BIAL É LEGAL
Pedro Bial é jornalista consagrado. É poeta. Foi correspondente internacional. Fez filmes. Escreveu livros e se diverte no BBB. Poderia ser tucano, mineiro e jamais declarar a cor do coração. Mas é autêntico. E durante a semana da final da Copa do Brasil, desfilou com a camisa histórica do goleiro Castilho, vibrando na madrugada de quarta para quinta com a conquista do Fluminense.
Bial é legal. Não é político. É tricolor.
Nando Reis também. Tem milhares de fãs. Compositor sensível. Um dos fundadores dos Titãs. Escreve para o Estadão. E assume ser são-paulino.
Mano Brown podia disfarçar. Herói da periferia, dos guetos, mas brada pelo Santos sem vergonha alguma.
O presidente Lula não temeu perder votos por ser corintiano. Ponto para ele.
José Serra idem. E chegou a bater boca com Felipão quando era ministro porque discordava da maneira do Verdão jogar.
Paulinho da Viola é Vasco e também não deixou de vender discos para flamenguistas. Herbert Vianna foi a Gávea de cadeira de rodas e beijou os pés de Júnior. Gabriel o Pensador não pensa duas vezes para assumir a paixão rubro-negra.
Guga é Avaí.
E o amor continua por aí...
Parece bobagem. Mas nesse mundo bobo, da notoriedade, do patrulhamento, da violência idiota, da falta de leitura, é bacana ver esse povo famoso que se iguala aos anônimos e não teme torcer. Por isso é compreensível que nenhuma americano veja graça em Chico Anísio. Ele torcia pelo América do Rio, mas não agüentou o jejum de títulos e virou Vasco.
Talvez o único momento sem graça de um gênio do humor brasileiro. Provavelmente o maior de todos, pois além de humorista, é um ator excelente.
Coisas do futebol.
O ESTÁDIOOs jogos já acabaram há mais de uma lua. O Imortal matou o Santos. E já pensa na final da Libertadores. Cada vez mais Mercosul, o Grêmio joga em português, canta em espanhol e sonha novamente com o mundo. Com o Milan. Não há torcedor brasileiro que não inveje esta marca cravada na pele do tricolor gaúcho. Uma espécie de tatuagem. Uma frase. Inspirada na pena de Renato Russo. “Quando tudo está perdido, sempre existe um caminho”. Devia estar no hino.
E o Fluminense?Quinta à tarde o Brasil mais jovem entendeu o que é o Fluminense. E o Brasil mais velho lembrou quem era o Fluminense. As imagens do estádio das Laranjeiras. Ou de Laranjeiras para os cariocas, pois no Rio o bairro que já foi fazenda de laranjas não é conhecido como “as Laranjeiras”. Simplesmente mora-se em Laranjeiras.
As imagens da torcida ocupando o gramado, como um MST polido e educado, dividindo em lotes a intermediária, meia-lua e grande área. Pulando, pisando, levando grama para casa.
Os jogadores eram detalhes. O treinador era um detalhe. Como algum quadro impressionista, as pinceladas misturaram na foto torcida, atletas, cartolas e cimento.
Cimento antigo, secular, que já viu todos os times grandes brasileiros jogando contra o Fluminense antes e depois do Maracanã. Já viu Seleção e jogo de Terceira Divisão. Timinho e Timão.
Laranjeiras, por um dia, voltou a ganhar os holofotes do Brasil. E os torcedores tricolores também. Não foi vitória heróica. Hoje, com calma, fica mais fácil entender o jogo em Florianópolis. O Figueirense se preparou para tudo, menos para um gol de Roger. Ninguém se preparou para o gol de Roger.
Só Roger.
A torcida levou um nocaute daqueles. Mário Sérgio também. O time então, nem se fala. Não foi uma pressão daquelas que a gente conhece bem. Não houve defesa milagrosa, como querem os assessores de imprensa. A juventude do Figueirense pesou. E o resto, o vizinho Gustavo Poli já descreveu de forma rodriguiana.
O avião decolou e pousou em outro ícone carioca do passado. O aeroporto Santos Dumont. A festa começou lá e acabou no velho estádio da rua Álvaro Chaves. Time centenário, com mais títulos cariocas, o Fluminense virou o século se reinventando.
Sem champanhe.
Mas com muito Bordeaux, da cor da camisa.