QUANTIDADE – O ERRO HUMANO
Curioso acompanhar as discussões acaloradas, e até divertidas, de cartolas e torcedores sobre mais uma pesquisa de preferência clubística. Os doze times dos ovos de páscoa estão lá, brigando por pontos percentuais, fora o Flamengo, eterno líder salvo catástrofe esportiva duradoura.
Parecem crianças. No bom sentido. “Meu pai é tem mais dinheiro que o teu”, “Minha mãe tem mais roupa que a tua”, “Eu tenho mais brinquedo que você”... Sempre a busca pela quantidade. Executivos aprendem no MBA que o axioma do novo capitalismo mundial é “maximização dos lucros”. Daí a fuga para os povos da floresta e sua mão de obra barata e sem força sindical.
E a qualidade?
Será que o botafoguense quer encontrar milhares de botafoguense numa festa? Ou basta trombar com três alvinegros especiais, que saberão todos os códigos exclusivos dos torcedores do Botafogo? E o palmeirense, precisa desesperadamente recuperar o posto roubado pelo São Paulo? Ora, a rivalidade mais histórica da cidade continua sendo a do jogo Corinthians x Palmeiras, independentemente de quantidade de torcedores.
Schumpeter, e economista e filósofo nas horas vagas, defendeu até os fins do dia a meritocracia e o elitismo. Calma, calma, o elitismo defendido por ele era o da ocupação dos cargos públicos por pessoas capazes, as melhores tecnicamente, seja qual fosse a classe social. Haveria uma elite dirigente no melhor sentido da expressão. Gente que saberia gerir a coisa pública, sem envergonhar a população.
Toda dona de casa sabe que se comprar comida demais corre o risco de vê-la apodrecer e ir parar no lixo. Todo obeso mórbido tem consciência que exagerou na quantidade, seja por motivo psicológico ou pura gula. Todo ator tem consciência que mais de um caco numa peça de teatro tira a graça da piada primeira. Não à toa o ditado “um é pouco, dois é bom, três é demais...” vive sendo evocado pelas esquinas.
Não se trata de diminuir a importância dos clubes de massa. Estão lá porque merecem e atraem gente, muita gente. Mas por que o XV de Campo Bom, o América do Rio, o Juventus de São Paulo e o América Mineiro são conhecidos e respeitados pela história e pelo charme atávico que carregam? E não vão para o divã trabalhar isso no analista, já que não têm torcidas gigantescas.
Apenas levantar uma bola que, não só no futebol, reduzir qualquer discussão à quantidade, de altura, de conta bancária, de extensão territorial... é literalmente reduzir. Pensar pequeno. Pensar rápido. As estantes literárias estão aí para mostrar que nem sempre o grande livro é um best-seller bombado e encontrado em todas as estantes de livrarias fast-food.
Ou seja, parabéns para as maiores torcidas. Pronto. Próximo assunto, por favor...
POR QUE NÃO LER?JUAN CARLOS ONETTI - O uruguaio está com a obra relançada. Destaque para "A Vida Breve", relato meio fantástico, meio realista, meio doidão, porém maravilhoso. A contra-capa traz elogios de Fuentes e Cortázar, elegendo Onetti como o melhor escritor latino-americano.
O DRIBLE, O CANAL 100 E UM TERCEIRO CONTINENTE À SUA ESCOLHA
Pela primeira vez na vida, fui ao Maracanã de avião. Já tinha ido de ônibus, a pé ( quando estudava na Uerj, ali do lado), de carro, carona e metrô. Cheguei atrasado, mas valeu a pena.
Robinho não jogou bem. Mas fez o lance mais lindo do jogo, deixando Descartes e o lateral De la Cruz a ver navios. Aqui ao lado, na redação, Eric Faria rebatiza o jogador adversário: João Equatoriano. Em alusão aos “Joões” enfileirandos por Mane Robinho, outra do Eric, ou melhor, Mane Garrincha.
E Descartes, um dos mentores do racionalismo, está em algum lugar refazendo suas contas e gráficos. Mas se Robinho não estava jogando bem, como pode ter sido o fato do dia?
Mágica.
Uma foto de Ivo Gonzalez, publicada no Globo na hora em que ele ameaçava cruzar de letra, mostra a impossibilidade física do drible. Cruzar de letra já é para poucos, Maradona fez e até o doido do Léo Lima conseguiu, também no Maracanã. Agora ameaçar e no instante do movimento, rever o projeto sem cair no chão...
Mágica.
Como também foi mágica a idéia de colocar imagens do Canal 100 no telão do Maracanã. Os mais novos talvez não tenham a memória afetiva de ver grandes lances e grandes craques pelas lentes do cinema. Só que, pela primeira vez, foi possível viajar no tempo e imaginar como era um Pelé, um Garrincha em ação. Pois as imagens estavam lá, no mesmo lugar do espectador, criando uma ilusão, aguçando a imaginação de como era antigamente, sem o testemunho de parentes mais novos.
A Seleção ainda se acerta. De bão mesmo, o goleiro, dos dois zagueiros e os três da frente. O resto cumpre o papel, mas pode melhorar, pode se destacar, pode se rebelar e sair daquele muro imaginário construído no meio-de-campo, e que impede o avanço de Mineiro e GS.
Mas, hoje, isso tudo é chatice.
O gol de Kaká, consciente, lembrando Zico, que lembrava Didi, que lembrava Zizinho. O drible de letra de Ronaldinho, que lembrava Júlio César, que lembrava Tostão, que lembrava Canhoteiro. E a travessura de Robinho, que lembrava Adílio, que lembrava sei lá mais quem... que lembrava a CBF que tirar o Maracanã da Seleção é pecado capital. E que devolvê-la não é generosidade. É obrigação.
A bolinha do Brasileirão e o KimiUma das melhores corridas da temporada lembrou a última rodada do Campeonato Brasileiro. Em 2006, foi emocionante ver a gangorra pela Libertadores e para não cair. Como é impossível transmitir 10 jogos numa tela só, a Globo usa a famosa bolinha e os narradores ajudam no suspense. A bolinha pinta e o torcedor sua. Ai, meu Deus. Gol de quem? Para que lugar eu vou? Libertadores, Sul-Americana ou Limbo? Durante quase 120 minutos, incluso o intervalo, o sistema de pontos corridos chega ao seu auge de emoção.
Em Interlagos foi assim. Na primeira volta, Hamilton era o campeão, escorrega daqui, sai da pista de lá, de repente o troféu está no colo de Alonso, mas a qualquer momento pularia para o armário de Kimi, segundo a vontade da Ferrari. Nas últimas voltas, uma BMW e uma Williams disputavam os metros do asfalto quente paulista e, em caso de colisão, Hamilton novamente seria o campeão do mundo. Recursos à parte, tapetão em suspense, foi a confirmação de uma suspeita levantada no ano passado. Sem Schumacher, o equilíbrio vai ser enlouquecedor. Mas pensemos bem. Será que a McLaren vacilaria tanto, deixaria seus dois pilotos brigarem, se o alemão estivesse na ativa? E ainda... Alonso foi bicampeão com Schumi e, ironia do destino, a Ferrari voltou ao topo sem ele. Mas com Kimi e Massa.
O brasileiro fez uma corrida sensacional, tirou o pé pensando no futuro e deixou claro, mostrando o troféu para os mecânicos, que fez jogo de equipe, para a equipe. Ganhou pontos e o respeito de todos lá dentro. Horas depois da bandeirada, enquanto pneus eram esvaziados e estruturas desmontadas, Felipe Massa ainda era aplaudido, de quinze em quinze minutos, na parte traseira do box da Ferrari. Enquanto isso, Mika Hakkinen desfilava dando entrevista e consolando os ex-colegas da McLaren. Com ele foi muito diferente.
E quase anoitecendo, Lewis Hamilton encarou um batalhão de repórteres do mundo todo, explicando sua frustração e agradecendo a torcida brasileira por ele. O pai, no canto, parecia um ex-jogador de futebol, daqueles da estirpe santista dos anos 60. Não se furtou a conversar com repórteres, deu entrevistas sem mágoas e foi claro ao dizer que a temporada foi maravilhosa, o filho vai ter uma lição para a vida toda, pois teve a sensação do campeonato absurdamente presente e deixou escapar a realidade. Místico, creditou à Deus as duas fases da temporada. Antes das duas corridas finais e depois. “Do mesmo jeito que Deus foi maravilhoso com Lewis, dando-lhe pontos e vitórias incontestáveis, parece que resolveu mudar a sorte no finzinho, como que mostrando ao meu filho que o aprendizado é mais importante que a conquista. Ele está triste, queria ser campeão no Brasil pela ligação que tem com Senna e viu, pelos jornais e no contato humano, que os brasileiros achavam e torciam pelo título dele”.
Enquanto isso, sem muito alarde nem assédio, Niki Lauda, de bonezinho, envelhecido e com as terríveis marcas do acidente na face, se encaminhava para o portão de saída. Ao lado, Lafitte dava entrevista para uma rádio perereca francesa e Bernie Ecclestone posava para fotos. A Fórmula 1 se despedia junto com o sol da zona sul paulistana. Os cafajestes de colar dourado e patrocínio para dar procuravam as profissionais do ramo para um gim fim de domingo mundano e ilusório.
Ano que vem tem mais. Semana que vem também tem mais. Só que é Campeonato Brasileiro. A última rodada está chegando... e as bolinhas também.