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Garambone

Sidney
Garambone

Jornalista

Na imprensa há 20 anos e com passagens por Jornal do Brasil, O Globo, O Dia e Istoé, é atualmente editor-chefe do Globo Esporte e debatedor do Arena Sportv. Tem mestrado em Relações Internacionais, escreveu três livros
( O Caçador de Barangas, em 2000,
COPA DOS NOMES DO BRASIL



Não é só no Brasil que as copas representam a chance para times que não estão na Primeira Divisão ganharem os tais 15 minutos de Andy Wahrol. Mas no lado de baixo do Equador, a competição mostra uma outra faceta maravilhosa do país do futebol. Os nomes e apelidos. Criativos, diferentes e inusitados. Para uma classe média acostumada a batizar seus filhos de forma, digamos, convencional, a Copa do Brasil é um desfile mais parecido com um grande livro de cartório.

Ei-los:

Jamba ( Operário)
Lugano ( Operário)
Simonei ( Operário)
Eloir ( Operário)
Zico ( Adesg)
Piu ( Adesg)
Bigal ( Adesg)
Melque ( Colo Colo)
Rodiney ( Colo Colo)
Labilá ( Fast)
Baleia ( Fast)
Kitó ( Fast)
Gibi ( Fast)
Bazinho ( Fast)
Bugica ( Parnahyba)
Pituca ( Atlético-GO)
Bocão ( SERC)
Buiú ( SERC)

Escrito em 15/02/2007 |Comentários: »


O PARTICULAR JEITO DOS ESTADUNIDENSES CURTIREM ESPORTE DE ALTO RENDIMENTO



Há um consenso geral de que os reis do entretenimento são os nativos dos Estados Unidos. No teatro, com as três Broadways, no cinema com Hollywood, na Literatura dividindo espaço com os grandes escritores de França e Rússia e na televisão através deste monte de seriado chato que inunda o cabo brasileiro.

E no esporte?

Sempre que queremos criticar e reclamar das pocilgas que são nossos ginásios e estádios, gostamos de citar a NBA, NFL e outras ligas da terra de Bush. Comida digna, estacionamento, transporte, shopping e outras facilidades que atraem a família inteira para o mundo esportivo.

Porém, cabe aqui uma discussão econômica e sociológica. Rasa, mas que vale a pena.

Vocês já repararam como os esportes preferidos nos Estados Unidos são cheios de intervalos?

O futebol americano pára toda hora entre uma investida e outro em busca de um “touchdown”. Não à toa os intervalos comerciais do Super Bowl custam uma nota verde.

A NBA, para quem já assistiu ao vivo, também produz a multiplicação do tempo. Nos ginásios, inclusive, fiscais ficam na porta dos acessos organizando a saída e entrada dos torcedores durante a partida.

A Fórmula Indy e a Nascar, com suas bandeiras amarelas, permite que qualquer um vá ao banheiro e não perca nada do que aconteceu na pista.

O beisebol também permite idas regulares à cozinha em busca de biscoitos, cervejas e sorvetes. Nos estádios, nas filas das lanchonetes, televisões transmitem a partida, em andamento, para os comilões.

O hóquei idem.

E por que esta tradição foi construída? Há duas explicações convergentes.

Como disse o amigo Cauê, aqui da redação, “jogo rolando e hot dog bombando”. A parceria entre os periféricos e a atração principal é perfeita. Os times ganham mais dinheiro se a torcida perde tempo nas inúmeras lojinhas em busca de souvenirs. Os restaurantes e lanchonetes faturam alto, garantindo o aluguel do espaço e justificando novos investimentos na estrutura da arena.

E, parece, a alma esportiva do torcedor americano não suporta ficar muito tempo concentrada, sofrendo, vibrando, curtindo cada detalhe de um bom primeiro tempo de futebol com seus 45 minutos mínimos de tempo corrido.

Há menos paixão. Os gritos de incentivo são artificiais e postos nos placares eletrônicos. E ninguém volta para casa deprimido e nem pensa em matar os torcedores adversários que, muitas vezes, são simplesmente turistas que acabaram de comprar uma camisa do rival.

É melhor? É pior? É mais civilizado? Ou apenas diferente?
Escrito em 16/02/2007 |Comentários: »


EXISTE EX-CRAQUE?


As rainhas de bateria normalmente são gostosudas que só gostam de samba durante o carnaval. Paciência. Os saudosistas reclamam da falta de moças das próprias comunidades. Mas as próprias escolas optaram por isso, de olho nos flashes e nas notícias nas colunas sociais.

O duro é que, como o tempo é uma fábrica de monstros, as beldades envelhecem e não servem mais. São descartadas. Pelo menos as moças da comunidade podem parar na ala das baianas, já que o mundo é bobo, machista e resolveu mudar o conceito de beleza lá pelos idos do século 19. Antes disso, e os quadros impressionistas nos mostram, as mulheres não precisavam ter uma forma pré-definida para agradar. E o intelecto e o apego às artes pictóricas e musicais tinham mais valor. Apesar de uma subserviência muito maior ao homem.

Ou seja, no carnaval existe ex-rainha de bateria.

E no futebol?

Duas questões me perturbam. Quando um grande jogador aposenta as chuteiras ele continua sendo um craque. Ou vira um ex-craque? Se eu fosse um deles, ficaria muito feliz de ser chamado eternamente de craque. Mas não ficaria magoado, porque a questão é mais simples que a próxima.

Um craque em atividade, mas que já não repete, por causa da idade, a freqüência de jogadas maravilhosas que encantou o mundo, é um ex-craque? Vamos a alguns nomes: Romário, Edmundo, Juninho Paulista, Rivaldo, Ortega, Batistuta e Figo são ex-craques? Ou devemos ser menos rigorosos e aceitar que eles morem no nosso imaginário como eternos craques?




E aproveitando a prosa, outra questão bacana. Os apressadinhos de janeiro já elegeram Santos e Grêmio como os times da moda. Será? Não estamos sendo novamente precipitados? Ou os rivais enfrentados pela dupla já são um bom parâmetro para o duro ano que vem por aí?

Depois da bela vitória sobre os arruaceiros paraguaios, o gremista Mano Menezes foi claro. Disse que pela primeira vez um adversário de peso foi enfrentado, o que mostra que o trabalho que está sendo feito no Grêmio está no caminho certo.

Já o Santos já passou pela provação de um clássico. E foi bem, empatando em 3 x 3 com o Palmeiras na casa do rival. Na Libertadores, o Blooming não foi páreo.

Não se trata de diminuir as campanhas de Santos e Grêmio. Acho inclusive que são mesmo os dois times do momento. Mas ainda é cedo para sabermos se outros clubes acertarão o pé a curto prazo e incomodarão a hegemonia inicial de santistas e gremistas no coração dos cronistas.
Escrito em 17/02/2007 |Comentários: »
O BALANCÊ, BALANCÊ....




O balanço da rodada momesca


Estava eu a escavar uma ladeira. Sábado de carnaval. Noite solitária. Para a direita, para a esquerda, para a direita, para a esquerda. O deslizar suave do rolamento ganhava pausas barulhentos quando a manobra fazia o asfalto grunhir. Nunca é tarde para andar de skate.

O vento no rosto, o temor do tombo, a felicidade. Sem Ipod nos ouvidos, foi bem mais fácil pensar na vida, nos doidões que conversavam na praça, na rodada dos Estaduais.

Quantas surpresas.

Será? Ou mais uma vez fomos trapaceados pelas certezas do futebol. Se na filosofia econômica, Schumpeter já bradava que “nada mais traiçoeiro do que é evidente”, como poderíamos cravar que o Botafogo já seria o semifinalista da Taça Guanabara? Havia o perigo iminente da derrota do Flamengo, vindo das alturas bolivianas e pousando no calor de Hades em Bangu. Ela aconteceu. O ex-tricolor Marcelo fez um gol inspirado nas velhas arrancadas de Romário e Ronaldo, facilitado pela língua de fora dos defensores rubro-negros.

E lá de cima do skate, pensava eu: é fácil dizer que o Botafogo entrou em campo de sapato alto, achando-se já classificado e esquecendo que o Boavista, apesar de papel secundário no campeonato, podia surpreender. A defesa alvinegra, mais uma vez mal, tomou 3 gols num jogo só, novamente. Mas será que temos o direito de fazer esta análise, do alto de nossos teclados imperiais? Também fazia um calor de cão, o time não entrou concentrado e perdeu. O campeonato carioca é cruel neste ponto. São poucos jogos e a última rodada costuma ser fatal para tropeços inesperados. E temos agora a certeza de uma final entre um grandão, Flamengo ou Vasco, contra um ex-grande, América, ou um velho pequeno conhecido, Madureira.

No Maracanã, sorte dos gringos que foram ver um show de golaços. Os tricolores reclamam muito da arbitragem. O zagueirão Thiago pulou de braço no chão. Mas na primeira vista, pensei ser pênalti. E como diz Alex Escobar, o árbitro só tem direito à primeira impressão. Que venha Tite, para acalmar as Laranjeiras, muito nervosinha ultimamente.

Pegamos a ponte aérea e vemos o São Paulo já começando a cutucar a fama do início do ano de Santos e Grêmio. Foi a São José do Rio Preto, nem ligou para o calor paraguaio da cidade e voltou com três pontos no bolso. E a vice-liderança, que é detalhe, porque o time já era um dos semifinalistas antes de o campeonato começar. E o Noroeste, que beleza, está se acostumando a golear. Depois do 4 x 1 no líder do Paranaense, pela Copa do Brasil, sapecou 5 na então sensação Azulão.

Enquanto isso, também sob calor, o Palmeiras continuou sua sina. Corre, corre, perde gols e não deslancha. Parece que, mais uma vez, é aconselhável uma ida ao divã. Já o Corinthians foi incompetente e, com um a mais desde o início do jogo até a expulsão de Roger, não conseguiu superar o bom e chato time do Paulista. Leão devia refletir, porque um técnico bom como ele precisa ser eficaz e matar um jogo quando o adversário está com um a menos.

Sobra um parágrafo para o Internacional. Venceu em Passo Fundo por 1 x 0, deu uma respiradinha muito da chinfrim no campeonato Gaúcho, mas não se importa. A preocupação no Beira-Rio é a estréia na Libertadores contra o Nacional. Fala-se em clima hostil e blá blá blá. Favas ao vento. O importante é reencontrar o ritmo de jogo e trazer um empate muito do conveniente para um elenco que ainda não deu bom dia a 2007.

Bom carnaval a todos, com ou sem skate.


Escrito em 17/02/2007 |Comentários: »
CONTINUAÇÃO


Acabou o panino e acabou a cerveja. Paolo me chama para ver os gols da rodada. Ele torce pelo Napoli. Eu torço por ninguém. No Brasil, gostava do Vasco e do Mixto, de Cuiabá. Os uniformes, brancos com uma faixa diagonal preta no meio, eram similares. Quando pequeno, decidi que torceria para todos os times do mundo que tivessem uma faixa diagonal no peito. Na Argentina, eu era River Plate. Era uma espécie de confraria pessoal, criada na minha cabeça. Como na Primeira Divisão Italiana assim, não torcia para ninguém.
Recusei o gentil convite. Guardei o material de limpeza no quartinho dos fundos e fui fazer o que mais gostava. Saí do albergue, tranquei a porta, andei cerca de trinta metros e sentei na beira do canal. Do outro lado, Veneza. O albergue fica na ilha de Giudecca, alcançável por barcas. Foi dentro de uma delas que cheguei e logo consegui o emprego. Mentira. Consegui depois de muito esforço e do argumento final para o gerente do albergue. Dei para ele a camisa da seleção brasileira que eu trouxera comigo. Era oficial. Era ouro para qualquer maluco no mundo que goste de futebol.
Por vezes, eu levava uma garrafinha qualquer de vinho tinto até a beira do canal. Dessa vez levei só minha alma, tinta, ligeiramente enebriada pela latinha de cerveja bebida com Paolo. Sentei na beirada, as pernas balançando e as luzes de Veneza piscando e olhando para mim. Me sinto um excluído, apesar de incluído. Faço parte de um mundo do qual não faço parte. Moro em Veneza, Itália, Europa. Mas sou um rato. Igual aos milhares que circulam pelas vielas evitadas por turistas. Desde que aqui cheguei ouço a balela de que a cidade está afundando e de que os ratos se multiplicam ferozmente. Talvez eu não tenha entendido bem o que eles tentam me dizer. Eu sou o rato.
Mais um rato. E aqui ficarei até submergir com a podridão reinante.
No silêncio da noite, o barulho do barco cruzando o canal me desconcentra. É o último da linha 5, que traz os boêmios. Os ricos podem beber mais do que os pobres pois sempre têm como voltar para casa. O barco encosta na pequena estação quase em frente ao albergue e três ou quatro jovens desembarcam. Um deles com aquela mochila enorme, tão típica. De longe mais parece um astronauta desembarcando em solo lunar. A ladainha vai se repetir. Eu me levanto e vou até o albergue. O grupo, dois rapazes e duas meninas, tenta abrir a porta. Trancada. Fechamos às onze.
São argentinos. Os rapazes cabeludos e as meninas com cabelos curtinhos.
Definitivamente, são argentinos. Explico para eles que trabalho no albergue, a menina da direita logo percebe que sou brasileiro, perdemos cinco minutos com a baboseira sobre solidariedade latino-americana e aviso que as leis do albergue são rígidas. A essa hora ninguém entra, ninguém sai.
Foder nem pensar.
Foi quando caí na besteira de dar a segunda olhada para a menina que descobriu que eu era brasileiro. Era linda. Branca, ruiva e esguia. Olhos castanho claro. Como não sabia se algum cabeludo era namorado dela, desviei o olhar rapidamente. E lembrei que precisava me apressar.
- Vocês não são os primeiros que chegam a Giudecca nesta situação. A 100 metros daqui, tem uma pequena pensão, de uma senhora viúva, que cobra 10 dólares o pernoite. Só que meia-noite ela fecha a porta - continuei explicando, naquele portunhol maravilhoso.
Se entreolharam, percebi a cumplicidade positiva e toparam me seguir.
Fomos andando pela beirada do canal, o albergue ficando para trás. Em italiano, chama-se fondamenta a via que margeia os canais. Estávamos, pois, na Fondamenta delle Zitelle. Algo como Marginal das Solteironas. O nome vinha de uma igreja dali perto. Chiesa delle Zitelle. Igreja das Solteironas. Que apesar do nome, ou por causa dele, vivia celebrando casamentos.
O silêncio era tranqüilizador. Por vezes quebrado pelo falatório argentino atrás de mim. Mas a bela cucaracha por quem me interessei não abria a boca. Talvez cansada. Talvez apaixonada por mim.
Até parece. Entramos na primeira rua à esquerda. Lá estava a pensão da dona Mitidiéri. Como que seguindo um roteiro, a própria dona Mitidiéri estava na janela. E me saudou.
- Ciao, Brasilino!
Me chamava de Brasilino. Usando o diminutivo italiano em cima da palavra brasiliano. Ela desceu e foi logo registrando os quatro argentinos. Me despedi, não sem antes pegar os quatro dólares de comissão com Dona Mitidiéri.
Não é nada, não é nada, mas já comprava quatro cervejas.
Voltei mais solitário ainda para o albergue. Enfiei a mão no bolso, peguei as chaves, me despedi da noite de Veneza com os olhos e entrei. Fui para meu quarto, atrás da cozinha, peguei um pedaço de queijo na geladeira e me deitei. Estava apaixonado. Ela era argentina e linda. Mas só ficaria três dias. Era a nona mulher por quem eu me apaixonara desde que cheguei a Veneza.
Das outras oito não obtive um beijo sequer. Nem pedi. Era pouco tempo. Apesar do albergue permitir a estada por três dias, turistas só costumavam ficar um. E rumavam para Florença, num roteiro óbvio, porém compreensível.
Sempre tive muito medo da solidão. Mas nesse meu exílio italiano, convivo dia e noite com ela, e a amo. Amo a solidão. Não posso ser infiel. A mim mesmo. À solidão.
Acordei às seis da manhã. Já não estava mais apaixonado. E fui ajudar Milena a arrumar o café da manhã dos alberguistas. Milena era uma milanesa pobre que trabalhava como servente no albergue. Também era casada com a solidão. Mas vivia às turras com ela. E sobrevivia infeliz. Milena odiava a solidão.
Fim do café. Hora de varrer. Varri. Fechou-se o refeitório. Onze da manhã. Até às quatro, tempo livre. Fui até a porta do albergue. Fazia sol. O barco da linha 5 acabara de atracar. Ouço berros de argentinos. Era a turma que guiei no dia anterior. Só que a bela ruiva não estava com eles. Os dois e mais a outra moça correram e embarcaram no barco. Automaticamente, me encaminhei para a pensão da dona Mitidiéri.
Mas que fique claro. Não sou infiel.
A dona da pensão varria a calçada em frente ao prédio. Como eu não tinha nada para fazer, me sentei num canteiro próximo e fiquei por lá, esperando a ruiva fantástica. Quando ela aparecesse, eu contaria minha vida, ou melhor, minha história recente. Ela se fascinaria. Eu explicaria também por que aquela ilha onde estávamos se chamava Giudecca. Em italiano, o nome signficava bairro judeu. Uma forma oficial de dizer que algo era um gueto. Onde excluídos viviam com status de incluídos. Hoje não havia muitos judeus em Giudecca. Só excluídos. Estou me repetindo.
Valeu a espera.
Ela saiu. Vestia uma calça de ginástica rosa, blusa branca, uma tiara vermelha e um par de tênis argentinos, brancos, que eu não conhecia. Ela me olhou. Eu a olhei. Levantei, me aproximei. Quebrei a cara.
Tinha um macho atrás dela.
Dei meia volta, sentei pateticamente. Fiquei olhando o casal, de mãos dadas, ir embora. Não entendi nada. Eles dobraram a esquina e não foram em direção à estação. Iriam passear por Giudecca. O cara era cabeludo. Parecia o Tarantini, o lateral mau-caráter da copa de 1978.
Ainda atônito, me fiz de bobo e perguntei a Dona Mitidiéri.
- Non eranno quatro turisti?
- Questo ragazzo é arrivato oggi nella matina... - respondeu minha fonte de renda paralela. Eram quatro argentinos, mas o namorado chegara de manhã.
E era cabeludo. E parecia o Tarantini.
Pelo menos dessa vez não precisei conhecer lábios que nunca tocaria. Fui até o albergue. Paolo iria fazer compras em Veneza. Resolvi ir com ele. Voltei com ele.
E continuei a viver minha mentira. No Brasil, os poucos amigos que tinha me julgavam um sortudo. Vivendo na Itália, conhecendo gente nova todo dia. Mal sabiam que bastava um dia para tanta gente nova me esquecer. Na porta do albergue, um grupo de suecas esperava por alguém que abrisse a porta para elas.
Todas horrorosas.
Entrei no albergue, levei as compras para a dispensa. Não resisti e abri um buraquinho no pacote de biscoito. Comi dois. À noite, Paolo viu o pacote desvirginado e me chamou preocupado. Me pediu que intensificasse a limpeza na dispensa. Disse que devia ter sido um rato o autor do atentado contra os biscoitinhos.
Tinha razão.
Escrito em 20/02/2007 |Comentários: »
EMIGRANTES






Ano passado, mais de 800 jogadores brasileiros foram negociados para o exterior. E o destino, na maioria das vezes, não são países de futebol e cidades cheias de glamour, como Itália, Espanha, Inglaterra, França e Portugal. Há candidatos a craque no Leste Europeu, no Oriente, na África, América Latina e Ásia.

Da maioria nem ouvimos falar. Quando aparece um “Cacaio” em algum VT de gols internacionais, é uma correria nas redações para descobrir que o tal Cacaio começou no Fast de Manaus, esteve no Marília, passou pelo Veranópolis e foi vendido com 21 anos. Cacaio não existe. Cacaio é só exemplo. Cacaio não está nem aí para a cultura local de onde está jogando. Cacaio quer jogar bola e sobreviver.

É normal jornalistas e torcedores viajados cobrar dos emigrantes brasileiros uma maior integração com a história do país onde vivem. Não ficarem eternamente vivendo sob o olhar brasileiro, pois o dia-a-dia será sofrido e o patrimônio que se traz de volta acaba sendo muito pequeno. Eu me incluo nessa casta. Acho mesmo que é fundamental para a formação de um ser humano saber entender o lugar para onde foi, contracenar com as gírias locais, ir a museus, viajar para cidades históricas e curtir, nas horas de folga, algum turismo doméstico.

Mas nem sempre é assim. Nem sempre dá tempo. E passa a ser cruel condenarmos estes batalhadores, que foram atrás não de milhões, mas de alguns milhares já suficientes para superar a vida de cachorro que levavam no desigual Brasil.

Invertamos a equação. Conheço vários amigos que emigraram, passaram um, dois, três anos em países do Primeiro Mundo, lavando prato, humilhando-se, cuidando de bebês, varrendo ruas, entregando filipetas, fazendo drinques de madrugada. E nas cartas, eu perguntava se eles tinham ido a algum jogo.

A resposta era lacônica. Não dá tempo.

Eu sabia mais do campeonato italiano do que meus amigos que lá estavam. Na França idem. Espanha também. Além do mais, era preciso estudar a língua e, para alguns, freqüentar cursos e palestras inerentes à futura profissão.

Já não sei se eles perderam tempo, se não tiveram tempo ou se ganharam tempo. Eu consegui, em meu exílio parisiense nos anos 90, ir a um jogo apenas. PSG x OM, no Parc des Princes. O ingresso era caro, o dinheiro não sobrava. Mas foi inesquecível. E é uma das lembranças mais ternas que trago de Paris, além da sala de Van Gogh no Orsay, o Falafel do Marais, o frio da ponte Bir-Hakheim, a sujeira do metrô, o couscous marroquino e a doce insensibilidade das francesas para os flertes. Além de outras centenas de “souvenirs”.

Tudo isso para vos apresentar um texto meu antigo. Aproveitem. Ou esqueçam e sigam a vida.


Giudecca

Antes do banquete, excluídos colocam talheres de prata sobre o pano branco da grande mesa. E pensam serem os incluídos.
Hora de varrer. A alemã dos pés sujos é a última a sair do salão. Já são dez da noite. Do outro lado do Canal de Giudecca, Veneza brilha. Gôndolas iluminadas passeiam recheadas de turistas apaixonados. Nem todos, alguns são gordos, suados e não estão nem um pouco apaixonados pelas gordas suadas. Varro. Paolo começa a trancar com grossos cadeados chineses as geladeiras do bar, me oferece um panino de muzzarela com tomate encalhado. Aceito, mas exijo uma cerveja.
- Ma non sai mangiare senza bére? - me pergunta, rindo.
Claro que sei comer sem beber, mas uma cervejinha, apesar de em lata e holandesa, sempre faz companhia. Ao panino e a mim.
Paolo comenta, como deve comentar todos os anos, que o verão promete. Já estamos em maio e os turistas se multiplicam como moscas. Chegam, ficam três dias e vão embora. A lei no Albergue da Juventude é clara. A hospedagem só é permitida por três dias. Há quem fique menos. Apesar de linda, basta um dia de caminhada para ver e entender Veneza.
Estou aqui há um ano. Já vi muita coisa. E continuo sem entendê-la. Sou o faxineiro do albergue, nasci em Cuiabá e passei minha infância na Chapada dos Guimarães. Saudades da época em que minha única dúvida era saber onde o mundo acabava. Meu pai era, ou é, não sei mais, motorista de táxi da rodoviária de Cuiabá. Eu era pequeno e ele me levava para o trabalho. Me deixava no banco do carona e levava os passageiros que chegavam cansados de Brasília, Rio, São Paulo, Minas. Não importava a origem. Seriam roubados da mesma maneira. Meu pai rodava com o taxímetro adulterado e várias vezes começava a corrida com o instrumento já contando.
Meu pai era ladrão.
Por isso fugi. O pouco que convivi com minha mãe, antes dela fugir também, serviu para aprender fragmentos de honestidade. Não suportava a cara de pau paterna em adulterar o taxímetro, ser grosseiro com os turistas e comentar com os colegas de praça, ou de raça, o quanto tinha ganho na bandeira 3. Eles chamavam de bandeira 3 o dinheiro que entrava através da má-fé.
Minha primeira fuga foi para a Chapada. Lá encontrei paz, solidão e imensidão.
- Onde o mundo acaba? - perguntava a mim mesmo olhando aqueles vales infindáveis do Planalto Central. Sentado de cócoras, refletindo... Os penhascos, argilosos e cobertos de vegetação rasteira, pareciam enormes suflês de abóbora envoltos por folhas de alface crespa.
Virei guia turístico mirim, larguei a escola, mas continuei estudando por conta própria. Minha vida se encaminhava para uma velhice segura, folclórica e tranqüila como o guia eterno dos mistérios da Chapada dos Guimarães e seus despenhadeiros sem fim. Provavelmente iria acabar sendo entrevistado pela Regina Casé.
Destino interrompido quando eu tinha 19 anos. Ela se chamava Giulianna, morava em Verona, na Itália, e estava passando 20 dias no Brasil. Cinco deles na Chapada. Ficou tão encantada com aquele céu tão próximo de nossas cabeças que se apaixonou por mim. E eu por ela. Se bem que até hoje não sei se foi amor o que senti ou a possibilidade de obter finalmente a resposta. Onde o mundo acaba?
Cinco dias de folia, sexo selvagem e irresponsabilidade. Giulianna foi embora e exigiu que eu aparecesse em Verona no mês que vem. Teríamos filhos ítalo-brasileiros e nos amaríamos para sempre. Como Julieta, como Romeu. Sem mortes.
Todas as mulheres são loucas. É minha frase preferida. Não canso de repeti-la. As italianas são loucas e berram. Dois meses depois desembarquei no porto de Roterdã após cansativos dias de viagem num cargueiro. Peguei um trem e rumei para Verona.
Antes fosse fácil assim.
Logo que saí do cargueiro, perguntei, no meu inglês de guia, onde era a estação ferroviária. Não era nem muito longe nem muito perto. Opteir por ir a pé. Conheceria um pouco da cidade. Quando cheguei à estação de Roterdã, comprei um saquinho de batatas fritas com uma bolota de maionese em cima, comi, me lambuzei e fui ver qual era a melhor maneira de ir para Verona.
Havia duas. Por Paris e por Basel, como me informara um marujo experiente do cargueiro.
Basel? Que diabo é isso, pensei com meus cadarços.
Não estampei minha ignorância à holandesa do balcão de informações. Era uma velha coroca de óculos, bem parecida com os contâiners enferrujados que vi, do mar, logo que o cargueiro começou a se aproximar do porto.
A coroca não sabia onde era Basel.
Agradeci e fui olhar o mapa. Aliás, com tanto tempo livre no navio, por que não vasculhei aquele mapa todo? Simplesmente porque não havia linhas de trem no meu mapa. Vê-se que eu estava muito preparado para conhecer, morar, viver e amar no Velho Mundo.
O mapa que me serviu na estação foi o que estava afixado numa grande parede à direita do balcão de informações. Tinha um sistema de localização fascinante. Eu estava em Roterdã, óbvio, então bastava apertar o botão da cidade para onde eu queria ir que o trajeto férreo apareceria no mapa em forma de luzes.
Beleza, só que não tinha nenhum botão para Verona. Apertei Milão, que fica a duas horas de trem de Verona. Isso eu sabia. Apareceram dois trajetos. Por Paris e por Basel. Isso eu também sabia.
Basel? Que diabo é isso, pensei com meu zíper.
Olhei a tal Basel no mapa e aprendi, para sempre. É uma pequena cidade na Suíça rodeada por suíços, alemães e italianos. Deve ter sido barra durante a II Guerra, mesmo com a neutralidade.
Basel parecia um prego cravado por Deus no meio da fronteira dos três países. Como normalmente cidades fronteiriças são cidades mal comidas, optei por Paris. Se bem que optaria por Paris qual fosse a adversária. Lá fui eu comprar uma passagem para Milão via Paris. Pertinho. Só vinte horas de viagem...
Fiz o seguinte. Comprei um lugar até Paris no trem das 23:34 com chegada prevista para 6:55 na capital francesa. Lá, passaria o dia, telefonaria para Giulianna, e de noite me enfiaria num trem para Milão.
Molinho.
Duro foi deixar Paris. Passei o dia deslumbrado com a beleza da cidade. Confesso que torci para me apaixonar por uma francesa qualquer e desistir do projeto italiano. Ficou na torcida. Até são bonitas as francesinhas, mas não olham para o lado, não paqueram, não vivem. Comprei uma garrafa de vinho num mercado árabe, duas baguetes, dois camembert e adulei meu estômago o dia inteiro com essa combinação mágica. Deu para conhecer a Torre Eiffel, o Quartier Latin, o Jardin Luxembourg, o pátio do Louvre e o Arco do Triunfo. Esse último me irritou. Uma ode patética às conquistas napoleônicas.
Noite caiu. Rumei para a estação de Lyon. O trem milanês saía às 22:22. Me diverti com o horário. Lembrei da brincadeira brasileira de chamar o número 22 de “dois patinhos na lagoa”. Quatro patinhos na lagoa. Como era inverno, pouco movimento nos trens. Estiquei as poltronas e dormi sozinho numa cabine. Eu e quatro patinhos.
Cheguei a Milão.
Encontrei Giulianna na estação. Bela estação. Se chamava Milano Centrale. Não tive muito tempo para admirá-la. Giulianna estava com os braços cruzados. Chovia, claro. Meu sorriso inicial congelou, meus braços se fecharam também e ela berrou. Berrou sem medo que me esperara durante um mês. Que as italianas não são sonsas como as brasileiras. E virou as costas. Gritei por ela, fui patético, corri atrás, e ela em bom português misturado com italiano me disse secamente e com ódio.
- Suma della mia vita!
Nunca havia sido tão odiado. E sem saber a razão. É bem pior.
Pela primeira vez uma outra pergunta apareceu na minha cabeça.
O que estou fazendo aqui, meu Deus?
Essa pergunta se repetiria muitas vezes durante a minha vida.
Ainda bem que o nome dela era Giulianna e o meu não era Romeu. Sem pensar em suicídio, olhei para o lado e vi um trem partindo. Entrei, sentei numa poltrona dentro de uma cabine não-fumante para seis e combinei o seguinte comigo. Fecharia os olhos e só na última estação, no destino final daquele trem, eu desceria. E lá decidiria meu destino. Vivi, na primeira pessoa, aquele ditado do “pegar o primeiro trem e ir embora...”.
Até parece. Não deu meia hora e apareceu um italiano de quepe e uniforme da FS, Ferrovie dello Stato, me pedindo biglietto. Aí tive que perguntar em portuliano para onde o trem estava indo. Eu ainda não falava bem o italiano.
-Venezia - respondeu friamente.
Paguei e não mais fechei os olhos.
Só para piscar.
Era o trem das 9:05 e chegaria às 12:04 em Veneza. A pontualidade européia me encantava. Principalmente a de Giulianna, que pontualmente me deu um chute na bunda.

Escrito em 20/02/2007 |Comentários: »
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