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Garambone

Sidney
Garambone

Jornalista

Na imprensa há 20 anos e com passagens por Jornal do Brasil, O Globo, O Dia e Istoé, é atualmente editor-chefe do Globo Esporte e debatedor do Arena Sportv. Tem mestrado em Relações Internacionais, escreveu três livros
( O Caçador de Barangas, em 2000,
MARADONA E A MÃO DE DEUS
FABRÍCIO CARVALHO E A MÃO






Eu assumo. Não sei o que pensar. Contra Inglaterra, numa copa do mundo, Maradona pulou, meteu o mãozão e até hoje é aplaudido. O recurso do craque. A mão de Deus. Vinte e um anos depois, no Estado de Goiás, Fabrício Carvalho, que quase largou o futebol por problemas cardíacos, mete o mãozão na vitória do time esmeraldino sobre o Vila Nova. Tomou um gancho de um jogo e recebeu críticas por causa da esperteza.

Eu critico. Eu assumo. Não acho digno. Nem honesto com colegas de profissão, torcida, imprensa, com o próprio ofício. Talvez Fabrício Carvalho nem tenha noção que está dando, ou melhor, refletindo o péssimo exemplo. Fabrício Carvalho vive num país onde cidadãos não devolvem troco errado, furam o sinal, falsificam documentos e acham que não há nada demais nisso. E ainda há o agravante dele já ter feito um gol assim, validado, e outro, anulado, na época de Ponte Preta e São Caetano. Será que ele sobe na área já querendo meter a mão na bola?

Eu critico. Eu assumo. Eu reflito. Mas e uma falta desclassificante, um pontapé por trás, o antijogo, o treinador que joga bola para dentro do campo? São suspensos sempre? O moralismo que reina para uns não reina para outros? Não gosto da máxima de que o futebol tem seus próprios códigos. Cansei de discutir em peladas, quando moleque, porque o adversário tinha visto que a bola batera nele antes de sair, mas insistia em querer cobrar o lateral. E eu ficava berrando: “Tá roubando por quê? Vai chegar em casa e contar para a tua mãe que venceu uma pelada na várzea de Laranjeiras?”

Eu critico. Eu assumo. Eu reflito. Eu condeno. Já que o assunto é ombridade, é respeito, é oportunismo, confesso que fiquei pasmo ao acompanhar o velório de Maria Lenk no salão nobre do Clube de Regatas Flamengo, na Gávea. Ninguém do marketing do clube se preocupou em retirar os dois painéis “Fla 100%, Construindo o Futuro”. A nadadora passou talvez os últimos 30 anos nadando no clube e pelo clube em competições máster. Porém, não foi a Olimpíada pelo Flamengo e muito menos bateu recorde pelo clube. A presença ostensiva e indelicada dos painéis do Flamengo mostra a face mais burra do marketing. O oportunismo e a falta de sensibilidade. Capaz de colocar um boné do Banco do Brasil na cabeça da Marilia Pêra, para divulgar uma peça bancada, ou estragar o uniforme de vários clubes do Brasil com logomarcas sem critério algum.


POR QUE NÃO LER?

AS BRASAS, de Sandor Marái. Húngaro espetacular, redescoberto pelos brasileiros, faz neste livro uma declaração à amizade, de uma forma completamente inversa. Ensina que nós devemos aparar arestas enquanto é tempo. Sem rancor ou mágoas. Pois no futuro elas só aumentam. As Brasas é uma espécie de Dom Casmurro húngaro, cheio de verdades tardias
Escrito em 18/04/2007 |Comentários: »

POR DENTRO DA CABEÇA DE MESSI



Barcelona, Camp Nou, 26 minutos do primeiro tempo. No placar, 1 x 0. O que se passou na cabeça do Messi:

“Cá estou. Deram-me a bola. Paredes está me marcando. Passei por ele. Cadê Deco? Opa, Nacho no meu cangote. Upa, por baixo das pernas. Ah, moleque. Vou disparar com essa bola. Cadê Eto´o? Epa, lá vem o Alexis. Sai para lá açougueiro. Cadê todo mundo? O Nacho não me larga, vou continuar correndo na direção do gol. Vou driblar o Belenguer. Deus! Sou Maradona? Sou Deus? Não, estou viajando. Sai, Belenguer.”

E tudo pára. O tempo, a bola, a boca dos catalãos. Entre a consciência e a rapidez, Messi lembra da infância, do tanto de vezes que brincou de Maradona nas peladas argentinas, imitando o ídolo, fazendo gol com a mão, berrando que ia chegar ao gol igual Dieguito fez no México, em 86. Messi olha ao redor. Tudo continua parado. Não é possível que o destino tenha transformado a brincadeira em realidade. Não foi de propósito. Ele foi indo, guiado por uma mão invisível, que não era a criada por Adam Smith. Foi indo, driblando, a princípio sem lembrar do segundo maior do mundo.

“Mas eu só tenho 19 anos. Não fiz uma boa copa. Tudo bem, o dentuço também não. Será que continuo a jogada? Parto para cima de Luís Garcia. Maradona tinha 26 anos quando fez o gol. Lembro de tudo. Demorou onze segundos, deu onze toques na bola. Quer saber? Tem algo maior do que eu... tem algo especial acontecendo... não é possível dar errado. Tem alguém me movendo, como um peão escolhido num gigantesco tabuleiro de xadrez”.

E tudo volta a se mover. Os jogadores do Getafe continuam correndo atrás de Messi, o goleiro Luís Garcia voa rasteiro à procura da bola. Em vão.

“Sai, Garcia! É agora! É agora.... GOOOLLLL”

O estádio urra, balbucia, se lembra...

E em Buenos Aires, num leito de hospital, um ex-craque gordo, alcólatra, polêmico... dá um sorriso maroto.

Escrito em 19/04/2007 |Comentários: »
ROGER TEM RAZÃO




O Corinthians empatou com o Náutico e, depois do jogo, os reservas tiveram que correr ao redor do campo. Roger não quis. Está certíssimo. Não se trata de ranhetice do blog em plena sexta-feira. Roger não precisa disso. Roger é craque. Problemático, egoísta e já cansado do cotidiano do futebol. Principalmente destas invencionices lairibeirianas. Podem me condenar, me provar por números, mas acho que o psicológico, neste caso, é muito mais importante que o físico. Os reservas viajam até o Recife. Ficam tensos podendo entrar no jogo. Participam da pilha. Ficam ligados. Sabem que estão sendo de uma forma ou de outras observados. E ainda precisam correr depois do jogo?

O nome disso é papagaiada. Se o planejamento está correto, não precisa complementar, existe reserva suficiente para a volta ao clube e um novo treino. E Roger tem razão. Como também tem razão o maluco-beleza aí de cima ganhando dinheiro nas ruas de Berlim.

Para usar um exemplo extremo, já que papagaidas e atitudes para a imprensa e público verem não é exclusividade do Corinthians, conto uma história inacreditável da Copa de 98.

Meninos, eu vi.

Estádio Saint-Denis, norte de Paris, final da Copa. França 3 x 0 Brasil. Tristeza nacional, tremilique do Fenômeno, festa francesa, entrega de troféu, encerramento, corre que o metrô pode fechar, engarrafamento nas cercanias e quase uma hora depois, a comissão técnica da Seleção Brasileira coloca alguns jogadores que não atuaram para correr em volta do estádio vazio. Ainda presente na tribuna e terminando de escrever um texto para a Istoé, esfreguei os olhos 3 vezes. Você perde uma final de Copa, não sabe se vai ser convocado para o próximo jogo, e ainda tem que seguir o planejamento burocrático físico espacial tecnológico de algum professor Pardal?

Depois reclamam quando a gente digita nosso número do assinante, da conta, CPF, e alguma atendente de telemarketing te pergunta tudo de novo. Depois reclamam que para provar que você é você mesmo é preciso ir a um cartório, pagar R$ 3,60 para um funcionário que você nunca viu antes atestar perante a lei que você é você mesmo. Depois reclamam que para entrar num prédio comercial é preciso ser revistado, questionado, fotografado e controlado por brutamontes de gravata. Depois reclamam que os governos brasileiros instituem empréstimo compulsório só que não pagam nunca a quem “emprestou”.

A burocracia insuportável nem sempre vem de cima. Nós, muitas vezes, a criamos.

Ontem fui fazer compras em Ipanema. Em duas lojas me pediram cadastro. Recusei. Até para comprar pipoca é preciso fornecer o CPF.

Descadastre-se!!!!
Escrito em 20/04/2007 |Comentários: »
O LIMBO ACABOU!


Quadro pintado por Duccio di Buoninsegna


Deu no New York Times. E no Globo. No Estadão. Na Zero Hora. No Diário. No JB... A Igreja repensou seu papel misericordioso e decretou o fim do Limbo, lugar estranho, sem síndico e cheio de crianças que não foram batizadas, logo não podiam ver Deus, e muito menos o Discovery Kids. Lá foram os anjos retirar todas as crianças e transferi-las, em modernos ônibus com ar condicionado, para o Céu. O último anjo a sair tinha que fechar a porta.

E criou-se o problema. Mais diabólico que divino. Ao entregar o passaporte azul celeste para a última criança, o anjo-despachante já se preparava para trancar eternamente o Limbo... quando ouviu vozes. Vozes não, gritos. Gritos não, um coro. Vários coros, bem ensaiados, harmoniosos e melancólicos. O anjo-despachante liberou a comitiva rumo ao céu e entrou novamente no Limbo.

Surpresa.

Vindos da escuridão, batendo palmas ritmados, milhões de torcedores, de diferentes camisas, entoavam seus refrões em dó maior:

“Sangue! Sangue”
“Vitória! Vitória”
“Cobra Coral! Cobra Coral”
“Lusa! Lusa!”
“Bugre! Bugre!”
“Bahia, Bahia!”


E o anjo chorou. Não eram só as crianças que não viam Deus. Eram torcedores de vários Américas, menos o de Natal, do Vitória, da Portuguesa, do Santa Cruz, do Guarani, do Bahia, do Coritiba, Paysandu, Remo, Treze, CRB, CSA, Avaí, Criciúma e tantos outros times tradicionais que por incompetência técnica estão fora do paraíso da Primeira Divisão. Longe dos holofotes, das transmissões, das primeiras páginas dos jornais, dos ovos de Páscoa tematizados, das figurinhas...

E o anjo chorou.

Rapidamente fez uma audiência, anotou nas coxas todas as demandas dos torcedores carentes, e como anjo não peca ninguém podia acusá-lo de levar o problema nas coxas. Fechou a porta do Limbo, mas não trancou. Largou as correntes que lacrariam o Limbo no chão, ali no canto, bem pertinho do Purgatório.

E foi-se ver com Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Segundo o repórter Eric Faria apurou, ( vou colocá-lo no blog porque o Poli fez isso e conseguiu duas centenas de comentários) os cartolas lá de cima estão estudando a possibilidade de virada de mesa, tirar os times do Limbo e pôr no Purgatório.

E os dirigentes destes clubes?

“Já estão no inferno...”, respondeu uma voz grossa, diabólica e cínica. Vindo sabe-se lá de onde.
Escrito em 21/04/2007 |Comentários: »
CANSEI DOS PEQUENOS



Um grande amigo, parceiro antigo de peladas, chopes e arquibancada, apelidado de Traz-o-Short porque sempre tinha uns três ou quatro shorts na mochila para poder garantir a pelada, já que alguns diziam não poder jogar de calça comprida, já me prevenia disso. “Para que serve o São Caetano?”, radicalizava ele, fã confesso de arenas lotadas e duelo entre gigantes. Eu refutava, dizia que ele não estava sendo justo e democrático, que era bacana ver os Davis vencendo os Golias.

Cansei.

Talvez a gota do vinho ruim foi uma das semifinais do Campeonato Carioca. Abrir o Maracanã para 1.500 pessoas brincarem de torcida foi demais para o meu coração acostumado a dividir espaço com tantos outros heróis de cimento no Maior do Mundo. Volta Redonda x Cabofriense. Que confronto! Numa semana em que o Botafogo tinha travado duelos antológicos contra o Vasco.

Cansei dos pequenos. De folclóricos ficaram chatos. No Paraná, o Paranavaí é o intruso e vai-se o charme de uma final pelo ralo. Em São Paulo, o regulamento mudou para ver se os 4 grandões faziam duas semifinais históricas. Nem um nem outro. E o São Caetano novamente numa final, onde fazer um gol significará silêncio. Em Minas, ufa, vai ter Cruzeiro x Atlético. O Rio se salvou de um histórico recente de finais chatérrimas com um maravilhoso Botafogo x Flamengo. Em Goiás, por pouco o Itumbiara não tira o tradicional Atlético Goianiense da final.

Lesoto não tem assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Zâmbia também não. Nem Nicarágua, muito menos Bahrein e Nova Zelândia. Mas todos são bem-vindos à Assembléia Geral.

Sei que estou sendo elitista, seguindo uma ótica de Schumpeter, onde os melhores seriam capazes de decidir pelos piores, contanto que os melhores realmente fossem melhores, justos e honestos. Sei também que os pequenos fazem a festa porque a incompetência dos grandes é inacreditável. Basta olhar a Copa do Brasil e ver que Palmeiras e Vasco nem nas oitavas estão. E Fluminense e Cruzeiro já ensaiam uma despedida precoce.

Mas entendam este post apenas como um desabafo. Time pequeno golear um grande é muito divertido. Time pequeno revelar um centroavante é bem bacana. Time pequeno resistir bravamente e perder só no último minuto é heróico e inesquecível. Agora, time pequeno numa final é chato demais.

E que caiam sobre mim as lanças dos que me acham um equivocado ambulante.
Escrito em 22/04/2007 |Comentários: »
Você premiaria as torcidas organizadas?


A proposta é moderna, polêmica e contemporânea. A Federação Paulista de Futebol, com o apoio do Ministério Público, resolveu radicalizar e dar dinheiro para as torcidas organizadas mais comportadas da temporada. A idéia inicial é dar R$ 100 mil no fim de ano para quem não extrapolar a paixão e partir para a luta de mão.

Eu sou a favor. Simplesmente porque acho que já foi tentado tudo para atrair novamente os torcedores para os estádios. Ultimamente, só jogos decisivos têm este poder. Quem não conhece grandes parceiros das arquibancadas que simplesmente desistiram de ir aos estádios? Viraram pais, ganharam responsabilidade e mesmo topando encarar banheiros sujos, flanelinhas, falta de lugares marcados, comida indigente... não suportam se imaginar no meio de uma briga descontrolada que pode causar mortes.

O paradoxo é histórico. O espetáculo visual das organizadas é belíssimo. A paciência para cortar papel, comprar papel higiênicos, luzes especiais, bandeirinhas e bandeirões também é elogiável. Mas quando uma torcida vira gangue e esquece o time para brigar... aí estraga tudo. O raciocínio burguês é inevitável e análogo ao dirigido às favelas. “Nem todo mundo na favela é bandido”, diz o branco empedernido. “Nem todo mundo na torcida é bandido”, sabe qualquer torcedor.

Já que tempo é dinheiro. Capitalismo é dinheiro. E, dizem, futebol é negócio... vale a pena apostar em mais uma tentativa de fazer dos estádios locais de diversão, encontros plurais, alegria e paz. Só. Na vitória ou na derrota. Os alambrados agradecem.
Escrito em 23/04/2007 |Comentários: »
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