DE QUEM É O FUTEBOL BRASILEIRO?Da CBF não é. Ela apenas administra e explora a marca. Porém, a polêmica da foca, que durou a semana inteira e ainda respinga nas discussões, jogou luz numa questão delicada, filosófica e ética. Salvo raríssimas exceções nos dois lados, a boleirada condenou Kerlon e evocou conceitos de honra e humilhação. Já imprensa, torcida e celebridades em geral foram quase unânimes em afirmar que é isso que eles querem ver em campo. De quem é o futebol? Quem se arvora a escrever os 10 mandamentos da maior paixão do brasileiro?
Espero que ninguém.O jogador moderno, dono de Ipods, e-mail e celular último tipo, devia saber ouvir as massas, perceber o que elas esperam dele, seja no campo ou dando entrevista. Não está sabendo. Porque o futebol não é deles. O futebol é de todo mundo. Inclusive deles. Há pouco trombei com o repórter Eric Faria na cantina da repartição. Fez-me ele uma pergunta para lá de pertinente: “Por que termos como humilhação e honra não são evocados quando um jogador simula de forma descarada um pênalti?”. Lembrei-me também do velho exemplo do jogador desonesto do Atlético Paranaense que vibrou como louco apesar de ter chutado a bola para fora e o juiz e bandeirinhas, ceguetas, terem dado o gol.
Isso sim é humilhar o adversário, isso sim é ferir com lança afiada os princípios mais nobres do futebol. E tem mais: colocar a bola nas costas, na cabeça, calcanhar, letra, ovinho, rolinho, gaúcha, drible da vaca... não é proibido pela regra. Já simular faltas e enganar os árbitros não é legal. E tem mais mais: por que jogadores e treinadores que, ao vivo ou através de suas assessorias, empolam o discurso procurando palavras que condenem uma simples jogada criativa e circense dentro desse futebol chato que vemos hoje em dia, não se posicionam como cidadãos diante de tantas humilhações que sofremos diariamente? O que é mais humilhante, o drible da foca ou o imposto provisório que dura 10 anos? O que atenta mais contra a nossa honra, uma bola quicando na cabeça do adversário ou uma classe política desgastada, que nos decepciona diariamente em todas as frentes, em todos os partidos, em todos os estados?
É mais fácil dar uma trombada num garoto de 18 anos.
Irresponsabilidade não é o lance do Kerlon. É falar sem pensar.
TONY, DOUG, MARTA E PRETINHA...
Desde pequeno, gostei de conversar com os sábios do futebol. Gente que viu Didi jogar, Garrincha driblar, Canhoteiro marcar e Heleno de Freitas morrer. Eles viram. Como um amigo de uma amiga, que conheci numa festa. Disse-me que havia visto, na Califórnia, um show do The Doors. Um privilegiado.
Os sábios gostam de contar como era o futebol de antigamente, quando Santos e Botafogo eram quase atrações circenses em turnês internacionais. Iam, goleavam e ainda davam show. Podemos incluir aí a seleção de 58, a Hungria de 54, os vários escretes do Real Madrid e por aí vai.
Contam eles que os times europeus eram muito disciplinados e treinados. Sabiam executar fundamentos com perfeição e tinham lá um ou outro fora-de-série. Já a escola sul-americana era mais artística e com jogadores saudavelmente individualistas.
Eis que o Mundial de Futebol Feminino invade nossas almas patriotas. E lá estamos nós torcendo por Marta, Cristiane, Pretinha, Daniela, Maycon, Ester... E súbito, ao olhar taticamente e tecnicamente os jogos do Brasil, percebi que estamos diante de uma oportunidade única, um túnel do tempo raro, e sem a ajuda da tecnologia. Tony e Doug, os dois engravatados do seriado de décadas passadas, também não foram os responsáveis.
O fato é: o futebol feminino praticado hoje assemelha-se ao futebol masculino de outrora. Vamos enumerar:
1 – Poucas faltas.
2 – O time brasileiro carrega mais a bola, dribla mais e é feito de gente que precisa jogar muito futebol para pagar as contas.
3 – Os times europeus, e a Alemanha é o maior exemplo, tocam uma para a outra, sem conduzir demasiadamente a bola.
4 – As alemãs adotaram como tática grandes lançamentos e para isso precisaram treinar e ensaiar como matar bolas lançadas. E fazem isso muito bem.
5 – O número de gols é elevado na maioria das partidas.
6 – Ainda tem time bobo.
7 – As goleiras ainda carecem de técnica maior, pois é só chutar razoavelmente bem de fora da área que é gol.
8 – O ritmo do jogo é mais lento.
9 – As jogadoras costumam ser educadas umas com as outras.
10 – Dez é a camisa da Marta, inegavelmente a melhor do mundo, pois parece ser de outro planeta se comparada às atletas em campo. Como outrora.
E nada disso acima escrito é saudosismo. Apenas um convite para olhar a competição com um filtro cronológico, de preferência ajustando a televisão para preto e branco. Nossa, acho que nem é possível mais.
obs - Ô uniformezinho feio o do Brasil... masculino e feminino. Dá dó nos ver em ação contra outras seleções...