globoesporte.com
Garambone

Sidney
Garambone

Jornalista

Na imprensa há 20 anos e com passagens por Jornal do Brasil, O Globo, O Dia e Istoé, é atualmente editor-chefe do Globo Esporte e debatedor do Arena Sportv. Tem mestrado em Relações Internacionais, escreveu três livros
( O Caçador de Barangas, em 2000,
FÁBIO TEM RAZÃO



Fábio deu as costas. Simplesmente recusou-se a encarar o drama. Cansou. Não é de hoje que a bola maldita anda aprontando para o seu lado. Saiu do Vasco, teve problemas com a Justiça e finalmente achou que tinha encontrando a paz no Cruzeiro. Voltou à Seleção. Mas os problemas continuaram. É um frango ali, uma acaso aqui, uma bola traiçoeira acolá, um montinho artilheiro safado, uma trombada de cabeça com o atacante... E pior, uma inhaca que o deixava sempre em pé para enfrentar outras. Diferentemente de seu colega Marcos, do Palmeiras, que a cada inhaca é obrigado a ficar parado pelo menos 2 meses.

Pois então, senhoras e senhores. Ao levar o terceiro gol do Atlético, numa final do Campeonato Mineiro, em pleno Mineirão. Fábio cansou. Foi até a frente da área, reclamou dos zagueiros, da vida, da camisa azul, do céu estrelado, do calor mineiro... e deu as costas para tudo aquilo.

Quisera eu ter a coragem de dar as costas para tudo isso que está aí. Quisera eu ter a coragem de Fábio, que olhou aquela desgraça vindoura e desistiu de encará-la. Quisera eu abrir o jornal, ver engravatados sorridentes do Congresso, preocupadíssimos com política colegial e regimentos internos, como se o Brasil já estivesse pronto. Prontinho, perfeito, acabado. Quisera eu poder virar as costas diariamente as vítimas inocentes deste país enlouquecido, esquizofrênico, que banalizou a morte de forma indecente e imoral. Quisera eu ter a audácia de fechar os olhos para o PM que anda de carabina em punho nas ruas da Zona Sul do Rio, morrendo de medo, assustando mais do que protegendo, sentindo-se um alvo móvel e com um salário patético.

Mas não consigo.

Fábio conseguiu. Ligou o “dane-se”. Caminhou lentamente para a baliza, que o aguardava impávida e imponente. Dentro da rede, a bola amarela. Amarelo Manga. Amarela de vergonha. O cheiro do ralo.

Súbito, outra bola.

Gol. O quarto do Atlético.

E Fábio caiu em si. Neste país até dar as costas para a realidade é proibido. Até os alienados são punidos.

E tome goleada.

Goleada.

Goleada.

Nunca a favor.

Talvez fosse a hora de Fábio abandonar o Cruzeiro, Minas e quem sabe até mesmo o futebol.

Melhor não.

Talvez encontre destino ainda mais patético do que ser filmado segurando duas bolas, atônito, pedindo explicações ao juiz, ao destino, à vida.

Goleada.

Nunca a favor.
Escrito em 01/05/2007 |Comentários: »
METADE GRAMA METADE SAIBRO... E O QUE MAIS?



O inusitado espetáculo espanhol atraiu a atenção de tenistas profissionais e amadores do mundo todo. Jogar numa quadra metade grama e metade saibro. Como a dinâmica muda? Onde é melhor sacar? Quem se dá bem? Nadal e Federer curtiram. A partida virou show, com direito, claro, já que a Espanha é país latino e machista, a duas mulheres boazudas cuja missão no mundo é ser boazuda acompanhando a entrada em quadra dos tenistas.

Eis que na redação resolvemos pirar. E se pudéssemos misturar vantagens e desvantagens da vida num jogo só? O que você gostaria de misturar?

Que tal um sanduíche meio Big Mac meio Big Bob?

E um filme metade iraniano metade americano?

Talvez um jogo de vôlei metade quadra metade areia?

Terno e grava e bermuda para os dias de verão?

Lula e FHC no mesmo partido?

Um livro com capítulos revezados entre Machado de Assis e Nelson Rodrigues?

Cerveja preta com colarinho branco? Opa, isso já tem em alguns bares.

E um blog metade Poli metade Lédio?

Praia de Ipanema com cachoeira?

Prancha de surf com rodinhas de skate? Opa, já vi um maluco fazendo isso no parque Villa Lobos, em Sampa.

Flamengo disputando Campeonato Paulista...

Brasil jogando a Eurocopa...

Esquiar na neve de manhã e surfar no mar à tarde?

E aí? Pensou em mais coisa?

Comentar, trabalhar e estudar. Tudo ao mesmo tempo.
Escrito em 02/05/2007 |Comentários: »
MAS QUE HORA PARA RACHAR, FLAMENGO....


São 365 dias no ano. Doze meses, sei lá quantas semanas... férias, viagens, pré-temporadas... tanta época boa para brigar, tirar satisfações, reclamar da meia, da camisa de treino, da bola amarela. Jantar com empresário numa churrascaria reclamando do treinador, do presidente do clube.

Mas não.

O Flamengo resolveu rachar na semana das oitavas-de-final da Libertadores. Ou os jogadores são amadores ou não conseguem perceber o quanto podem perder. O mesmo estádio Centenário onde Zico brilhou em 1981 conquistando a única Libertadores do clube testemunhou um Flamengo capenga, tenso, dividido, impotente e frágil. Defensor 3 x 0.

Para quem não se lembra. Ou nunca teve tempo de se debruçar sobre a história francesa na Primeira Guerra Mundial, vale uma recordação. Dividida entre socialistas, comunistas, centristas e outras tantas correntes de pensamento, a França se viu no meio do conflito mundial, invadida pela Alemanha e precisando reunir contingente e forças para defender o solo pátrio. Criou-se pois a expressão “Union Sacrée” ( União Sagrada). Uma espécie de compromisso de todos os setores da população, independentemente de rixas, para que o país fosse salvo dos rifles e balas estrangeiros.

É do que o Flamengo precisa. Antes que seja tarde demais.



Ney Franco, tão elogiado por manter o time do primeiro tempo no segundo, domingo passado no Maracanã, pecou ao ser mineiro demais no caso Juninho. O apoiador ficou bravo por estar na reserva, exigiu explicações, cobrou na frente das câmeras a própria escalação e conseguiu. Clayton fingiu entender. Ficou bem chateado. Não é de hoje que o treinador muda o time. E muitos não gostam. Além disso, há quem adore espalhar fofocas sobre o temperamento irrascível de Renato, ídolo da torcida.

O fato é que o Flamengo entrou em crise antes que o caldo entornasse. O clube que, depois de tantos anos de vergonha e descalabro técnico, começava a dar a volta por cima, orgulhando a nação de torcedores Brasil afora, enfrenta dias de tormenta. Chega ao clássico de domingo esfacelado emocionalmente e precisando desesperadamente do título. Não só para encostar no Fluminense, que tem 30 cariocas, mas para poder dar forças à torcida, ao elenco e até mesmo ao treinador visando ao segundo jogo no Maracanã.

Mas que hora para rachar, Flamengo...
Escrito em 03/05/2007 |Comentários: »
Vitórias e mais vitórias....




A vitória da fé

Mais do que a busca incessante pelo gol no primeiro tempo, mais do que as belas atuações dos canhotos Zé e Cléber, mais do que a estrela incrível de Luxemburgo, mais do que as confusões oculares do bandeira, mais do que as cabeçadas letais do Santos, o que ficou de lição no Morumbi foi a fé da torcida. Foi bonito ver o mar branco no anel superior do estádio. Depois da piaba aplicada pelo São Caetano no primeiro jogo e das críticas recebidas pelo empate na Libertadores, houve quem duvidasse da presença da massa santista. Mas ela foi. E acreditou. E cantou até o fim. Muitas crianças, e que conhece futebol sabe que pai só gosta de levar criança na boa, na certeza da vitória, para evitar decepções que possam fazer o rebento virar a casaca. O domingo mostrou que torcer é apoiar e acreditar. O São Caetano levou a pior. Porque tremeu. Porque não dá para um time da série B ser campeão paulista.



A vitória da raça

O Botafogo jogou melhor os dois jogos. Mas seus jogadores padeceram de soberba intelectual. Era o time da moda. O time dos jogadores esclarecidos. O time dos discursos bacanas. O time-alfaiate, que costurava até chegar aos gols. Entretanto, não soube dobrar um Flamengo despedaçado, criticado, rachado e humilhado. O Flamengo só morre quando acaba o jogo, ensina a história. Nas duas partidas ficou atrás, nas duas se recuperou do baque. Na última, ainda saiu na frente, mas levou uma virada imponente que quase vira goleada. Igual à torcida, o rubro-negro acreditou até o fim. O juiz errou. Mas quando um time é muito superior, nem juiz impede a vitória. E o Botafogo não soube ser campeão. Depois de uma atuação pífia no Uruguai, parece que os jogadores da Gávea souberam ler o recado da torcida e as críticas nos jornais. Na raça, na coragem, no suor que sangra, dobrou o favoritismo, superou os próprios fantasmas e garantiu lotação máxima no Maracanã. Porque não há rubro-negro no mundo que não acredite na possibilidade de um milagre diante do Defensor. E Juninho Paulista, em casa, remói-se de remorso.



A vitória da calma

Os atleticanos passaram a semana gozando os cruzeirenses. A retumbante e gigantesca goleada no primeiro jogo foi assunto no país inteiro. Pelos números, pelo gol inacreditável tomado por Fábio, pela surpresa do placar num clássico tão tradicional. Encomendaram faixas, empataram com o Botafogo na quarta-feira pela Copa do Brasil, evitaram dizer que o título já estava ganho mesmo sabendo que já estava mesmo. E souberam administrar os nervos, apesar dos dois gols do Cruzeiro no primeiro tempo. Não se desesperaram, não pensaram que era vergonha ser campeão perdendo o segundo jogo, não se deixaram levar pela pressão psicológica de uma reversão histórica de placar, mantiveram o 2 x 0 pro adversário e levaram o caneco para casa. Um título conquistado na prudência, de forma bem mineira, e que será lembrado sempre pela primeira partida, quando o Galo foi avassalador e deixou a Raposa tonta.





A vitória da tradição


Que Grêmio é esse que cai para a Segunda Divisão e volta triunfante, poderoso, cheio de si? Impressiona a qualquer um a capacidade de reação do tricolor gaúcho. Na final, não deu chance alguma ao Juventude e mostrou ao Brasil que tradição não se apaga da noite para o dia. Foi bicampeão e parte para o jogo com o São Paulo sabendo que não é impossível fazer muitos gols no Olímpico, ainda mais com o apoio desta torcida meio brasileira meio argentina, que faz uma bagunça alegre dos diabos e não deixa o adversário respirar. Tcheco estava inspirado, o time todo soube usar e honrar a camisa gremista, que aos poucos, e rapidamente, volta a ser respeitada e temida em todo o Brasil. Palmas para os pacientes, que evitaram vaiar Mano Menezes em tropeços recentes e aprenderam que futebol não é vivido jogo a jogo, como pensam muitos.



A vitória da redenção

Esse moleque, Fábio Oliveira, do Atlético Goianiense, vai parar em algum time da série A. Não é possível que ninguém esteja vendo o quanto o atacante rubro-negro do planalto é eficiente e polivalente. Faz gol de tudo quanto é jeito e ajudou o Atlético Goianiense a colocar de pé o projeto de retomar uma trajetória de glórias regionais e nacionais. O time não fez feio na Copa do Brasil, encarou o Goiás sem medo algum e leva o Estadual de forma brilhante e digna. Não é o único time brasileiro com tradição que tenta voltar, aos poucos, ao cenário da elite. É difícil. As diferenças financeiras fazem com que os habitantes do andar de cima se recusem a pegar o elevador e descer para a garagem. Mas sonhar com os pés no chão não custa nada.



A vitória sem gracinha

O Paranavaí foi campeão. Parabéns para o Paranavaí. Vamos ver até onde vai o Paranavaí a partir de agora. Ganhou o primeiro título da história e pôs o Paraná em péssimos lençóis, porque não consegui o bicampeonato paranaense e segue com os nervos em frangalhos para tentar reverter a derrota para o Libertad lá no Paraguai. O apelido do Paranavaí é Vermelhinho, muitos chamam o time de ACP, o treinador Amauri Knevitz está sendo elogiado por toda a imprensa e a história mostra que foi ele também o comandante da grande conquista do Malutrom, que levou a série C do Brasileirão há sete anos. Só que o Malutrom acabou, mudou de nome, ninguém lembra do título e o recém-criado J. Malucelli continua fazendo figuração. A cidade de Paranavaí tem todo o direito de comemorar. Os que adoram os times pequenos também. Mas vamos ver o futuro.



A vitória da ressureição

Metade de Belém do Pará esta é festa. O Remo foi campeão paraense e, de degrau em degrau, começa a colocar o pescoço de fora da crise que o dragou para fora da série A do Brasileiro e ainda deixou o rival Paysandu sob os holofotes nacionais durante muito tempo. O empate com o Tuna Luso foi suficiente para o Leão ganhar pela quadragésima-primeira vez o campeonato estadual. E para pavor do rival Paysandu, falta exatamente um título para os dois ficarem empatadinhos em conquistas. Tomara que o time acerte o pé na série B, onde estréia sexta-feira, e volte a lotar o Mangueirão como nos bons tempos. Basta olhar Pernambuco, que está com dois times na série A e continua a fazer parte do eixo nacional, mesmo com a queda do Santinha.



A vitória da tradição

O último parágrafo não é ufanista, é nordestino e tece contidos elogios ao Vitória e ao Fortaleza, os novos campeões da Bahia e do Ceará. Tímidos porque são dois times cheios de história e tradição e não podem se contentar com títulos estaduais. Precisam pensar grande, voltar rapidamente para a série A, porque campeonato brasileiro sem jogo em Salvador e em Fortaleza é uma pena. O rubro-negro ainda contou com a ajuda do cambaleante Bahia, que empatou em casa, e o tricolor de aço superou sem maiores dificuldades o bravo e valente Icasa. Mas semana que vem, todo mundo já esqueceu. É hora de fazer bonito na série B. Hora e obrigação.
Escrito em 07/05/2007 |Comentários: »
CENTRAL DE RELACIONAMENTO TODOS OS SITES MEUS DADOS POLÍTICA DE PRIVACIDADE