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Garambone

Sidney
Garambone

Jornalista

Na imprensa há 20 anos e com passagens por Jornal do Brasil, O Globo, O Dia e Istoé, é atualmente editor-chefe do Esporte Espetacular e debatedor do Arena Sportv. Tem mestrado em Relações Internacionais, escreveu três livros
(O Caçador de Barangas, em 2000,
A Primeira Guerra Mundial e a Imprensa Brasileira, em 2003, e Eu, Deus, em 2006) e acha que futebol é cultura. globoesporte.com
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Crônica de uma morte anunciada



Durante anos acreditou-se na mística esotérica espiritual fantasmagórica de que “tem coisas que só acontecem ao Botafogo”. Começo a duvidar. Depois do Monumentazo, acontecido na noite de quinta-feira, em Buenos Aires, erige-se uma outra verdade: “Só o Botafogo para fazer certas coisas”. O time alvinegro como sujeito da ação e não como vítima, coitadinho, pobrezinho, perseguido e elemento passivo dos fatos.

Primeiro os elogios. Alvinegros históricos me garantem: é o melhor time do Botafogo desde 1995. Concordo. Joga fácil e bonito. Mas toma gol que é uma beleza. E cansa. Cansa nos derradeiros minutos do segundo tempo. Às vezes e fatal. Como foi na Argentina. Deu gosto ver a camisa listrada desfilando e fazendo bonito no campo do River Plate. Toques rápidos, evitando que os Milionários crescessem em campo e dando a impressão de que aquele Botafogo de outrora, sem medo e com fama, estaria bem representado no século 21.

Cuca não tem culpa. O time joga bonito por culpa dele. Cuca não tem título. Será que por culpa dele? Quando Dodô firula, crente que o jogo estava decidido, quando outros jogadores desperdiçam chances claras de acabar com a partida de uma vez, quando o goleiro Max mostra-se ansioso e frágil, levando 4 gols num jogo em que não podia levar nenhum... fica complicado pensar em demissão por justa causa.

Não é fácil desenvolver nervos de aço e veias de gelo. O sangue quente costuma atrapalhar as tomadas de decisões. Mas é inegável que alguns clubes já conseguiram ter frieza, competência e seriedade para não deixar a maionese desandar. Times que, hoje, levam um gol e conseguem virar de forma pragmática, imperial e definitiva. Times que sabem segurar um resultado sem precisar de catimba e muito menos violência. Times maduros.

O Botafogo, apesar de alvinegro, ainda está verde. E como Santiago Nasar, anti-herói do livro “Crônica de uma Morte Anunciada”, de Garcia-Márquez, foi assassinado antes da história começar. Na verdade, um suicídio.


Escrito em 28/09/2007 |Comentários: »
O INCRÍVEL NÁUTICO



Há uma mania atávica da crônica contemporânea, e me incluo nisso, de se viciar em certos assuntos recorrentes. São Paulo disparado, Corinthians em crise, Luxemburgo, Obina, Renato Gaúcho, Grêmio raçudo, Inter classudo e um terceiro continente à sua escolha.

Eis que me pergunto: e o Náutico?

Eis que me perguntam: e o Náutico? – cobra-me enfático querido amigo pernambucano dono de mansão em Boa Viagem, pai de dois timbuzinhos e hoje morando no Rio.

O Náutico calou a boca dos apressadinhos de maio. Estava em penúltimo lugar, já rebaixado pelos críticos de boca grande e pelos rivais rubro-negros. Listavam no rol da sarjeta o pobre diabo América de Natal, mais Náutico, Juventude e um quarto continente à sua escolha.

Só que o alvirrubro, dono de um hexa que é um luxo, ligou o dane-se e foi à luta. Comandado por Roberto Fernandes, que é torcedor do N-A-U-T-I-C-O, o terceiro time mais popular do Recife venceu 5 partidas seguidas, deixou a zona de rebaixamento e já sonha até com uma inédita Sul-Americana.

Uma lição extra-futebol. Quantas vezes nos sentimos derrotados e simplesmente desistimos antes de lutar? Quantas vezes os amigos, também cansados da guerra, nos convencem a pular do barco? Quantas vezes o peso do fracasso próximo impede a batalha pelo sucesso improvável?

O Náutico pôs o bloco na rua e iluminou sua fuga da Segundona. O gringo Acosta resolveu acertar tudo com suas pernas longas, Felipe, que não é de hoje que vem jogando bem, voltou a acertar o pé, Radamés, tão novo e tão rodado, deu segurança e correria à meiuca pernambucana. E Kuki saiu.

Kuki muito ajudou o Náutico nos últimos anos. Mas criou-se uma Kukidependência mais nociva que saudável. O artilheiro migrou para o rival Santinha, luta na Segundona para subir e, quem sabe, fazer de 2008 um ano histórico, o ano em que Pernambuco voltou a ter seus 3 times grandes na elite do futebol brasileiro.

E não custa lembrar e elogiar o brio de um time que foi chacota nacional ao perder a Batalha dos Aflitos para o Grêmio. Depois daquilo, quando a recomendação geral era para o centenário time do bairro dos Aflitos fechar as portas e desistir do futebol, o time de Barbosa Lima Sobrinho, da Condessa Prosini, da moçoila grega e do meu amigo lá de cima simplesmente deu uma lição cinematográfica. A volta do morto-vivo. Muito mais vivo do que nunca.

Escrito em 30/09/2007 |Comentários: »
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