PROMETEU Prometo que não escreverei na primeira pessoa.
Nunca cumpri minhas promessas. Se as cumprisse, não mais poderia fazê-las. Não lembro em nada o pagador de promessas interpretado por Leonardo Villar. Nem preto e branco sou.
Prometo não usar trocadilhos neste texto.
O apagador de promessas. Não sou um perdulário, nem fujo de gerentes, mas não pago promessas. E vou mais longe. Bem ali, a cem metros desta mesa que sustenta um laptop no wired debruçado sobre uma mixed view de Ipanema e Lagoa.
Prometo evitar termos em inglês.
Desconfie de quem usa bigode e cumpre suas promessas. Não as suas! As dele! Não confunda! Quem usa bigode merece nossa total desconfiança. Bigode e barba ainda vá lá. Mas só bigode??? Pode ser um gay bigodudo nojento, um homem-bomba bigodudo, um açougueiro bigodudo ladrão, um zagueiro desleal portando um bigodão, um presidente ladrão!!!
Prometo não ser exagerado.
Gay não tem o menor problema. Mas bigodudo e nojento, não dá. Igual mulheres. Bigodudas e nojentas, não dá. Nojento. Tchan. A mais famosa das promessas, por exemplo. Feita no altar católico, sob o olhar aduaneiro do maior agiota do universo. As escrituras são claras. Pecar é feio. Prometer e não cumprir é pecado. Prometer fidelidade e trair é péssimo. Basta ver os 10 mandamentos do Agiota. Como todos são cumpridos fielmente diariamente em toda parte da Terra, temos pois a explicação simples e cartesiana da perfeição do ser humano e de como o mundo é perfeito e feliz.
Prometo não mentir.
O cara que sempre cumpre promessas é um calhorda. Por cumpri-las sempre, jamais terá a benção e a felicidade e a faculdade e a possibilidade de pedir desculpas a alguém por uma promessa não cumprida. O calhorda está sempre em dia com as promessas. Sempre comprando e acendendo as velas prometidas. Sempre mudando de comportamento em relação aos pobres. Sempre levando para casa à noite o brinquedo prometido. Sempre chegando na hora aos jantares românticos. Sempre guardando sigilo de segredos alheios.
Prometo não repetir palavras.
Odeio escândalos. Aquela mulher descabelada, andando em círculos pelo quarto, batendo o pé no chão.
_ Mas você prometeu! Você prometeu largar tua namorada, tua vida, teus carros, teus filhos, tua profissão, teus barcos, teus dólares, por mim, meu amor, por mim!!!
Fala sério...
É matemático. Se o receptor da grita cumprisse, não poderia prometer largar namorada, vida, carros, filhos, profissão, barcos e dólars para a próxima gostosinha burra que aparecesse. Não cumprir promessas é uma questão pragmática e lógica. Quem as cumpre não sabe o dia de amanhã.
Flanelinhas. Guardadores de carros. Marginaizinhos urbanos. Você, feliz, saindo com os amigos, ou mesmo sozinho, com seu carango.
Prometo não usar gírias do tempo em que Dondon jogava no Andaraí.
Eis que surge os reis da extorsão, oficiais ou não.
_ Doutor, deixa aí “dez real” na volta.
Claro! Pode deixar. Confie em mim.
O truque é beber e engabelar o medo da violência urbana. Você vê o filme, a peça, o show, janta, dança, se diverte e bebe. Na volta ao carro, cumprimenta o pária, dá um tapinha nas costas dele, comenta sobre o caminhão barulhento que passou soltando fumaça ao lado, entra no carro, tranca a porta, liga a ignição, continua sorrindo, simula estar procurando a graninha prometida no porta-luva e vrum. Tchau. Um abraço.
Prazer supremo. Orgasmo asfáltico olhar pelo retrovisor e ouvir, mesmo com os vidros fechados, as pragas rogadas pelo filho de uma égua.
Favelado promete muito voto para político sério.
Mente.
Favelado promete muito voto para político que sobe o morro com dois litros de leite, três pãezinhos e algum chocolate vagabundo.
Mente e também não vota.
Favelado tem o meu total apoio para prometer o que quiser para o poder público e não cumprir. Para prometer cumplicidade ao chefe do tráfico local e também não cumprir. Ligando para a polícia e delatando o facínora que se finge de padrinho da comunidade.
Já usamos a matemática para provar a inviabilidade das promessas. Mas biologicamente, é muito fácil comprovar que o ser humano não foi feito para pagar promessas. Uma das frases mais piegas registradas em cartório é “o sorriso inocente de uma criança”.
Ora, ora, quem tem filho, sobrinho e já foi criança, ou seja, todos nós, conhece muito bem o cinismo infantil.
_ Mamãe vai ali devolver o DVD na locadora. Você fica quietinho e não mexe em nada, tá bom.
Na volta, a zona impera e a bagunça é senhora no apartamento.
_ Meu bem, você prometeu que ia comer o brócolis depois da batata frita.
Que inocência é essa que faz de trouxas pais e avós diariamente? Sábias crianças.
A promessa é irmã do cinismo e prima distante da cara de pau. São feitas para não serem cumpridas. E a arte consiste no fazer a promessa. Na dedicação, no uso adequado de palavras e expressões como “eu juro”, “acredita em mim”, “quando eu prometo é lei”... Isso sem falar no dia internacional da promessa. Adivinha quando? Quando?
O réveillon!
Que dia. Quanto cinismo. Quanta mentira. Que noite divertida e sincera. Todos prometem sabendo que não vão cumprir. Prometem na varanda, na boate, na praia, na missa, na piscina. Prometem de branco, amarelo, com lentilhas, uvas e flores.
Não é crime prometer. Pelo contrário. É uma baboseira assumir a pretensão da frase “se não pode cumprir não prometa”. Quem disse?
Prometo não fazer perguntas difíceis ao distinto leitor.
Prometo também não mais intercalar promessas no texto.
Israel até hoje tem problemas seriíssimos por causa da terra prometida.
Trailers prometem filmes belíssimos e o que vemos depois, na íntegra, são desgraças cinematográficas equivocadas.
Bush prometeu paz, felicidade e Mc Donald’s para os iraquianos.
Os militares brasileiros prometeram desenvolvimento e passagem de primeira classe para o Primeiro Mundo.
Grandes atores prometem todos os anos temporadas populares de peças que custam o olho da cara.
Prometo não pagar caro para ver um show do Blur no Brasil.
Haveria Aids se todos cumprissem a promessa de usar camisinha?
Haveria perebas na pele se as receitas do dermatologista fossem seguidas à risca?
E nossos queridos publicitários, responsáveis pelo estilo da nação? Doutorandos em promessas lindas, estéticas, muito bem editadas na TV, impressas com qualidade superior em revistas lindas como esta, estampadas em out-doors gigantescos na Marginal Pinheiros ou na Visconde de Pirajá. As fábricas de cigarro e uísque garantem: fumou, bebeu... enriqueceu. Publicitários passam a vida prometendo. E enriquecendo.
Mas boas mesmos são as promessas da ONU.
Ou as do maître que garante estar ótimo o salmão marinado com molho reduzido de alcaparras.
E o vendedor de cerveja, com o isopor xexelento, garantindo sincero:
_ Chefia, prometo, está geladíssima.
Não à toa os prazeres da cama são motivo de teses, discussões e extensas reportagens. Por que a maioria não curte o sexo sem traumas, preconceitos e negativas?
Simples.
Desde os bacanais romanos, os promotores da farra garantiam:
_ Não vai doer.
Quem acreditou....
E a humanidade seguiu caminhando, prometendo e nunca cumprindo.
Então. Prometa e goze.
Cumprir já são outros quinhentos.
Prometo não chutar quem será campeão brasileiro.
Prometo não reclamar do juiz para explicar minha derrota.
Prometo não vaiar firulas sem objetividade.
Prometo não defender mais as qualidades de Muricy.
Prometo não condenar jogadores-atores.
Prometo ir ao Fla-Flu.
E você, Prometeu?
Parei no penhasco e tive o fígado devorado por águias. Diariamente.
Arnaldo Bloch e a alma





Somos o que somos? Ou somos o que nossas escolhas representam?
Explico.
Arnaldo Bloch é jornalista, escritor e botafoguense. Tem um blog, uma coluna no jornal O Globo e mora no Leblon. É amigo do século passado. Portador de doce melancolia, notívago e afeito a acordes dispersos de sua pianola-bode, que ocupa metade da sala onde mora.
Dia desses o encontrei. Não estava bem. Parecia distante. Não perguntava coisas, nem nada comentava. Indagado, achou que o resto da mesa do bar é que estava dissonante. Não se percebeu transformado.
Cutuquei mais um pouco. Deixei o efeito de alguns drinques malucos e coloridos atuar. E ele respondeu seco:
- Pô, não viu o Botafogo ontem?
Era o dia seguinte da derrota para o São Paulo, quando a casa e a colocação na tabela começaram a desmoronar.
Você também muda de humor quando o seu time perde ou ganha? Ou apenas vira para o lado, dorme e acorda disposto, como outro dia qualquer?
Boa parte dos torcedores finge. Na derrota, relega o futebol a um papel secundário no tecido social, afinal o importante é sobreviver e para sobreviver carece trabalhar, estudar ou levar a mãe no médico. No empate, o torcedor costuma não feder nem cheirar, mas a pequena porção do “não fui o que poderia ter sido” inspira reflexão.
Na vitória, o torcedor mostra os dentes desde o despertar, ao escova-los, até o repouso noturno, feliz e com a estranha sensação de dever cumprido, apesar de não ter entrado em campo e suado quanto o time dele.
Procure, pois, ter paciência para os que mostram-se ranzinzas e grossos de uma hora para a outra. Se for amigo íntimo, é fácil perceber o motivo. Se for um passageiro do metrô ou um motorista repentinamente barbeiro, antes de xinga-lo por algum ato impensado e desumano, consulte na mente os resultados da última rodada. Tente imaginar que ele pode ter perdido um belo filme argentino no cinema por optar pela fidelidade ao time e 115 minutos depois teve que desligar a TV, o rádio ou a Internet bufando de ódio pela derrota inesperada.
Isso costumava acontecer com a Seleção. Mas a alma popular foi sendo traída ano a ano pelo descaso dos jogadores, da CBF e do fabricante dos uniformes com a mística e sedução da maior das paixões.
Restaram os clubes. Apesar do esforço dos cartolas ladrões, das declarações equivocadas de alguns jogadores e também dos fabricantes que inventam moda a cada semestre, a relação atávica e intrínseca continua.
Perdeu, sofreu.
“O torcedor é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.”