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Garambone

Sidney
Garambone

Jornalista

Na imprensa há 20 anos e com passagens por Jornal do Brasil, O Globo, O Dia e Istoé, é atualmente editor-chefe do Esporte Espetacular e debatedor do Arena Sportv. Tem mestrado em Relações Internacionais, escreveu três livros
(O Caçador de Barangas, em 2000,
A Primeira Guerra Mundial e a Imprensa Brasileira, em 2003, e Eu, Deus, em 2006) e acha que futebol é cultura. globoesporte.com
Marketeiros tristes. Hugo Hoyama foi ouro



Trombei com Glenda Kozlowski nos corredores da repartição. Falamos sobre Hugo Hoyama. E elaboramos pequena lista de perguntas filosóficas e rasteiras:

- Você já viu um outdoor do Hugo Hoyama?
- Você já viu o Hugo Hoyama de colar moderno?
- Você já viu o Hugo Hoyama num anúncio de TV com cara de bad boy?
- Você já viu tênis do Hugo Hoyama?
- Você já viu a sala da casa do Hugo Hoyama em revista de celebridades?


Hugo é atleta. E só atleta. Não tem charme, nem carisma, provavelmente. Mas tem 9 ouros em pan-americanos. Não faz sinalzinho para câmera. Não chuta o balde em boates. Ao ganhar a nona medalha, agradeceu aos pais. E disse no Globo Esporte que quer fazer palestra em colégios para transformar jogadores de ping-pong em futuros mesa-tenistas olímpicos.

E olha que os criativos de plantão podiam bolar uma linha fashion chamada H2O. Hugo Hoyama Ouro. Ou quem sabe um perfume? Hoyama – dê para quem ama. Talvez um remédio para dor de barriga. “Tá doendo? Chama o Hugo!”

É uma atleta em extinção. Que nasceu para competir. E talvez comprovou no Pan que os desta estirpe costumam, que ironia, ficar muito mais tempo na mídia. No caso dele, desde os jogos de Indianápolis, em 1987.


Minutinho de reflexão

Se Giba fosse cortado por Bernardinho, como ficaria o anúncio da Olympikus?

Por que os milhares de brasileiros que desistem do país e imigram ilegalmente para os Estados Unidos e Europa não ganham destaque na mídia como os atletas cubanos?

O corredor canadense dos 400 metros rasos, Tyler Cristopher, não parece Fantasma, o espírito que anda?

Escrito em 25/07/2007 |Comentários: »
Lugar da Seleção é no Maracanã



Do que adiantou construir o estádio em 1950? Do que adiantou ele ser a casa preferida de todos os jogadores brasileiros? Para que ser tão acolhedor com todas as torcidas a ponto de ser chamado nos anos 70/80 de Recreio dos Bandeirantes, porque os times paulistanos faziam a festa em confrontos com cariocas?

As quatro torcidas cariocas comungam do mesmo grito: “Arrá-urru, o Maraca é nosso”. Não há torcedor que não se sinta em casa no Mário Filho. Que desde a primeira vez não perceba que o concreto azul, tantas vezes maquiado e remendado, continua sendo a parede mais sólida de nossa memória esportiva.

Gigante pela própria natureza, o Maracanã reviveu dias de glória na final do futebol feminino. Seria tão bom se os burocratas financistas da CBF abrissem mão de algumas cotas milionárias em países milionários para agendar um ou outro joguinho da Seleção em gramados tijucanos. Chega de ver o Brasil jogando apenas em imagens de arquivos. Faz uma falta danada à História aquela rede balançando qual véu de noiva quando a bola beija o gol.

Palavras ao vento. O Maraca é deles. E eles não gostam do Maraca com a Seleção.

Valeu, mulherada. Lembrou o domínio brasileiro nos anos 50. Só goleada e show. Época dos adversários bobos...
Escrito em 26/07/2007 |Comentários: »
A palhaçada da naturalização



Não sou de usar termos rasteiros. Costumo carregar no bolso a pretensão de poluir os textos com palavras que fujam do vocabulário básico, sem prejudicar a compreensão. Talvez por isso eu receba alguns panegíricos esparsos pelas travessas da vida.

Mas a sanha de gritar palavrões contra os que se naturalizam é grande. O torneio de tênis de mesa, no Pan, está sendo mister nesta prática abominável. Culpa de quem se naturaliza, da confederação que aceita e dos que não boicotam eventuais medalhas ganhas por estes atletas que só pensam neles mesmos.

Cerca de 12 chineses raqueteiam pelas mesas do Rio 2007. Não me lembro de nenhuma hecatombe geográfica que tenha empurrado o território chinês pacífico acima, na direção do Peru e do Chile. Coisa de mercenário. De quem recebe e de quem paga. Já bati nesta tecla durante a Copa do Mundo. E certamente não torci para o cubano que se naturalizou brasileiro no remo.

Espanta-me que as entidades maiores olímpicas e pan-americanas não proíbam esta prática execrável. Espanta-me que elas não percebam que coibindo isso estariam protegendo o próprio negócio.

Por que torcemos para um brasileiro? Porque ele nasceu no mesmo lugar que nós? Não. Pois argentinos e ucranianos também nasceram no planeta Terra.

Torcemos porque o brasileiro que lá está competindo tem as mesmas referências culturais que as nossas, sabe o que representa a Xuxa, lembra a história política de Lula e ACM, ri de piadas sobre novelas antigas com Odete Roitman e Salomão Ayala, entende a rivalidade de Corinthians e Palmeiras, Fla e Flu, Grêmio e Colorado, Galo e Raposa, leu Paulo Coelho em português e outros milhões de itens.

O resto é dinheiro. E falta de vergonha na cara.
Escrito em 27/07/2007 |Comentários: »


Um recado simples e abreviado para aqueles ranzinzas brasileiros que passaram o ano de 2007, e mais recentemente durante o Pan inteiro reclamando e criticando o evento, alegando que ele não valia nada porque os Estados Unidos não mandaram seus times principais para várias competições, causando assim um suposto baixo nível técnico nos Jogos, o que acarretaria uma diminuição da importância dos mesmos, e conseqüentemente relegando ao esquecimento a bela edição carioca organizada e pensada por gente do Rio de Janeiro e do Brasil todo.

Pior para eles. E para os Estados Unidos.
Escrito em 29/07/2007 |Comentários: »
FUTEBOL DE LUTO


Não só o futebol. O basquete. O automobilismo. O teatro. A engenharia. A arquitetura. A sociologia. O serviço social. O funcionalismo público.

Antonioni e Bergman morreram. Dois dos maiores cineastas do século XX. Que insistiram, durante suas carreiras, em maneiras próprias de filmar a vida. Sem se influenciarem por modismos ou altas tecnologias que em vez de ajudar, atrapalham roteiros inteligentes e enganam o telespectador através da forma. Ou da explosão muito bem feita.

Mais ou menos como o craque “estilo antigo” que alguns insistem em dizer que já não cabem mais nos esquemas táticos de hoje em dia. Aumentou o preparo físico, posições sumiram do mapa, entretanto gente como Alex e Riquelme enchem os olhos dos torcedores, por uma visão mais poética do campo. Tratando com mais carinho a bola, traçando riscos geométricos inusitados no passe e dando tempo ao tempo, ao contrário da correria desenfreada.

Mais ou menos como Antonioni em “Além das Nuvens”. Episódios que falam de amor sem sexo selvagem, contam paixão através de mistérios e desencontros e fazem o espectador sair do cinema pensando. Simplesmente pensando.

Mais ou menos como Bergman em “Fanny e Alexander”. O seio de uma família tradicional rasgado através das memórias infantis de um menino curioso. A importância das pequenas coisas, a deificação do detalhe, a vida olhada em câmera lenta, sem ser sonolenta. E fazendo o espectador sair do cinema sonhando. Simplesmente sonhando.

Na última vez que fui a Buenos Aires, encontrei um torcedor do Independiente. Falamos de futebol, claro, e ele foi enfático ao dizer que admirava o estilo brasileiro, adorava o Brasil como país e que na verdade se havia um país rival da Argentina este seria o Chile, por ter permitido à Inglaterra a utilização de solo chileno durante a guerra das Malvinas. Porém, o mais curioso foi quando este rápido amigo revelou como seria a alma do torcedor do Independiente. Para ele, não importava o jejum de títulos. Porque o que interessa é ganhar jogando bonito, deixando uma história, um legado, um estilo de futebol ímpar. E repetia taxativo: “Não me interessa ganhar jogando feio”.

Assim como Bergman e Antonioni. A eles não interessavam filmes feios, rápidos, fugazes. A tela foi feita para rimar com bela. E a grama para rimar com drama. Tragédia, comédia, dramas. De final feliz ou triste, depende de quem vê. Depende do cineasta.
Escrito em 31/07/2007 |Comentários: »
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