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Garambone

Sidney
Garambone

Jornalista

Na imprensa há 20 anos e com passagens por Jornal do Brasil, O Globo, O Dia e Istoé, é atualmente editor-chefe do Esporte Espetacular e debatedor do Arena Sportv. Tem mestrado em Relações Internacionais, escreveu três livros
(O Caçador de Barangas, em 2000,
A Primeira Guerra Mundial e a Imprensa Brasileira, em 2003, e Eu, Deus, em 2006) e acha que futebol é cultura. globoesporte.com
O lugar do outro



Guerras e assassinatos são mistérios matemáticos. Basta uma conta simples para inviabilizá-los, mas a equação é inversamente proporcional e a história humana parece ter predileção pela dupla sinistra. Ora, ora, se a vida é curta e passa num piscar de olhos, quando muito ficamos 90 anos pastando por estas terras da Terra, para que perder tempo bolando novas maneiras de abreviar a experiência? Por isso, pensem duas vezes antes de xingar o próximo. Ele pode não estar aqui em 50 anos...
Uma bela bengala neste exercício é assumir o lugar do outro. Está com raiva de alguém? Pense como este alguém. Ou alguma. Claro que, muitas vezes, o que vemos é sinistro e a compreensão passa para a compaixão. Outras vezes tornamo-nos pontos de interrogação ambulantes por não entender o que se passa em cabeças alheias. Eu, por exemplo, não consigo entender como o dono do Black Coffe, de Congonhas, pode cobrar R$ 3,80 por uma xícara de café com leite e R$ 2,20 por um pão de queijo que cabe na palma da mão. Classe média é muito otária.
E vamos logo ao futebol.
Experimente, num dia de folga, ir ao jogo do rival. Ou dos rivais. És tricolor? Passe a quarta-feira, à paisana, no meio da torcida rubro-negra. És palmeirense? Coma macarrão no domingo e rume para o Pacaembu, camisa branca, e veja um jogo na aorta corintiana. És atleticano? Vá sozinho, como quem não quer nada, ver e ouvir de perto a massa cruzeirense. És colorado? Asse uma carne e, na calada da noite, visite o Olímpico e participe de uma avalanche.
Como eles pensam? O que cantam? São iguais a você? As moças são bonitas? Eles babam? São demoníacos, vieram de outro planeta?
Como a relação candidato vaga dos cursos de antropologia não é tão grande quanto carreiras mais tradicionais, brinque um pouco de Rondon e mergulhe no seio dos povos da floresta. A chance de você encontrar grandes amigos nas hostes inimigas é enorme. Gente que toma chope contigo, vai a passeatas contra a tirania, curte um belo filme. E que você jamais xingaria a mãe e muito menos desejaria a morte.
Meu currículo futebolístico antropológico é extenso nesta área. Já fui ao Mineirão como cruzeirense e atleticano, ao Morumbi como são-paulino, ao Pacaembu como corintiano, ao Palestra, à Vila Belmiro. Também tive meus dias de vascaíno em São Januário, de alvinegro no saudoso Caio Martins, de rubro-negro no meio da Raça. Pulei junto com a torcida do Papão, do Timbu e segue a lista extensa pela minha memória afetiva e esclerosada.
Fica o convite e a pergunta: você já foi a um jogo do rival? Foi bom para você?


POR QUE NÃO VER

Nome de Família – Filme indiano rodada em Nova Iorque, trata de perdas e reconstrução. Tem muito a ver com este post. Durante duas horas, mergulhamos na lógica de um imigrante, numa religião distinta e na visão dos filhos dos excluídos. O ritmo cativa e não há um tiro, muito menos um revólver no roteiro.
Escrito em 13/06/2007 |Comentários: »
Relaxa e goza


A vida urbana nos fez ranzinzas. Chatos. Descompensados. Damos muito valor a bobagens universais e deixamos de considerar fatos e pessoas realmente importantes. Ficamos intolerantes, imediatistas e absurdamente impacientes. Um senador se enrola todo para explicar o pagamento de uma pensão e o mau-humor nacional prefere metralhar a ministra sexóloga. Relaxemos e gozemos!

E o futebol?

Segue a mesma lógica. O antigo conto de fadas filmado por Disney tinha sete anões. Seis deles risonhos. Um zangado. Estressado. Intragável. E não é que resolvemos nos inspirar exatamente nele? O Brasileirão está apenas no começo. Pouquíssimas rodadas jogadas. E a ansiedade atropela as paixões. Fora Muricy! Fora Celso Roth! Fora Caio Jr! Fora PC Gusmão! Fora todo mundo! Jogadores ainda imaturos são vaiados e ficam ainda mais imaturos.

Relaxa e goza, torcedor... Faça como Roger, que recebe salário, não joga pelo Corinthians, treina em Itaquera e vira-e-mexe vai para o Rio curtir a Débora Secco. Relaxou e gozou o ex-camisa 10 do Flu, Benfica e Corinthians. Kaká, cobiçado pelo tenso Real Madrid, optou por relaxar e gozar só depois do casamento. Já Romário relaxa e goza desde que virou profissional.

E Dunga?

Que que é isso, tetracampeão? És o Dunga, simpático anão mudo que encantou a formosa e alva Branca de Neve. Tira essa ruga do rosto. Curte o momento. Toma um vinho no frio da Comary. Dê boas gargalhadas do bigode do Américo Faria. Faça resenhas informais com tanto jornalista bom de papo e setorista da Seleção. Relaxa e goza, Dunga. Fica bravo, não. É pior para você.

Outro que anda precisando relaxar e gozar é Fernando Alonso. Quanta inseguraça, Buzzy Lightyear. Deixa o calça Lewis correr em paz. Não veja fantasmas. Guarde para si as desconfianças. Fica bravo, não. É pior para você.

E finalmente a turma que está na lanterna, que foi goleada recentemente, que deixou o título escapar... relaxem e gozem. Pode não mudar o futuro, mas pelo menos deixa o presente um cadinho mais aliviado, pleno. Abaixo a vida irritada. Viva a vida gozada.
Escrito em 16/06/2007 |Comentários: »
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