A Ética segundo Dunga







Acho Dunga um cara legal. Bacana mesmo. Correto, apaixonado e sério. Mas também acho que Dunga precisa ser maleável, saber ouvir e aprender que vozes dissonantes são fundamentais para vivermos melhor. Disse ele que um jogador não fala de outro companheiro de profissão. Por que não? Se o Gustavo Poli escrever uma aberração no blog dele, se bem que é mais fácil acontecer o inverso, eu não veria problema algum no Lédio propor uma reflexão sobre o assunto. O que é ética?
Por este raciocínio dunguiano, o senador Renan e suas aberrações de conduta jamais seriam condenadas ou questionadas pelos companheiros de profissão, os outros senadores. Por este raciocínio, nenhum policial corrupto seria denunciado por um companheiro de profissão digno. O que é ética?
A ética no futebol precisa ser revista urgentemente, para o bem do futebol. O abominável código interno dos jogadores, que permite a falsidade da falta, o beijo no escudo diferente a cada três meses, a atrocidade de comemorar um gol que não entrou, o machismo de peitar a bandeirinha correta... isso tudo é falta de ética.
Onde Souza pecou? Por falar o que pensa? Ótimo. Há dezenas de anos que o futebol brasileiro é jogado por cordeiros, por brasileiros que se abstêm de opinar, por atletas que preferem ganhar seu dinheirinho, pôr uma corrente de ouro, um tênis bonito e falar bobagens. Aos poucos, vemos uma geração de jogadores inteligentes, vindos de todos os cantos e classes sociais, cheios de reflexões a propor e posições a defender. Não podemos calar esta revolução silenciosa. Antes, Afonsinho era exceção, Sócrates era um exemplão. Hoje, passe a passe, gol a gol, o futebol ensaia uma goleada na tirania e nos velhos modelos caquéticos, recheados de dirigentes despreparados e brincalhões, jogadores que não são exemplo de nada e torcedores travestidos de brucutus e trogloditas. E jornalistas inconseqüentes também, claro.
Tudo isso talvez acabe com o tempo. E quando Souza fala o que acha e propõe, realmente, uma discussão excelente sobre critérios de convocação, valorização do campeonato brasileiro e luta por direitos iguais, o grande Dunga usa o microfone de uma coletiva para falar em ética.
Ética, Dungão, foi o que você sempre fez dentro de campo. Ética, Dungaço, é o que você sempre faz com a imprensa: transparência e resolução dos problemas na hora. Por isso, não se preocupe com o Souza, ele está defendendo, em último caso, todos os companheiros de profissão. Inclusive você.
COBRANÇAO repórter Marcelo Outeiral trouxe, através de matéria publicada no jornal O Globo de sexta-feira 12, história incrível sobre atletas de rúgby desaparecidos durante a ditadura militar argentina. Dos parágrafos cunhados por Outeiral brota uma questão que incomoda o passado brilhante do futebol brasileiro. Por que contamos nos dedos, de uma mão só, os jogadores contestadores? Os que se juntam a alguma causa social, seja ela qual for, e se posicionam publicamente contra qualquer injustiça. Afonsinho? Sócrates? Casagrande? Talvez os projetos sociais de craques como Leonardo e Raí?
E quem sou eu para cobrar? O atleta faz o que quiser da vida e não é obrigação dele aproveitar a condição de figura pública para defender de alguma forma os que o aplaudem. Mas dá uma tristeza danada. Na redação, formou-se uma roda em busca de jogadores brasileiros atuantes. Ronaldo só criticou Lula quando foi criticado por Lula, e mesmo assim por causa da barriguinha. Zico chegou a ser ministro, mas de uma forma discreta e técnica. E pensar que o cracaço Cruyjff não veio à Copa da Argentina, em 1978, por discordar da tirania de então.
Cobrar coerência é legítimo? Também não sei. Um crápula que é crápula a vida inteira é coerente. E cobrar honestidade de quem nos representa em Brasília? Legítimo. Cobrar do taxista ao lado que não jogue na rua o papel da bala? Legítimo. Pedir o fim da CPMF? Legal. Exigir um chope bem tirado nos botecos moderníssimos? Legítimo e legal!
Talvez este texto seja uma extensão, uma seqüência do anterior, que pedia a Dunga compreensão ao novo pensamento do jogador de futebol. Talvez possa ser também um incentivo aos que não se envergonham de falar o que pensam. E certamente é uma crítica aos antigos, tenham eles 15 anos de idade ou 65, que adoram dizer que jogador de futebol tem que calar a boca e jogar futebol.
Abaixo, a boa reportagem de Marcelo Outeiral:Trinta homens correndo atrás de uma bola oval vão parar um país apaixonado por futebol. Contrariando as previsões, a Argentina enfrenta a África do Sul, domingo, no Stade de France, em Saint-Denis, pelas semifinais da Copa do Mundo de Rúgbi. Independentemente do resultado, esta é a melhor campanha da história azul e branca. O que poucos sabem, no entanto, é que, para nossos vizinhos, muita coisa além do esporte está em jogo nos campos franceses. O bom desempenho na competição fez aflorar na nação o sentimento de orgulho por um esporte que foi literalmente massacrado. O rúgbi registra o maior número de vítimas da ditadura militar na Argentina (1976-1983). Não há uma estatística oficial, mas pelo menos vinte dos cerca de trinta atletas mortos ou desaparecidos durante o regime eram jogadores de rúgbi.
- Este fato é pouco lembrado, mas marcou para sempre a minha geração. Aumenta ainda mais a nossa responsabilidade no mundial, analisa Mario Barandiarán, 51 anos, auxiliar-técnico da seleção Argentina.
Barandiarán escapou com vida de um dos maiores massacres da história do esporte na América Latina. Em três anos (1975-78), o homem que hoje é responsável pelo sistema defensivo dos “Pumas”, como é chamada a seleção Argentina, viu seu clube, o La Plata Rugby, ser praticamente exterminado pelo governo do General Jorge Videla. No total, dezessete companheiros de time foram mortos. Dezesseis deles sequer tiveram os corpos encontrados. Provavelmente foram presos, torturados e jogados ao mar, como aconteceu com grande parte das trinta mil vítimas da ditadura.
- Muitos desta lista jogaram comigo. Abel Vigo, Bettini, Reboredo, Sierra...Outros amigos tiveram que deixar o país e ficaram muitos anos sem poder voltar. Era exílio ou morte, lembra Mario.

O La Plata Rugby se mantém vivo e segue disputando o campeonato argentino. Todos os sábados, ex-jogadores se reúnem para um churrasco na sede do clube, que fica a cerca de trinta quilômetros do centro da cidade. É o "almoço dos sobreviventes". Uma celebração da vida e pela vida, mas os ausentes seguem sendo presenças fortes ali. A mesa é longa, a carne é farta e o vinho tinto embala as lembranças. Tudo muito simples. A presença da reportagem atiça uma discussão sobre quem foi o mais talentoso atleta da história do La Plata. O vencedor da enquete informal é Hernán Rocca, justamente o primeiro a ser morto pelos militares, em 1975, provavelmente por agentes da Triple “A” (Aliança Anticomunista Argentina).
- Acertaram Hernán com vinte e três tiros. Disseram que uma bala era para ele e as outras para nós, lembra Raul Barandiarán, ex-jogador do La Plata e irmão do assistente técnico da seleção.
Hernán Rocca era também o mais politizado. Pediu dispensa de uma excursão do time à Europa. Alegou problemas particulares, mas todos acreditam que ele preferiu ficar para não se afastar da militância no pequeno PCML (Partido Comunista Marxista Leninista). Raul, hoje um arquiteto de 56 anos, foi convocado para a vaga do amigo.
- Eu aceitei. Era também uma oportunidade de passar um tempo fora do país. A repressão estava aumentando. Quando voltamos, um mês depois, Hernán tinha sido assassinado.
Na semana seguinte, o La Plata teria que entrar em campo pelo campeonato argentino. O adversário sugeriu adiar o confronto.
- Não aceitamos. Fizemos um minuto de silêncio, que na verdade foram dez. Naquele dia jogamos como índios em uma batalha, conta Raul.
As fotos de Hernán Rocca e dos outros atletas desaparecidos ocupam um lugar de destaque na modesta sala de troféus do clube, um galpão de madeira onde funciona também um pequeno bar. Raul entra e fica em silêncio. São quinze minutos olhando calado cada um dos retratos.
- Estão vendo estes dois aqui? São meus amigos Otílio Pascua e Santiago Viamonte. Estavam na clandestinidade quando me casei. Tentei convidá-los para a festa, mas não consegui. Quando voltei da lua de mel eles tinham desaparecido. Foram torturados e mortos.
O La Plata Rugby virou um fantasma para Raul. Um trauma que quase vinte anos de terapia não conseguiram apagar completamente.
- Tem vezes que me sinto culpado. Será que eu estive ausente nos momentos mais importantes?
Raul talvez tenha tido apenas mais sorte do que os outros.
- Sua participação política não era muito diferente daquela dos colegas mortos. Eles se reuniam para protestar, entregavam panfletos, mas não estavam na guerrilha, observa Cláudio Morresi, atual secretário Nacional de Esportes e que teve um irmão morto na ditadura.
- Eles moravam em La Plata, uma cidade universitária e de muita contestação. Por isso, os estudantes locais eram alvo constante da repressão, conclui.
A intolerância com aqueles jovens atletas que lutavam pela liberdade também teve doses maciças de cinismo. Em maio de 1978, o presidente Jorge Videla reuniu a Seleção Argentina de Rúgbi que estava com as malas prontas para um torneio na Europa. No discurso de despedida, o General fez questão de frisar que estava feliz por saudar a juventude. E que, nos próximos dias, eles seriam uma espécie de embaixada da Argentina.
- Uma embaixada que represente a liberdade, frisou o ditador.
Vinte e nove anos depois, a seleção Argentina de Rúgbi é a surpresa do Mundial na França. Aos pés da majestosa Torre Eiffel, decorada com uma imensa bola oval, foi montado um pequeno complexo onde jovens acompanham os jogos pela televisão. Também há uma exposição com fotos e vídeos que contam a história do esporte. Os Pumas não estão contemplados. Mas é possível encontrar nas ruas de Paris pequenos grupos de torcedores argentinos, animados e orgulhosos. Livres. Para alegria de Mario Barandiarán.
- Hoje valorizamos muito mais a liberdade. Mas ainda sentimos uma pontinha de medo. Acho que vai continuar assim. O fantasma da repressão sempre vai nos rondar. Mas temos que estar concentrados para fazer o melhor neste mundial e escrever uma nova e alegre página na história do rúgbi argentino.