Crônica de uma morte anunciada
Durante anos acreditou-se na mística esotérica espiritual fantasmagórica de que “tem coisas que só acontecem ao Botafogo”. Começo a duvidar. Depois do Monumentazo, acontecido na noite de quinta-feira, em Buenos Aires, erige-se uma outra verdade: “Só o Botafogo para fazer certas coisas”. O time alvinegro como sujeito da ação e não como vítima, coitadinho, pobrezinho, perseguido e elemento passivo dos fatos.
Primeiro os elogios. Alvinegros históricos me garantem: é o melhor time do Botafogo desde 1995. Concordo. Joga fácil e bonito. Mas toma gol que é uma beleza. E cansa. Cansa nos derradeiros minutos do segundo tempo. Às vezes e fatal. Como foi na Argentina. Deu gosto ver a camisa listrada desfilando e fazendo bonito no campo do River Plate. Toques rápidos, evitando que os Milionários crescessem em campo e dando a impressão de que aquele Botafogo de outrora, sem medo e com fama, estaria bem representado no século 21.
Cuca não tem culpa. O time joga bonito por culpa dele. Cuca não tem título. Será que por culpa dele? Quando Dodô firula, crente que o jogo estava decidido, quando outros jogadores desperdiçam chances claras de acabar com a partida de uma vez, quando o goleiro Max mostra-se ansioso e frágil, levando 4 gols num jogo em que não podia levar nenhum... fica complicado pensar em demissão por justa causa.
Não é fácil desenvolver nervos de aço e veias de gelo. O sangue quente costuma atrapalhar as tomadas de decisões. Mas é inegável que alguns clubes já conseguiram ter frieza, competência e seriedade para não deixar a maionese desandar. Times que, hoje, levam um gol e conseguem virar de forma pragmática, imperial e definitiva. Times que sabem segurar um resultado sem precisar de catimba e muito menos violência. Times maduros.

O Botafogo, apesar de alvinegro, ainda está verde. E como Santiago Nasar, anti-herói do livro “Crônica de uma Morte Anunciada”, de Garcia-Márquez, foi assassinado antes da história começar. Na verdade, um suicídio.