O PAN DAS PEREBAS NO ROSTO
Eis o Pan. Atletas e várias línguas. O mais lindo, porém, são as perebas no rosto. Elas não estão no iatismo, nem no vôlei, tênis, boliche ou badminton.
As perebas estão no Atletismo e no tanto de modalidades que prescindem de dinheiro para a prática. A tez que não tomou iogurte na infância, que não sabe o que é desjejum, que comeu carne uma vez por semana. A tez queimada, de sol ou genética, que não estudou esporte, que sofreu para treinar, que viu no suor a única chance de sobrevivência.
São atletas pobres. Ou ex-pobres. Gente que já correu descalça por falta de sapatilhas. Gente que foi do subúrbio para o ginásio, para o estádio, de trem, ônibus ou a pé. E as perebas no rosto refletem as marcas de uma vida quase perdida. A mancha na pele denota a falta de riqueza, a falta de carinho, a falta de vergonha na cara. No melhor sentido da expressão. Pois se tivessem vergonha, esse punhado de brasileiros que supera recordes apesar de tudo que viveram não estariam no Pan. Teriam desistido no meio do caminho.
É para eles a nossa maior torcida. Protagonistas de biografias sofridas, capazes de provocar lágrimas e culpa. São nomes ímpares, batismos de cartório muito diferentes da correção gramatical e européia da classe média. São paredes de medalhas que encobrem a parede de alvenaria de um passado para ser esquecido. Negros, mulatos e brancos brasileiros, com perebas no rosto. E se Deus quiser, e a Bíblia estiver certa, medalhas no peito.
DEZ PECADOS DE UMA BELA FESTA1 – O transporte foi burro. O metrô não suportou o volume de gente, os vagões ficaram lotados e a concessionária, privada, parece não ter dimensionado, tal qual sua prima privada na estréia do Engenhão, no quesito trens. Por que não liberar as ruas para os táxis?
2 – Sinalização fora do estádio patética. A entrada era única e não havia uma placa dizendo.
3 – Sinalização dentro do estádio patética. Chegava a ser constrangedor olhar no ingresso o setor e a cadeira e não ter a menor idéia de onde ficava. Será tão difícil colocar vários totens informativos?
4 – Era proibido entrar com biscoito. Inconstitucional.
5 – Era proibido entrar com água. Inconstitucional.
6 – Revista de mochilas e bolsas demorada, nenhuma sinalização para idosos e crianças pequenas.
7 – Funcionários com crachás de remontagem aproveitaram para vender amendoins.
8 – Voluntários sentados nos degraus, atrapalhando a passagem do público.
9 – Cachorro quente frio. Bob´s e controle de qualidade precisam ser apresentados.
10 – Souvenirs caros.DEZ ELOGIOS PARA UMA BELA FESTA1 – Elza Soares sem orquestra. Maravilhosa e o povo cantou junto, com pigarreadas e tudo mais.
2 – Torcida divertidíssima repetindo o discurso do presida da Odepa. Buenas Tardes. “BUENAS TARDES”. Hoy... “OIIIII”.
3 – Luzes e fogos no tamanho certo.
4 – Ovação a Gustavo Borges.
5 – 90 mil cantando Boi da Cara Preta com Adriana Calcanhoto. Inédito na história do folclore nacional.
6 – Vaias e aplausos políticos. Domesticamente e internacionalmente.
7 – A pira bolinha de papel gigante.
8 – Cores e resgate de um Rio cordial e litorâneo nas coreografias.
9 – Trocadilho da galera com o refrão “Viva essa energia”. Cantaram Viva a cervejinha...
10 – O jacaré.
AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA
Nobres,Desconfie de quem não comemora um gol. A elegância discreta não cabe no esporte. Dia desses, uma cena esportiva linda e comovente. E não aconteceu na Arena Olímpica do Pan, no Mineirão ou na Fonte Nova. Foi numa calçada brasileira.
Um menino, com uniforme de colégio, esperando ônibus. Na mão, um saquinho pardo com mariolas. Ele as come. E espera o ônibus. Saciado, ele embrulha o saco e súbito tem uma bolinha na mão. Olha para um lado, para o outro, e divisa uma cesta de lixo a 10 metros. De repente, dispara em direção a ela, simulando quicar uma bola de basquete, dá três passos, voa e tchuf! Cesta. Dois pontos a mais para o Brasil. O moleque vibra e corre, alucinado com a proeza. E todos no ponto começam a rir e aplaudir o menino maluquinho. Pois viram que ele não era maluquinho.
Enfurnado nas ilhas de edição durante a preparação das reportagens sobre a derrota brasileira para a Itália em 1982, vi e revi o segundo gol de Falcão. E fui incapaz de segurar o arrepio em todas. Depois de uma jogada magistral com Cerezo, tirando três italianos com um blefe espetacular, Falcão venceu Zoff e correu de boca e braços abertos, as veias saltando, bombeando sangue e adrenalina em velocidade de Fórmula 1.
O domingo foi cheio de veias. Lá na Polônia, a cada bloqueio, Gustavo, da seleção de Vôlei, esticava os longos praços na direção da quadra, e as veias saltavam, saltavam mais que Giba pré-cortada. No hemisfério de baixo, um pouco mais para a esquerda, Júlio Batista calava a minha boca e a de muita gente fazendo um golaço na Argentina. E tome veia na corrida em direção ao banco de reservas.
O pranto de Jade ao perder a chance do ouro, na Ginástica Artística, é a vibração às avessas. É o amor de cabeça para baixo. É a mostra de que ela ama o esporte tanto que trocou o soco no ar e as gargalhadas da vitória pelas lágrimas da tristeza. Isso é amadurecimento. Não chorar é envelhecimento.
Nunca é tarde para uma transfusão de sangue para os que já desistiram de torcer, vibrar e comemorar. Aliás, os Bernardinho Boys são especialistas nisso. Mistureba de ascendências saxônicas, latinas e africanas, o time brasileiro é louro, preto, branco, mulato. E pulam qual pererecas em qualquer ponto. Bem mais que os adversários.
Pronto. O post acabou. Yeahh!!! Iurruuu!!!!
Pintura de Cláudio Baldini, pintor argentino
DE FRENTE PARA O MAR E DE COSTAS PARA O BRASIL

O blogueiro é parado no calçadão da praia de Copacabana. E repassa o relato:
Segunda-feira, 10h05 da manhã, o pai, ainda sonolento pelas jornadas ininterruptas de uma semana cheia, assiste pela televisão, em casa, aos primeiros pontos do vôlei de praia. É Brasil x Eua. Arena vazia. A filha, de 7 anos, faz perguntas, se interessa. Súbito, é convidada de bate-pronto! Vamos lá? Vamos! Ambos saem correndo, engolem duas maçãs, pegam o carro no Leblon, um trânsito na Atlântica e estacionam a tempo no Leme. Andam, driblam as cercas e chegam na entrada. Duas bilheterias. Dois contâineres azuis. Um para trocas de voucher, Citibank, Visa, Internet... não vende para o jogo em andamento. O outro, com uma extensa fila. São informados que a fila é para comprar ingressos para todos os eventos do pan. Handebol, futebol, ciclismo, vôlei, atletismo...Nem um guichêzinho para o vôlei de praia, ali do lado, cheio de cadeiras azuis sem gente sentada. Passam-se 15 minutos, o jogo da dupla brasileira acaba, mas a pequena ainda quer conhecer a Arena, ver pela primeira vez um jogo de vôlei de praia. Mais quinze minutos e ela desiste. Na memória afetiva, a primeira certeza: é difícil ver esporte no Brasil.
Para o pai, a segunda certeza. A Ticketronics é incompetente.