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Garambone

Sidney
Garambone

Jornalista

Na imprensa há 20 anos e com passagens por Jornal do Brasil, O Globo, O Dia e Istoé, é atualmente editor-chefe do Globo Esporte e debatedor do Arena Sportv. Tem mestrado em Relações Internacionais, escreveu três livros
( O Caçador de Barangas, em 2000,
A Primeira Guerra Mundial e a Imprensa Brasileira, em 2003, e Eu, Deus, em 2006) e acha que futebol é cultura. globoesporte.com
QUANDO EU CRESCER...




Quero ser igual ao Paolo Maldini, campeão europeu pelo Milan, campeão italiano um tanto de vezes, cabeludo, olhos claros, bonitão, nunca precisou jogar em outro time que não o dele, rico, come pipoca em Milão, continua em forma aos 38 anos, pode conversar com o pai sobre futebol todos os dias, ambidestro, faz um sucesso danado com as moças, fala italiano muito bem e acaba de virar um highlander do futebol. Sempre em forma, sempre vitorioso.

Se bem que Maldini nunca foi campeão mundial...

Tudo bem, Zico também não foi.

E você, que craque gostaria de ser?
Escrito em 23/05/2007 |Comentários: »
Era melhor ter levado o gol 1000...



Se Júlio Cesar soubesse o que aconteceria pouco mais de um mês depois daqueles encontros fatídicos com Romário, quando foi incessado, entrevistado e perguntando sobre a possibilidade de entrar para a história como o jogador que levou o milésimo...

Teria levado o gol 1000 com muito prazer. Era muito melhor do que falhar feio e tirar seu querido Botafogo da Copa do Brasil. Há quem diga que foi a grama safada, o montinho artilheiro traiçoeiro, o incrível efeito do mago Cleiton Xavier ou mesmo esta bola louca que os goleiros tanto odeiam.

Mas se pudesse escolher, Julio Cesar preferiria ter entrado para a história como o goleiro que consagrou Romário. Vejam o Magrão, goleiro do Sport, foi entrevistado, ficou chateado e ponto final. Vida que segue e o Sport atrás de uma boa campanha do Brasileirão.

Agora o Botafogo... Perdeu a chance de fazer a final contra o Fluminense.

Palmas para o Figueirense, que agüentou calado as provocações de alguns boquirrotos.

Palmas para o Fluminense, que pode jogar melhor e com mais autoridade, porém garantiu mais uma final na história do clube. Ou vira tabu ou volta à Libertadores.

Boa quinta para todos.
Escrito em 24/05/2007 |Comentários: »
PARTE DOIS


Era o trem das 9:05 e chegaria às 12:04 em Veneza. A pontualidade européia me encantava. Principalmente a de Giulianna, que pontualmente me deu um chute na bunda.
Acabou o panino e acabou a cerveja. Paolo me chama para ver os gols da rodada. Ele torce pelo Napoli. Eu torço por ninguém. No Brasil, gostava do Vasco e do Mixto, de Cuiabá. Os uniformes, brancos com uma faixa diagonal preta no meio, eram similares. Quando pequeno, decidi que torceria para todos os times do mundo que tivessem uma faixa diagonal no peito. Na Argentina, eu era River Plate. Era uma espécie de confraria pessoal, criada na minha cabeça. Como na Primeira Divisão Italiana assim, não torcia para ninguém.
Recusei o gentil convite. Guardei o material de limpeza no quartinho dos fundos e fui fazer o que mais gostava. Saí do albergue, tranquei a porta, andei cerca de trinta metros e sentei na beira do canal. Do outro lado, Veneza. O albergue fica na ilha de Giudecca, alcançável por barcas. Foi dentro de uma delas que cheguei e logo consegui o emprego. Mentira. Consegui depois de muito esforço e do argumento final para o gerente do albergue. Dei para ele a camisa da seleção brasileira que eu trouxera comigo. Era oficial. Era ouro para qualquer maluco no mundo que goste de futebol.
Por vezes, eu levava uma garrafinha qualquer de vinho tinto até a beira do canal. Dessa vez levei só minha alma, tinta, ligeiramente enebriada pela latinha de cerveja bebida com Paolo. Sentei na beirada, as pernas balançando e as luzes de Veneza piscando e olhando para mim. Me sinto um excluído, apesar de incluído. Faço parte de um mundo do qual não faço parte. Moro em Veneza, Itália, Europa. Mas sou um rato. Igual aos milhares que circulam pelas vielas evitadas por turistas. Desde que aqui cheguei ouço a balela de que a cidade está afundando e de que os ratos se multiplicam ferozmente. Talvez eu não tenha entendido bem o que eles tentam me dizer. Eu sou o rato.
Mais um rato. E aqui ficarei até submergir com a podridão reinante.
No silêncio da noite, o barulho do barco cruzando o canal me desconcentra. É o último da linha 5, que traz os boêmios. Os ricos podem beber mais do que os pobres pois sempre têm como voltar para casa. O barco encosta na pequena estação quase em frente ao albergue e três ou quatro jovens desembarcam. Um deles com aquela mochila enorme, tão típica. De longe mais parece um astronauta desembarcando em solo lunar. A ladainha vai se repetir. Eu me levanto e vou até o albergue. O grupo, dois rapazes e duas meninas, tenta abrir a porta. Trancada. Fechamos às onze.
São argentinos. Os rapazes cabeludos e as meninas com cabelos curtinhos.
Definitivamente, são argentinos. Explico para eles que trabalho no albergue, a menina da direita logo percebe que sou brasileiro, perdemos cinco minutos com a baboseira sobre solidariedade latino-americana e aviso que as leis do albergue são rígidas. A essa hora ninguém entra, ninguém sai.
Foder nem pensar.
Foi quando caí na besteira de dar a segunda olhada para a menina que descobriu que eu era brasileiro. Era linda. Branca, ruiva e esguia. Olhos castanho claro. Como não sabia se algum cabeludo era namorado dela, desviei o olhar rapidamente. E lembrei que precisava me apressar.
- Vocês não são os primeiros que chegam a Giudecca nesta situação. A 100 metros daqui, tem uma pequena pensão, de uma senhora viúva, que cobra 10 dólares o pernoite. Só que meia-noite ela fecha a porta - continuei explicando, naquele portunhol maravilhoso.
Se entreolharam, percebi a cumplicidade positiva e toparam me seguir.
Fomos andando pela beirada do canal, o albergue ficando para trás. Em italiano, chama-se fondamenta a via que margeia os canais. Estávamos, pois, na Fondamenta delle Zitelle. Algo como Marginal das Solteironas. O nome vinha de uma igreja dali perto. Chiesa delle Zitelle. Igreja das Solteironas. Que apesar do nome, ou por causa dele, vivia celebrando casamentos.
O silêncio era tranqüilizador. Por vezes quebrado pelo falatório argentino atrás de mim. Mas a bela cucaracha por quem me interessei não abria a boca. Talvez cansada. Talvez apaixonada por mim.
Até parece. Entramos na primeira rua à esquerda. Lá estava a pensão da dona Mitidiéri. Como que seguindo um roteiro, a própria dona Mitidiéri estava na janela. E me saudou.
- Ciao, Brasilino!
Me chamava de Brasilino. Usando o diminutivo italiano em cima da palavra brasiliano. Ela desceu e foi logo registrando os quatro argentinos. Me despedi, não sem antes pegar os quatro dólares de comissão com Dona Mitidiéri.
Não é nada, não é nada, mas já comprava quatro cervejas.
Voltei mais solitário ainda para o albergue. Enfiei a mão no bolso, peguei as chaves, me despedi da noite de Veneza com os olhos e entrei. Fui para meu quarto, atrás da cozinha, peguei um pedaço de queijo na geladeira e me deitei. Estava apaixonado. Ela era argentina e linda. Mas só ficaria três dias. Era a nona mulher por quem eu me apaixonara desde que cheguei a Veneza.
Das outras oito não obtive um beijo sequer. Nem pedi. Era pouco tempo. Apesar do albergue permitir a estada por três dias, turistas só costumavam ficar um. E rumavam para Florença, num roteiro óbvio, porém compreensível.
Sempre tive muito medo da solidão. Mas nesse meu exílio italiano, convivo dia e noite com ela, e a amo. Amo a solidão. Não posso ser infiel. A mim mesmo. À solidão.
Acordei às seis da manhã. Já não estava mais apaixonado. E fui ajudar Milena a arrumar o café da manhã dos alberguistas. Milena era uma milanesa pobre que trabalhava como servente no albergue. Também era casada com a solidão. Mas vivia às turras com ela. E sobrevivia infeliz. Milena odiava a solidão.
Fim do café. Hora de varrer. Varri. Fechou-se o refeitório. Onze da manhã. Até às quatro, tempo livre. Fui até a porta do albergue. Fazia sol. O barco da linha 5 acabara de atracar. Ouço berros de argentinos. Era a turma que guiei no dia anterior. Só que a bela ruiva não estava com eles. Os dois e mais a outra moça correram e embarcaram no barco. Automaticamente, me encaminhei para a pensão da dona Mitidiéri.
Mas que fique claro. Não sou infiel.
A dona da pensão varria a calçada em frente ao prédio. Como eu não tinha nada para fazer, me sentei num canteiro próximo e fiquei por lá, esperando a ruiva fantástica. Quando ela aparecesse, eu contaria minha vida, ou melhor, minha história recente. Ela se fascinaria. Eu explicaria também por que aquela ilha onde estávamos se chamava Giudecca. Em italiano, o nome signficava bairro judeu. Uma forma oficial de dizer que algo era um gueto. Onde excluídos viviam com status de incluídos. Hoje não havia muitos judeus em Giudecca. Só excluídos. Estou me repetindo.
Valeu a espera.
Ela saiu. Vestia uma calça de ginástica rosa, blusa branca, uma tiara vermelha e um par de tênis argentinos, brancos, que eu não conhecia. Ela me olhou. Eu a olhei. Levantei, me aproximei. Quebrei a cara.
Tinha um macho atrás dela.
Dei meia volta, sentei pateticamente. Fiquei olhando o casal, de mãos dadas, ir embora. Não entendi nada. Eles dobraram a esquina e não foram em direção à estação. Iriam passear por Giudecca. O cara era cabeludo. Parecia o Tarantini, o lateral mau-caráter da copa de 1978.
Ainda atônito, me fiz de bobo e perguntei a Dona Mitidiéri.
- Non eranno quatro turisti?
- Questo ragazzo é arrivato oggi nella matina... - respondeu minha fonte de renda paralela. Eram quatro argentinos, mas o namorado chegara de manhã.
E era cabeludo. E parecia o Tarantini.
Pelo menos dessa vez não precisei conhecer lábios que nunca tocaria. Fui até o albergue. Paolo iria fazer compras em Veneza. Resolvi ir com ele. Voltei com ele.
E continuei a viver minha mentira. No Brasil, os poucos amigos que tinha me julgavam um sortudo. Vivendo na Itália, conhecendo gente nova todo dia. Mal sabiam que bastava um dia para tanta gente nova me esquecer. Na porta do albergue, um grupo de suecas esperava por alguém que abrisse a porta para elas.
Todas horrorosas.
Entrei no albergue, levei as compras para a dispensa. Não resisti e abri um buraquinho no pacote de biscoito. Comi dois. À noite, Paolo viu o pacote desvirginado e me chamou preocupado. Me pediu que intensificasse a limpeza na dispensa. Disse que devia ter sido um rato o autor do atentado contra os biscoitinhos.
Tinha razão.

Escrito em 24/05/2007 |Comentários: »
Homenagem aos brasileiros que vencem na Itália




Antes do banquete, excluídos colocam talheres de prata sobre o pano branco da grande mesa. E pensam serem os incluídos.
Hora de varrer. A alemã dos pés sujos é a última a sair do salão. Já são dez da noite. Do outro lado do Canal de Giudecca, Veneza brilha. Gôndolas iluminadas passeiam recheadas de turistas apaixonados. Nem todos, alguns são gordos, suados e não estão nem um pouco apaixonados pelas gordas suadas. Varro. Paolo começa a trancar com grossos cadeados chineses as geladeiras do bar, me oferece um panino de muzzarela com tomate encalhado. Aceito, mas exijo uma cerveja.
- Ma non sai mangiare senza bére? - me pergunta, rindo.
Claro que sei comer sem beber, mas uma cervejinha, apesar de em lata e holandesa, sempre faz companhia. Ao panino e a mim.
Paolo comenta, como deve comentar todos os anos, que o verão promete. Já estamos em maio e os turistas se multiplicam como moscas. Chegam, ficam três dias e vão embora. A lei no Albergue da Juventude é clara. A hospedagem só é permitida por três dias. Há quem fique menos. Apesar de linda, basta um dia de caminhada para ver e entender Veneza.
Estou aqui há um ano. Já vi muita coisa. E continuo sem entendê-la. Sou o faxineiro do albergue, nasci em Cuiabá e passei minha infância na Chapada dos Guimarães. Saudades da época em que minha única dúvida era saber onde o mundo acabava. Meu pai era, ou é, não sei mais, motorista de táxi da rodoviária de Cuiabá. Eu era pequeno e ele me levava para o trabalho. Me deixava no banco do carona e levava os passageiros que chegavam cansados de Brasília, Rio, São Paulo, Minas. Não importava a origem. Seriam roubados da mesma maneira. Meu pai rodava com o taxímetro adulterado e várias vezes começava a corrida com o instrumento já contando.
Meu pai era ladrão.
Por isso fugi. O pouco que convivi com minha mãe, antes dela fugir também, serviu para aprender fragmentos de honestidade. Não suportava a cara de pau paterna em adulterar o taxímetro, ser grosseiro com os turistas e comentar com os colegas de praça, ou de raça, o quanto tinha ganho na bandeira 3. Eles chamavam de bandeira 3 o dinheiro que entrava através da má-fé.
Minha primeira fuga foi para a Chapada. Lá encontrei paz, solidão e imensidão.
- Onde o mundo acaba? - perguntava a mim mesmo olhando aqueles vales infindáveis do Planalto Central. Sentado de cócoras, refletindo... Os penhascos, argilosos e cobertos de vegetação rasteira, pareciam enormes suflês de abóbora envoltos por folhas de alface crespa.
Virei guia turístico mirim, larguei a escola, mas continuei estudando por conta própria. Minha vida se encaminhava para uma velhice segura, folclórica e tranqüila como o guia eterno dos mistérios da Chapada dos Guimarães e seus despenhadeiros sem fim. Provavelmente iria acabar sendo entrevistado pela Regina Casé.
Destino interrompido quando eu tinha 19 anos. Ela se chamava Giulianna, morava em Verona, na Itália, e estava passando 20 dias no Brasil. Cinco deles na Chapada. Ficou tão encantada com aquele céu tão próximo de nossas cabeças que se apaixonou por mim. E eu por ela. Se bem que até hoje não sei se foi amor o que senti ou a possibilidade de obter finalmente a resposta. Onde o mundo acaba?
Cinco dias de folia, sexo selvagem e irresponsabilidade. Giulianna foi embora e exigiu que eu aparecesse em Verona no mês que vem. Teríamos filhos ítalo-brasileiros e nos amaríamos para sempre. Como Julieta, como Romeu. Sem mortes.
Todas as mulheres são loucas. É minha frase preferida. Não canso de repeti-la. As italianas são loucas e berram. Dois meses depois desembarquei no porto de Roterdã após cansativos dias de viagem num cargueiro. Peguei um trem e rumei para Verona.
Antes fosse fácil assim.
Logo que saí do cargueiro, perguntei, no meu inglês de guia, onde era a estação ferroviária. Não era nem muito longe nem muito perto. Opteir por ir a pé. Conheceria um pouco da cidade. Quando cheguei à estação de Roterdã, comprei um saquinho de batatas fritas com uma bolota de maionese em cima, comi, me lambuzei e fui ver qual era a melhor maneira de ir para Verona.
Havia duas. Por Paris e por Basel, como me informara um marujo experiente do cargueiro.
Basel? Que diabo é isso, pensei com meus cadarços.
Não estampei minha ignorância à holandesa do balcão de informações. Era uma velha coroca de óculos, bem parecida com os contâiners enferrujados que vi, do mar, logo que o cargueiro começou a se aproximar do porto.
A coroca não sabia onde era Basel.
Agradeci e fui olhar o mapa. Aliás, com tanto tempo livre no navio, por que não vasculhei aquele mapa todo? Simplesmente porque não havia linhas de trem no meu mapa. Vê-se que eu estava muito preparado para conhecer, morar, viver e amar no Velho Mundo.
O mapa que me serviu na estação foi o que estava afixado numa grande parede à direita do balcão de informações. Tinha um sistema de localização fascinante. Eu estava em Roterdã, óbvio, então bastava apertar o botão da cidade para onde eu queria ir que o trajeto férreo apareceria no mapa em forma de luzes.
Beleza, só que não tinha nenhum botão para Verona. Apertei Milão, que fica a duas horas de trem de Verona. Isso eu sabia. Apareceram dois trajetos. Por Paris e por Basel. Isso eu também sabia.
Basel? Que diabo é isso, pensei com meu zíper.
Olhei a tal Basel no mapa e aprendi, para sempre. É uma pequena cidade na Suíça rodeada por suíços, alemães e italianos. Deve ter sido barra durante a II Guerra, mesmo com a neutralidade.
Basel parecia um prego cravado por Deus no meio da fronteira dos três países. Como normalmente cidades fronteiriças são cidades mal comidas, optei por Paris. Se bem que optaria por Paris qual fosse a adversária. Lá fui eu comprar uma passagem para Milão via Paris. Pertinho. Só vinte horas de viagem...
Fiz o seguinte. Comprei um lugar até Paris no trem das 23:34 com chegada prevista para 6:55 na capital francesa. Lá, passaria o dia, telefonaria para Giulianna, e de noite me enfiaria num trem para Milão.
Molinho.
Duro foi deixar Paris. Passei o dia deslumbrado com a beleza da cidade. Confesso que torci para me apaixonar por uma francesa qualquer e desistir do projeto italiano. Ficou na torcida. Até são bonitas as francesinhas, mas não olham para o lado, não paqueram, não vivem. Comprei uma garrafa de vinho num mercado árabe, duas baguetes, dois camembert e adulei meu estômago o dia inteiro com essa combinação mágica. Deu para conhecer a Torre Eiffel, o Quartier Latin, o Jardin Luxembourg, o pátio do Louvre e o Arco do Triunfo. Esse último me irritou. Uma ode patética às conquistas napoleônicas.
Noite caiu. Rumei para a estação de Lyon. O trem milanês saía às 22:22. Me diverti com o horário. Lembrei da brincadeira brasileira de chamar o número 22 de “dois patinhos na lagoa”. Quatro patinhos na lagoa. Como era inverno, pouco movimento nos trens. Estiquei as poltronas e dormi sozinho numa cabine. Eu e quatro patinhos.
Cheguei a Milão.
Encontrei Giulianna na estação. Bela estação. Se chamava Milano Centrale. Não tive muito tempo para admirá-la. Giulianna estava com os braços cruzados. Chovia, claro. Meu sorriso inicial congelou, meus braços se fecharam também e ela berrou. Berrou sem medo que me esperara durante um mês. Que as italianas não são sonsas como as brasileiras. E virou as costas. Gritei por ela, fui patético, corri atrás, e ela em bom português misturado com italiano me disse secamente e com ódio.
- Suma della mia vita!
Nunca havia sido tão odiado. E sem saber a razão. É bem pior.
Pela primeira vez uma outra pergunta apareceu na minha cabeça.
O que estou fazendo aqui, meu Deus?
Essa pergunta se repetiria muitas vezes durante a minha vida.
Ainda bem que o nome dela era Giulianna e o meu não era Romeu. Sem pensar em suicídio, olhei para o lado e vi um trem partindo. Entrei, sentei numa poltrona dentro de uma cabine não-fumante para seis e combinei o seguinte comigo. Fecharia os olhos e só na última estação, no destino final daquele trem, eu desceria. E lá decidiria meu destino. Vivi, na primeira pessoa, aquele ditado do “pegar o primeiro trem e ir embora...”.
Até parece. Não deu meia hora e apareceu um italiano de quepe e uniforme da FS, Ferrovie dello Stato, me pedindo biglietto. Aí tive que perguntar em portuliano para onde o trem estava indo. Eu ainda não falava bem o italiano.
-Venezia - respondeu friamente.
Paguei e não mais fechei os olhos.
Só para piscar.
Escrito em 24/05/2007 |Comentários: »
Reflexões Gaúchas



Não conto nos dedos meus amigos gaúchos. Não caberiam. Galito, Outeira, Kia, Jim, Alemão, Tchê, Paulo Vaca, Timóteo, Kehrvald, Kampff, Klein, Cris, Bola, Alegria, Carmencita e por aí vai. Esta semana todos eles estão meio mexidos. A classificação do Imortal para a semifinal da Libertadores, enfrentando o Santos, causou reações diversas e bipolares.

Um deles, colorado, ironizou: “É, estou pensando em mudar de time e assim viver até os 150 anos de idade, já que o Grêmio é Imortal!”.

O outro, gremista, já preparou o discurso: “Vamos ser bicampeões do mundo para mostrar a eles que é muito fácil, basta o Grêmio querer”.

Esquina adiante, outro colorado toma café decorando a escalação do Santos. “Vamos, Luxa!!!”

Já um tricolor teoriza: “O Luxemburgo faz sucesso em São Paulo porque os jogadores e treinadores rivais o temem, já que ele é muito badalado no eixo RJ-SP. Nós vamos atropelar”.

E o torcedor do Internacional confessa: “Torci muito para o Boca”.

E a semana corre, num Gre-Nal espiritual e divertido. Os gremistas aterrorizando os colorados com a possibilidade do tricampeonato da Libertadores. Os colorados fingindo-se de mortos e “pensando” apenas no Fluminense. E a gurizada jogando Fla-Flu para relaxar. No Sul, o totó ( pebolim) foi batizado assim por causa das transmissões de outrora do futebol carioca.

Quarta-feira é o primeiro jogo. No Olímpico. Os colorados já começam a dizer que eles só conseguem reverter desvantagens em casa, logo foi um péssimo negócio jogar em casa a primeira partida. Já os gremistas recorrem ao hino: “até a pé nós iremos”...


Escrito em 25/05/2007 |Comentários: »
INDEPENDENTE FUTEBOL CLUBE


Eu não sou seu
Eu não sou de ninguém
Você não é minha
Eu não tenho ninguém
Nós somos livres

Independente Futebol Clube
Você não manda em mim
Eu não mando em você
Eu só faço o que eu quero
Você só faz o que quer
Nós somos livres
Independente Futebol Clube

Se a gente tá assim
Comendo capim
É porque a gente quer
E se não quiser
Nós somos livres
Independente Futebol Clube

( Roger Rocha Moreira – Ultraje a Rigor)


Teóricos de Harvard gostam de panfletar o fim da estabilidade no emprego como uma conseqüência positiva da economia globalizada. Empresas rotuladas “classe mundial” ignoram suas origens e transferem suas sedes e unidades produtivas para onde for melhor e mais lucrativo. E surge um novo termo: empregabilidade. Quem tiver preparado parabéns, quem não tiver.... paciência. De quebra, os mesmos teóricos tratam de forma jocosa as toneladas de conquistas sociais do século 20. Afinal, elas atrapalham o novo estilo empresarial.

O social, o grupal, o societal.... está caindo em desuso. Revoluções? Só as individuais. Eu faço o meu, você faz o seu e ninguém sai prejudicado. É uma tese.

No futebol, não é diferente. O tal jogador de grupo está em extinção. Praticamente qualquer atleta de clube grande tem empresário e se preocupa com o próprio marketing. A avassaladora volatilidade também contribui com a falta de compromisso com os clubes, afinal não são raros os casos de futebolistas jogando por três times num ano só.



Conclusão: não dá para acreditar em certos discursos. E não é culpa deles. É reflexo de uma situação nova, onde o jogador torce mais para o próprio sucesso do que o do clube. O problema é que o sucesso do clube significa títulos e o do jogador nem sempre. Uma boa transferência, um bom contrato e até uma convocação são os maiores troféus contemporâneos.

Não cabe aqui listar os maiores expoentes deste novo futebol. Basta ler o Globo, o Diário, Estadão... ou assistir aos telejornais, de preferência o GE, para vermos entrevistas que não convencem. Discursos aparentemente comprometidos, mas vazios de autenticidade. “Quero ser campeão com esta camisa”, “Torcida igual a essa eu nunca vi”, “Era meu sonho jogar aqui”...

A dúvida é se este novo atleta fará o torcedor perder a identidade com o clube ou, ao contrário, reforçar os laços de afetividade com a camisa, já que se depender dos funcionários que usam chuteiras durante uma ou meia temporada apenas, a história não será escrita como foi em décadas passadas.
Escrito em 26/05/2007 |Comentários: »
ROMÁRIO NO ESPORTE ESPETACULAR



Neste fim-de-semana tive contato íntimo com o belíssimo material do repórter Lúcio de Castro sobre Romário. Ao lado do editor Dinho Artigliri, vi e revi várias vezes o documentário, madrugada adentro, que mostrou do nascimento ao gol 1000 de um dos maiores jogadores do mundo.

Lúcio optou por um corte jornalístico inteligente. Basicamente, o VT era dividido em Pobreza – Estrelinha – Glória – Expectativa. Mas com ênfase nas origens, nas pessoas e no ambiente que cercaram a formação do ser humano Romário. Foi claro perceber que o marrento de hoje era o menino desconfiado de ontem. A franqueza de hoje era a coragem de ontem ao enfrentar zagueiros maiores.

A reportagem é uma metáfora mastodôntica desse país maluco. O texto de Lúcio é sutil e delicadamente cutuca essa relação social onde só os “bons de bola” sobrevivem à crueldade da desigualdade. Ver a história de Romário é ver a saga de milhares de jogadores brasileiros. Nem todos viram Romário. Aliás, pouquíssimos.

Em vez de se orgulharem, a classe política brasileira deveria se envergonhar de ter fracasso durante séculos na tentativa de inserir o mais pobre no mundo Miami dos ricos. Esmolas e pirataria costumam enganar os que desfilam marcas fajutas pelas ruas das grandes cidades.

Romário disse a Lúcio: “eu me considero um bom caráter”. E a gente pára para pensar e repensar toda a trajetória dele. Não é que ele tem razão? Muitos reclamaram do tratamento especial que ele recebia. Outros do excesso de bolas que ele recebia.

Mas, em primeira pessoa assumida, eu vos digo: em todas as vezes que falei, entrevistei ou encontrei Romário, ele foi leal e correto. O que marcava fazia. O que falava garantia.

Não se trata de gastar palavras para alguém que não precisa de elogios. Apenas um cadinho de reflexões depois de saber que muitos chegaram às lágrimas após a reportagem no EE.

Boa semana a todos.


Escrito em 27/05/2007 |Comentários: »
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