PALMEIRÃO OU palmeirinha?

O jornalista Ricardo Bereicoa é um frasista nato. Muitas vezes ele nem concorda com o que cunha, mas o impacto de suas declarações basta para a felicidade dele. “Não tenho CD em casa”, “Mulher com pulseira no tornozelo é mais seduzível” e “Não vou a filmes com orçamento menor que 100 milhões de dólares”. Esta última minha preferida. É óbvio que Bereica, apelido de Ricardo, já viu muito filme independente ou produções do Terceiro Mundo bem mais baratas do que isso. Mas a potência da frase está no conceito. Tendo ou não 100 milhões em caixa, o diretor precisa pensar que tem 100 milhões em caixa. E com isso, ser capaz de imaginar a melhor seqüência, o melhor roteiro, os melhores atores ( e não os mais famosos) e também ser capaz de não economizar nas tomadas. Que sejam feitas vinte, para ser filtrada a melhor.
E nós com isso?
Pensar grande não é ser megalômano. Pensar grande não é jogar dinheiro fora. Quando um governo pensa grande ele não faz obras faraônicas, ele pensa no mais pequeno dos cidadãos, no mais esquecido, do que perdeu o orgulho e é capaz de esmolar num sinal, farol, semáforo, sinaleira qualquer do país. Pensar grande é não ter vergonha de rimar elogios e mandar para o amado ou a amada. Já estando ou não conquistado ou conquistada. Pensar grande é chutar de longe. É tentar o drible. É ir ao estádio ver qualquer bom jogo.
Pensar grande não é jogar no Palestra contra o Santos. O treinador do Palmeiras, Caio Júnior, figura séria, gente boa e competente, já não pode ser chamada de um belo exemplo da “nova geração” de treinadores brasileiros. Caio assumiu ter pedido a transferência do primeiro clássico do Paulistão. Tirar do Morumbi e levar para a rua Turiassu, nas Perdizes, sede do time verde. Mas, tirar do Morumbi porque o jogo é contra o São Paulo?
Não. O jogo é contra o Santos. E o problema foi a argumentação de Caio. Segundo ele, “é a nossa casa e tem que ser um caldeirão para os adversários”. Ora ora, novo Caio, caldeirão? Um clube como o Palmeiras, com a história e títulos do Palmeiras, precisa de caldeirão? Precisa é jogar bola, orgulhar a torcida e ser campeão.
O pensamento medieval, já que caldeirões de óleo quente desciam fervendo em antigos castelos invadidos, não é privilégio de Caio Jr. O Fluminense, em suas fases terríveis, achava o máximo jogar em Laranjeiras. Medo de encarar o Maracanã. O Botafogo, que atraía turistas e rivais para o Maracanã na época de Garrincha e Nilton Santos, também andou elogiando o alçapão do Caio Martins, em Niterói. O Atlético Mineiro já teve jogo bom, recente, no Independência.
Alas históricas e muita gente da turma do amendoim dirão que o palmeirense não gosta de ir ao Morumbi. Concordo e discordo. O Palestra Itália é uma graça. Estádio simpático, no meio do clube, dá para ver até gente tomando banho na piscina. Come-se um sanduíche de pernil divino nas redondezas. E mais de uma vez, mais de dez, Palmeiras e Santos se enfrentaram lá.
Porém, transformar em caldeirão é pensamento antigo, retrógrado e vai entrar na lista das expressões que precisam morrer no futebol. Time grande não tem caldeirão. Time grande tem fidalguia de receber qualquer adversário, sem pressões ou intimidações, sem molhar o gramado antes, sem picuinhas ou artimanhas pequenas.
Seria lindo o Morumbi, filosoficamente um estádio neutro, apesar do escudão são-paulino no gramado, abrigar uma multidão ansiosa pelo jogo do líder contra o quinto colocado. Jogo importante, pois uma vitória palmeirense esquentaria a briga pela liderança e poria o grande Palestra nas quatro primeiras colocações e concorrente às semifinais.
Mas, como mandante, o Palmeiras optou por jogar em casa. Logo, em vez de 50, 60 mil ingressos à venda, apenas 27 mil lugares. Clássico não devia ter mandante. Devia ter torcida. Quanto mais melhor, dos dois times.
POR QUE NÃO LER?MIDLESEX, de Jeffrey Eugenides. Extenso romance, premiado, contando em primeira pessoa a história e drama de um hermafrodita de origem grega. Narrativa nova, poética. Mais uma dica preciosa da querida Beatrice Braune, leitora atenta e inconformada.
POR QUE NÃO VER?MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO, de Marc Foster. Depois de fazer um dos filmes mais lindos do século 21, “Em busca da terra do nunca”, o diretor por pouco não faz um dos filmes mais belos do mundo. Os últimos 10 minutos mancham um cadinho o brilho do roteiro, mas há quem diga ser proposital, pois denunciaria a ditadura do final feliz. Vejam e opinem.
PÍLULAS, DRÁGEAS E OUTRAS VÍRGULAS...
- Dodô, que estrela tem o artilheiro da Estrela.

- Como perde gols o São Caetano.

- O que é mais chato? A novela Mineiro, a novela Nilmar, a novela Romário, a novela Rebelo, Chinaglia e Fruet? Pelo menos as duas primeiras envolvem milhões, enquanto a última envolve quinhentos e poucos deputados, que deviam estar já pensando em algo mais efetivo para resolver a miséria brasileira.

- Falaram do Flu, mas olha o Fla fazendo bonito...

- Jorge Wagner é bom jogador. Mas já não tem muita gente ali no lado esquerdo do São Paulo?

- Você sabia que a folha de pagamento do Santos é a maior do Brasil? Nem eu.

- Achei falta do atacante Cleberson, da Cabofriense no zagueiro do Botafogo, se não me engano Leandro Guerreiro. E não no goleiro Max.

- Finalmente Nery deixa o Parque.


Por que o Milan quis Ronaldo?Porque o Milan não é brasileiro.
Brasil.
Terra estranha, que só apóia um ídolo se ele estiver no auge o tempo todo. Terra intolerante, que não suporta o mesmo ídolo nas manchetes por muito tempo. Terra esclerosada, que esquece fácil as glórias de seus próprios filhos. Terra egocêntrica, que acha ser a única a gostar e jogar futebol. Terra intrometida, que acha ter o direito de mandar um jogador se aposentar. Terra esquizofrênica, que falsifica carteira de estudante e se escandaliza com os escândalos protagonizados por Brasília. Terra exagerada, que leva às alturas qualquer autor de gol bonito. Terra injusta, que joga nos ombros de um só o fracasso de todo um grupo. Terra cínica, que canta na Alemanha “olêlê, olálá, Ronaldo vem aí, o bicho vai pegar”, mas na primeira falha do atacante espinafra a vida pregressa do craque. Terra financista, que prefere desvalorizar o passe de Ronaldo em vez de enaltecer o interesse de um dos maiores clubes do mundo. Terra intrometida, que espia a vida íntima de seus ídolos. Terra descarada, que critica a vida íntima de seus ídolos sem olhar para o que faz no dia-a-dia, mas que não sai na Caras. Terra criativa, que prefere apelidar Ronaldo de Joelho Podre enquanto os europeus criam o "Fenômeno".
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu Brasil
Ó pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!
Boa sorte, Ronaldo. Cale nossas bocas mais uma vez.
Velozes e furiosas...
- E agora, São Paulo, a culpa foi de quem?

- Christian no Sul. Estranho, muito estranho.

- O “maligno” eixo RJ-SP está esquecendo de elogiar a bela vitória paranaense na Libertadores. Olha o Zetti acertando a mão.

- Martim, filho do ex-presidente do Inter, vai ter que lutar sempre para provar que o pistolão valeu a pena. Só um gol não basta. Mas é um bom começo.
O que Romário vai falar?



A Fifa percebeu que estava sendo ranheta e liberou Romário. E o quarentão, de cabelos brancos e língua presa, continuará seu périplo quase solitário em busca do milésimo gol. Continuará criticado, ironizado, sendo chamado de ex-jogador em atividade, oportunista, espertalhão. Se conseguir, temos que aplaudir. Se alguns dos gols mais recentes foram contra times horríveis, outros valeram em dobro. Ou mais. Do Brasil saem craques todos os anos, mas Romário tem uma importância histórica pouco percebida. Depois dos monstros sagrados do tri do México, a Seleção continuou tendo jogadores maravilhosos, inesquecíveis, ímpares, mas só em 1994 voltamos a triunfar num Mundial. E Romário foi o símbolo.
Mas o post não é sobre Romário. Creio que, nem que seja a fórceps, ele chegará aos mil gols. Quem dera que todos continuássemos atrás de metas, mesmo quando o “mercado” nos considera ultrapassados. Imaginemos, ou melhor, antecipemos pois o dia do gol 1000 de Romário. O que ele vai falar?
Mas o post não é sobre Romário.
É sobre Pelé.
Sobre o que Pelé falou quando fez o milésimo gol.
Lembremos.
Rio de Janeiro, quarta-feira, onze e vinte e três da noite. Menos de um ano para a Copa de 70. Dia da Bandeira, 19 de novembro.
Maracanã. Vasco x Santos pela Taça de Prata, o Campeonato Brasileiro de então. O jogo estava 1 x 1, gols de Benetti e Renê contra. Aos 34 minutos, o Rei trombou com o zagueiro vascaíno Fernando. Priiiiiii! Apitou Manoel Amaro de Lima. Pênalti.
O resto é história. Paradinha, chute no canto, Andrada quase pegou e socou o solo. O tempo parou durante alguns minutos. Enxurrada de microfones. O primeiro dele de Geraldo Blota, da rádio Gazeta, que até hoje chora ao lembrar.
E o que Pelé falou?
a) “Tem que aturar!!!”
b) “Eu sou phoda!!!”
c) “Chupa, Vasco!!!”
d) “Esse gol foi do grupo!!!”
e) “É para você, esposa querida!!”
f) “O rei sou eu!!”
g) “Segura essa, argentino!”
h) Palavrões em geral.
Não. Pelé não pensou nele. Pelé pensou nas criancinhas. Pelé começou a falar das criancinhas do Brasil. Ele tinha feito o milésimo gol. A catarse era geral. Era arquibancada. Era nacional. Cem mil pessoas foram ao estádio para ver este gol. O país todo viu e ouviu o gol 1000. E Pelé pediu para todos olharem pelas criancinhas. Em 1969. Em plena ditadura militar.
Durante anos, foi gozado. Virou piada nacional. As criancinhas de Pelé... rá, rá, rá. Mesmo sendo tricampeão mundial logo depois, mesmo sendo mais admirado que os Beatles, mesmo sendo a nova referência mundial do Brasil depois de Carmem Miranda, Pelé continuou sendo, após encerrar a carreira, ironizado pela frase das criancinhas. Consideram a frase bobinha, infantil, naïf.
Pelé era o que mais tinha razão entre todos os 90 milhões de brasileiros de então. Porém, ninguém atendeu ao pedido do camisa 10 do Santos. Ninguém olhou pelas criancinhas. Nem a ditadura, nem a democracia vindoura, nem o ministro que matava nem o ministro que falava.
E as criancinhas ou morreram antes de tornarem-se adultas, ou mataram quando se tornaram adultas.
Pelé não foi vaidoso. Foi direto. Havia poucos meninos de rua, não havia massacre na Candelária, nem Pixote. Mas Pelé antevia o pior. E chamou a atenção. Afinal, craque é aquele que antecipa. Foi mais fácil para a maioria tornar ridículo o pedido dele. Era mais difícil resolver o problema da infância órfã, analfabeta, violenta, drogada, que jamais aprendeu numa sala de aula que é muito feio matar alguém.
Pelé continua aí. As criancinhas também.
E Romário, o que vai falar?

Carta aberta para o meu avôMas pode ser para o seu também. Ou para sua avó. A minha não gostava de futebol.
Primeiro, uma historinha. Meu avô, o sobrenome denuncia, veio da Itália. Da Itália pobre, da Basilicata. Chamava-se Pasquale e era alfaiate. Brigava comigo na mesa dominical, pois defendia as benesses promovidas pelo Duce, e eu esbravejava, adolescente, contra qualquer ditadura. “Mas ele eletrificou toda a Itália!”, berrava o pai da minha mãe. “E eletrocutou os comunistas”, retrucava o filho da minha mãe. “Ele unificou a língua italiana”, alegava Garambonão. “Mas cortou a língua de muitos italianos”, contestava Garamboninho.
Para me acalmar, pedia mais macarrão e ia buscar água na cozinha. Dentro do antigo móvel, jazia imóvel uma caneca com o escudo do Vasco. Eu fitava esta caneca desde que aprendi o que era futebol. E para me aproximar do “vovô Pasqual”, todas as vezes, repito, todas as vezes em que ia visitá-lo eu pedia a benção e perguntava:
- E o Vasco, vô?
E ele respondia, mecanicamente:
- Vai bem.
Ou:
- Vai mal.
E com isso eu me achava um neto educado.
Aí meu avô morreu. Aos 89 anos e ainda lúcido. Foi minha primeira morte próxima. Não entendi nada. No enterro, entre conversas fiadas de parentes sem saber o que conversar, comentei da canequinha do Vasco e da saudade que ela me traria. Eis que meu tio cearense e parnasiano, Juarez, informou-me em voz baixa:
- Seu avô não era vascaíno.
Ih! Não? E a caneca?
- A caneca era do seu tio Toninho. Que saiu de casa mais cedo e a deixou na cozinha.
Meu avô era tricolor. E morri sem saber.
Fim da historinha, aproveito o contato literário com o maior alfaiate italiano que este país já viu para perguntá-lo:
Vô, na sua época os jogadores ficavam só um mês nos clubes e trocavam de camisa?
Vô, na sua época as torcidas torciam ou se matavam apenas?
Vô, na sua época os marmanjos falsificavam carteiras de estudantes?
Vô, na sua época um jogador prestes a fazer mil gols era boicotado?
Vô, na sua época os uniformes dos grandes clubes eram maculados pelo patrocinador?
Vô, na sua época os jogadores diziam que a derrota era culpa da imprensa e do juiz?
Vô, na sua época o Pan-Americano de São Paulo custou mais do que o planejado?
Vô, na sua época a Maria Ester Bueno tinha que provar que era boa a cada ano?
Vô, na sua época a Ucrânia comprava jogador brasileiro? E a Turquia?
Vô, na sua época Emerson Fittipaldi já era considerado o pioneiro brasileiro na F-1?
Vô, na sua época o vôlei brasileiro era copiado pelos europeus?
Vô, na sua época qualquer um fazia foto sua e exibia para milhões sem autorização?
Vô, na sua época alguém tinha medo de ir aos estádios?
Vô, na sua época a Seleção jogava no Maracanã, no Morumbi e no Mineirão?
Vô, na sua época cabeça-de-área era o salário mais alto de algum time?
Vô, na sua época as bolas de futebol eram brancas?
Vô, na sua época os jogadores se preocupavam em dar bom exemplo?
Vô, na sua época era melhor ou pior ou apenas diferente?Não deixe de dar um beijo na vovó e na tia Aurora.
Ah sim!
Vô, e o Vasco?
POR QUE NÃO VER?O HOMEM DUPLO, animação bem diferente baseado em história de Philip K. Dick. Um libelo contra os cadastros. Roteiro instigante. Uma espécie de “Heavy Metal – Universo em Fantasia” do século 21.
POR QUE NÃO LER?NOITES ANTIGAS, de Norman Mailer. Muito doido. Muito grande. Muito bom.