

E falemos do pé de pato. Em todo o Brasil, a expressão que traz sorte é a do “pé de coelho”. Mas foi o pé de pato o grande responsável pela classificação brasileira para a final.

Pé de Pato 1 – O toró que caiu em Tóquio deixou a pista olímpica encharcada e o gramado escorregadio. Mas as chuteiras bem escolhidas, o pneu biscoito do futebol, não traíram o time de branco, elegantíssimo aliás, que fez do gramado piscina e bateu pé que foi uma beleza. Apesar de não dar show.

Pé de Pato 2 – O Internacional ataca, perde a bola, luta, recupera e ela sobra para o pé do Pato, que de prima, rapidinho, sem dar a chance a El Hadary, abre o placar. A jogada não foi semelhante, mas lembra um cadinho o primeiro gol da Seleção na final contra a Alemanha, em 2002, no mesmo país. Ataque, bola perdida, persistência e gol. Só que de Ronaldo.

Pé de Pato 3 – Na verdade, Mão de Pato, porque Clemer estava pensando na morte da bezerra quando o angolano Flávio testou para dentro e empatou o jogo.

Pé de Pato 4 – Aí o pé do Pato abriu o bico. Uma pancada, uma câimbra, uma tremedeira, como queiram, tirou o garoto-revelação do Sul do jogo. Em campo, Luis Adriano. Para os torcedores de outros clubes, um ilustre desconhecido. Para os são-paulinos, uma lembrança sonora de Luis Fabiano. Para os colorados, um moleque que pode decidir. E decidiu.

Agora é hora de torcer para o Ameriquinha. Que nada, que venha o Barcelona porque a gente é doente por jogos inesquecíveis. E vamos torcer muito para o Ronaldinho Gaúcho fazer três gols.

E o Internacional fazer quatro...
Escrito em 13/12/2006 |Comentários: »
Eis o mistério da fé...


Caiu em minhas mãos o VT do jogo Brasil x Argentina, final da Copa das Confederações. Vi e misturei em minh´alma nostalgia e melancolia. O que a Seleção jogou naquele dia foi barbaridade. Adriano, levinho, voava em campo, acertava os chutes e brilhava para desespero dos argentinos. Com a camisa 10, Ronaldinho Gaúcho comandava o time ao lado de Kaká, promovendo triangulações, passes precisos, toques rápidos e envolvendo sem dó os rivais.

E na Copa nada aconteceu. Era a seleção dos prega-presas. Pesada, cansada, burocrática e sem graça. O que será que realmente aconteceu? Pode um time excelente deixar de jogar bola? Pode jogadores-chave resolverem de uma hora para a outra tornarem-se paquidérmicos. Casagrande, o comentarista, acha que o time passou do ponto. É boa a tese. Fisicamente não foram recuperados. E eu, leigo que só, me pergunto se em vez de ficar fingindo que treinavam, pois acompanhei todos durante a Copa, não era melhor duas vezes por semana imersão geral em piscinas, para relaxar e recuperar músculos cansados de temporadas européias.

Tudo isso me veio a mente depois de ver, mais uma vez, Ronaldinho Gaúcho mostrando que é o melhor do mundo. Aliás, continuo cravando, ele será o eleito pela Fifa. A goleada do Barcelona no esforçado América dos Astecas mostrou mais uma vez o craque dentuço atuando como uma espécie de pivô intelectual do time catalão. Quase todas as jogadas passam por ele.

Conclusão assumidamente precipitada: só uma coisa explica a barracão dele na Seleção. Dunga até hoje não engole o lençol que levou do moleque naquela final do Gauchão de 1999.


Você sabe que o mundo acabou quando...

Vai de carro ao Parque do Ibirapuera para mostrar à filha a Bienal e a exposição MAM na Oca e vê os guardas da CET preocupados em multar todos os carros em vez de procurar opções de vagas, que seria a função deles.
Escrito em 14/12/2006 |Comentários: »


CONVOCAÇÃO ANÁRQUICA!


Muito mais importante do que ficar espalhando o hino gay do Grêmio. Até porque isso traz um preconceito absurdo. Muito mais importante do que promover correntes na Internet ironizando o campeonato brasileiro do São Paulo através de piadinhas e apelidos novos para o Morumbi. Muito mais importante do que gastar energia xingando o vizinho simplesmente porque ele torce para outro time. Muito mais importante que esperar jogador na porta do estádio e xingar a família do pobre coitado.

Talvez seja um sonho anárquico. Um desejo juvenil. Mas como seria bom se todas as torcidas brasileiras se unissem e, repetindo um canto inesquecível na final do Brasileirão de 1984, quando tricolores e vascaínos bradaram, emocionados, “DIRETAS JÁ, O POVO QUER VOTAR”, resolvessem vaiar. Mas vaiar muito. Com faixas e refrões. Vaiar os deputados que reajustaram seus próprios salários enquanto o salário mínimo e o reajuste dos aposentados passam longe, léguas, destes vencimentos astronômicos que superam os R$ 20 mil.

E quem sabe, numa faixa perdida no meio da multidão, sugeríssemos que todo deputado e senador teriam o salário definido pelo povo. Através de plebiscito. Porque deve ser maravilhoso poder trabalhar num lugar onde você decide quanto vai ganhar. Ainda mais quando o dinheiro é público.

E ainda tem gente que fica com inveja dos salários dos jogadores de futebol.


Para os que querem mexer uma palha apenas, vale acessar:
http://www.PetitionOnline.com/oeleitor/petition.html

É uma petição on line para os amiguinhos de Brasília.
Escrito em 15/12/2006 |Comentários: »


Eu acredito em saci


Ainda há mais o que escrever sobre o título mundial do Internacional?

Tão logo acabou o jogo, sôfrego corri para o computador. Não era meu. Não era virtua. Não era rápido. Digitei o que o coração brasileiro mandava. E saiu o post abaixo:

O misterioso Brasil do futebol


Sejamos francos e pragmáticos. A fama de Barcelona, Liverpool, Chelsea, Milan,
Borussia, Bayern e outros grandões europeus é resultado da trajetória sócio-economômica
do mundo. Quis a trajetória da humanidade que a Europa inventasse, que a
Europa colonizasse, que a Europa matasse. Hoje, seguindo o conceito francês
da tríade, manda no mundo os EUA, beneficiados pelo tipo de colonização,
a Europa e o Oriente de olhos puxados. O resto se segura como pode. Destaque
para Brasil e Austrália. O dinheiro circula potente nesses centros mandatários,
o futebol nos últimos 30 anos virou um excelente produtor gerador de riquezas,
então lá foram eles importar maciçamente a matéria-prima altamente qualificada.
Os times têm charme? Tem. Mas o dinheiro é que os faz potentes.

Lindo imaginar uma Libertadores com Messi em algum time argentino, com RG
no Grêmio, Fenômeno no Flamengo, Kaká no São Paulo e por aí vai. Mas não
dá. Por isso que é lindo ver, e não imaginar, os times brasileiros chegando
no Japão, jogando o futebol que tem que ser jogado e, para desespero da metrópole
financeira, ganhar, ganhar e ganhar. Como filmes hollywoodianos mentirosos.
Com a consciência de que são mais fracos, porém repletos de alma oprimida.

O misterioso futebol do Brasil


Isso foi de manhã. É hora de mudar. Agora, ainda noite, ainda calor, devidamente municiado da rapidez de outro computador, penso no dia. Teria sido curiosidade ou coincidência o Telecine passar o filme da vitória americana sobre a Inglaterra em 1950?

O filme é fraco. A transformação do estádio do Fluminense, em Laranjeiras, no estádio da Independência em Belo Horizonte, é patética. Algumas tomadas, no Rio, pegam cabines atuais da polícia e edifícios construídos há menos de dez anos. Mas a moral da história é conhecida. Pernas-de-pau americanos, ajudados por um africano, seguram a soberba do English Team e conseguem talvez o maior feito na história das Copas.

Mas não é isso que interessa. O hemisfério é o sul e o nosso herói não é Tio Sam e nem invade Coréias e Iraques. Nosso herói é negro e pula numa perna só. O que aconteceu este domingo em Tóquio entra para o folclore brasileiro. A lenda do Saci que ganhou um jogo sozinho, contra onze cavaleiros de duas pernas.

Ficaria fácil encarar os colorados como os patinhos-feios. Os coitadinhos da América do Sul. E eis aqui a inversão da história.

Favorito era o Internacional. Ou você não acredita em Saci? Logo Frank Reijkard, cheio de origens nas antigas guianas holandesas, foi cair nessa?

Favorito era o cearense Iarley, cara de cangaceiro destemido, sem medo de cabeludos catalãos, capaz de assumir a braçadeira de capitão e pôr na roda os zagueiros espanhóis no fim do jogo. Só um favorito encomenda uma bandeira do estado do Ceará para mostrar na entrevista depois do jogo.

Favorito era o biônico Fernandão, cara de guerrilheiro brasileiro, titânio na testa e discurso articulado. Quando disse que era um sonho jogar contra craques consagrados pela mídia internacional, estava se referindo aos jogadores do Barcelona, ilustres convidados de mais uma artimanha tática verde-amarela. O São Paulo fez igual. Eu finjo que estou sendo dominado e você finge que me domina. Mas no fim do jogo, quem samba sou eu. Tal e qual a vida diária de qualquer brasileiro.

Favorito era Gabiru. Andarilho sem muita fama, mas com um currículo estrelado no futebol brasileiro. Entrou, se deslocou, recebeu e tirou o sorriso de Ronaldinho Gaúcho. O gol que derrubou os catalãos foi de Gabiru. Gabiru. Adriano Gabiru. Topete fora de moda, linguajar tosco, mas um olhar indígena que desafia, sem ser prepotente, qualquer carabina ibérica. Impossível não ser leviano. Ronaldinho Gaúcho parecia muito mais triste e arrasado do que em Frankfurt, depois do chocolate francês.

Favorito era o Pato. De aparelho nos dentes e desde moleque vendo e estudando a fama do Barcelona e suas pesetas fora de circulação.

Favorito era Abel. Que a cada ano aprende mais. Aprende não, ensina. Erroneamente tachado de botinudo, ensinou aos espanhóis que um time formado quase 100% por brasileiros, com direito a um Índio, sempre é favorito para ganhar de uma legião de novos-ricos apaixonada pelo Velho Mundo.

Longe de ser rancoroso. Mas num momento de desencanto geral com certos brasileiros de terno, gravata e salário de R$ 24 mil, é muito bom ver o Brasil vencer novamente. E poder gastar interurbano parabenizando gaúchos como Galito, Kia, Alemão, Klein, Ihitz, Paulo Vaca, Zanini, Brito e tantos outros guris favoritos de Porto Alegre.

Ah, claro, e o Saci.
Escrito em 17/12/2006 |Comentários: »


Retrato de um artista quando jovem


Quem sou eu? Vejamos no espelho. Tenho ao redor do pescoço um grande colar dourado segurando um pingente pesado, caro, com a letra “R”. Entre as orelhas, um sorriso constante, por vezes espontâneo, por vezes sem graças. Meus olhos parecem os de um réptil. Minha tez é morena.

Mas quem sou eu? Há poucos ouvia aplausos, meu ano parecia inesquecível antes de começar, meus passos eram seguidos e minhas jogadas repetidas até junho.

E veio o primeiro tombo. Um tombo alemão, inesperado, inoportuno, indecente e descarado. Joguei pouco. Parecia pregado, preso. Não sei ao certo se preso à vaidade ou ao mero cansaço da temporada desgastante. Jamais posso admitir que senti ciúmes dos que faziam gols. Ciúmes dos dribles que não dei. Ciúmes de um time estranho. Até o pagode desafinou. Ou fui eu?

E eis o dilema. Quem sou eu? Ao sair do banho, no vestiário em Frankfurt, olhava para meus companheiros, alguns cabisbaixos, outros já secos e recuperados. Não era só o Brasil que estava decepcionado. Era o mundo. A legião de velhos e jovens que aprendeu a ser brasileiro a cada quatro anos desde 1958.

Voltei para casa. Casa espanhola. Voltei para meu cachorrão branco. A família tentou me convencer que nada demais tinha acontecido. E eu acreditei. E aprendi a desaprender a ganhar.

Quem sou eu?

Quem é você? Perguntou-me Dunga por duas vezes. Ao me ver no banco da Seleção, confundi-me de vez. Minha personalidade escorreu pelo ralo. Não gritei. Não berrei. Mas a humilhação fez-se metástase em minha alma.

Aprendi a perder.

E sem o peso da vitória, fiquei mais leve. Ri das críticas da imprensa catalã e logo logo voltei a jogar bem. E não foi nenhuma campanha da ONU, apesar do logo da Unicef em meu peito. Salvei-me da bruxa, que impiedosa capturou o argentino e o camaronês. Fiz gols bonitos. A liderança ia e voltava na tabela. E dezembro foi chegando.

Mês do Mundial. Mês do Internacional. Havia o América do México antes, mas eles jogavam e deixavam jogar. Brilhei novamente quando não precisava. Não, não, não posso acreditar nisso. É cruel eu mesmo achar que não sou decisivo exatamente na decisão. Tenho personalidade. Já levantei troféus jogando bem na final. E lá vem o Internacional. Ou melhor, “eles”.

Amigos antigos do Olímpico me ligaram. A volta do Gre-Nal. Comecei a me lembrar de quem era eu. Um brasileiro nascido no Sul, bom de bola e que driblava críticas, como a de que estava gordo, com lances inesquecíveis. Certa vez, dei um lençol no atual treinador da seleção brasileira.

Esse sou eu.

Mas será que ele resolveu se vingar desta forma? Pondo-me no banco seis anos depois?

Esse não é ele.

Espero.

Sou eu sim. Ronaldinho Gaúcho. De novo nas capa do jornal. E lá vem o Internacional. Mas eles já sabiam quem era eu há muito tempo. E não me deixaram andar. Diferentemente da Copa, tive uma boa desculpa. A marcação. Perdi, perdemos. Novamente. Mas já aprendi a desaprender a ganhar. Além do mais, um jatinho me espera. Preciso ir para Zurique.

Quem serei eu? O melhor do mundo? Sei que sou. Sei que sabem. Mas foi a vez de um italiano aparecer nas fotos. Um zagueiro. O mundo também já não sabe bem quem é.

Terceira derrota, terceira frustração, mas já ganhei tanto nessa vida, já sambei tanto. E já sei quem sou.

Sou um craque que perde. Apenas isso. Nada mais do que isso. Pelé perdeu. Maradona perdeu.

O problema é que eles sabem exatamente quem são.

E eu? Quem sou eu?

POR QUE NÃO LER

BARTLEBY, o escriturário. De Herman Melville, mesmo autor de Moby Dicky. Livro curto, tenso, denso e simbólico. A falência do homem urbano vista de forma rascante. Escrita em 1856 e relançada com pompa, mas a edição antiga e baratinha ainda é encontrada.

POR QUE NÃO VER

O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS, de Cao Hamburger. Metade do filme é político, metade é futebol. Dá um jogão sentimental.
Escrito em 19/12/2006 |Comentários: »
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