Mais uma grande chance para mudar o futebol brasileiro!
(foto copiada da página diariodorio.com)
O chamado é geral: Cartolas! Jogadores! Torcedores! Vendedores de amendoim! Roleteiros! Jornalistas! Deputados! Advogados! Flanelinhas ( não, flanelinhas não, são a escória dos estádios)... Enfim, todos que tenham alguma relação com a bola chutada neste país. Sentem nos lugares marcados no Engenhão!
Sábado o belo estádio será inaugurado. E nada melhor do que o primeiro dia para se cumprir o estatuto do torcedor, a civilidade, o respeito aos números. Que bom seria se funcionários com coletes indicassem os lugares para todos que subissem a rampa de acesso às cadeiras e arquibancadas.
Lembrem que era motivo de piada cinema com poltrona marcada. E agora já existem. Lembrem que a bandalha antes do Código Nacional de Trânsito era muito maior. Lembrem que o consumidor era tratada como lixo nesse país e agora já é tratado como um cadinho de respeito.
O Engenhão se tornaria uma espécie de Metrô, onde se respeita até as latas de lixo. O fator Engenhão seria levado para todos os estádios do Brasil. O torcedor conseguiria se programar, chegaria na hora que quisesse, perderia tempo comprando produtos dos próprios clubes em lojas especializadas e autorizadas pelos fabricantes e patrocinadores. E cinco minutos antes, voltaria ao seu lugar. Se alguém tivesse sentado, bastaria pedir para sair, em caso de “troglodice”, bastaria chamar o tal funcionário de colete.
Senhores, era assim na Copa da Alemanha. E os alemães possuem as mesmas características humanóides que os brasileiros. Até os pontos corridos também eram piada, com aquela história absurdamente preconceituosa da “cultura do brasileiro”. Que cultura é essa? A de ser roubado e ficar quieto? A de eleger alguns bandidos e ficar quieto? A de ser enganado e ficar quieto? A de comprar banana e levar maçã para casa e ficar quieto?
Certamente aparecerão alguns a defender a bagunça geral dos lugares. Porque não é cultura do brasileiro comprar um ingresso na fileira C, cadeira 23 e sentar na fileira C, cadeira 23. O brasileiro gosta é de ficar espremido, qual laranja de suco, longe dos amigos e ralando coxa com algum desconhecido que arrote de cinco em cinco minutos?
Eis, pois, a convocação! Sentem nos lugares marcados do Engenhão! E acabemos de vez com aquela piada repetida por nós mesmos, de que Deus fez um país maravilhoso, mas para explicar a São Pedro porque o Brasil não deslanchava, disse “espera para ver o povinho que pus lá”.
Que eu saiba, já acabamos com a odiosa expressão “êpa, pisei no Brasil”, quando o cidadão metia o pé no estrume canino.
Se os brasileiros não tiverem esta dignidade, quem vai ter? Os coreanos? Não, não, estes estão preocupados com a Coréia.
E seguindo o apelo da coluna Panorama Esportivo, do jornal O Globo, que a Tribuna da Imprensa seja usada... pela imprensa! E não pela turma arroz de festa.
Alô, alô, Engenho de Dentro, aquele abraço!
PRIMEIRAS IMPRESSÕES DO ENGENHÃO
foto Monika LeitãoA velha mania de querer fazer parte da história, mesmo sendo um ponto e vírgula na multidão, me levou ao Engenho de Dentro neste sábado. Voltei a ver o bairro onde fiz várias reportagens na época de repórter do Jornal do Brasil. Abandonado pelo poder público, como boa parte do subúrbio do Rio, que só vê melhorias, segurança e limpeza na turística Zona Sul, o Engenho de Dentro respira o cheiro de cola e cimento fresco vindo da obra recém-acabada.
O estádio é bacana, lembra um pouco o Mangueirão por dentro, mas ainda não se compara ao que se chama estádio de Primeiro Mundo. Faltam algumas coisas.
A primeira delas nada tem a ver com o Engenhão. Planejamento perfeito costuma envolver todos os setores pertinentes. Não foi o caso. A impressão que se tem é que a SuperVia, firma que ganhou a privatização da linha de trem carioca, esqueceu completamente de fazer investimento relevante tanto na estação quanto na sua malha. Peguei o metrô até a Central do Brasil. Tudo lindo, com direito a pastel de queijo + refresco a R$ 1,50. E começam os problemas. Os trens especiais para o estádio tem intervalos de quase meia hora. É muito e não serve para escoar o bololô de torcedores que chegam.
E nenhum dos homens de colete vermelho explica para um monte de gente desacostumada a andar de trem que é possível pegar o Parador, que não vai direto, mas chega ao mesmo lugar parando em algumas estações. Aliás, esta gente desacostumada teve uma bela lição de integração social. Meninas e meninos de classe média, algum dia chamados pelos livros de burguesia, jamais pensaram na vida em desfrutar de um transporte de massa, popular, barato e digno. Pena que a SuperVia estragou tudo.
O trem que saiu às 15h55, atrasado, parou alguns metros antes da estação Engenho de Dentro, e lá ficou, para desespero dos torcedores espremidos, apesar de refrigerados, que não viam a hora de descer. Cálculo feito, levei uma hora e meia de Botafogo ao Engenho de Dentro. Se fosse de bicicleta, era capaz de chegar antes.
A estação fica praticamente dentro do gramado. Perto mesmo. Mas a sinalização para os profissionais que trabalham ainda é precária. Não há uma entrada da imprensa. Feita a reclamação corporativa, um elogio: os corredores de circulação são excelentes e o acesso aos andares mais altos através de carrosséis parecidos com os do San Siro evita confusões. Mas as pedras decorativas num lago de concreto, logo na entrada, é de uma imprudência atroz, apesar de tricolores e alvinegros, no sábado, terem dividido ruas e trens sem maiores problemas.
Lá dentro, lugares confortáveis, mas sem marcação alguma. Será tão difícil assim? Comentaristas do blog, curitibanos e catarinas, já testemunharam que não. Já as lanchonetes, exploradas pelo Bob´s, mostravam filas absurdas e demoradas. De novo a mesma impressão, os serviços paralelos, que deviam compor o grande espetáculo, falharam. Esqueci de dizer que era impossível comprar a integração metrô/trem ida e volta. Só ida. Só na cabeça de um gênio.
Diferentemente da maioria dos estádios, o Engenhão é vazado e desvenda um Rio de Janeiro esquecido, já descrito e escrito por Machado de Assis. O sanduíche de montanhas e casinhas, o pôr do sol tangerina, antenas e telhados do século passado, velhas construções e galpões desativados dão uma nostalgia bonita ao redor.
Falta acertar alguns detalhes. Fica o voto de confiança para os que não sabem ganhar dinheiro. Não havia uma lojinha com camisas comemorativas do jogo inaugural. Quem sabe através do futebol, sempre democrático, um canto esquecido da cidade recebe a visita dos privilegiados e assim a cidade partida ganhe mais um esparadrapo.