Nobres,
Mudanças e andanças me afastaram do blog por alguns sabáticos meses. Bom seria se todos pudéssemos tudo parar e assim refletir sem a correria urbana deste início de século. Ainda não consegui.
Neste retorno cibernético, saiamos um pouco do assunto do dia, afinal já sabemos de cor e salteado como foi e como deve ser a rodada da Libertadores e da Copa do Brasil.
Fiquemos com uma pequena revolta burguesa:A PERVERSA CAMISA AZUL
O Guri, animado depois de um jogo do Brasil, corre até a barra da calça do pai e berra!
“Pai, compra a camisa nova da Seleção para mim?”
E o paizão, que sempre fez tudo para o filho entender a magia do futebol brasileiro em cinco copas do mundo, revolta-se e esgoela:
“Não! Tá maluco? Pensa que meu dinheiro é capim?”
Alguém precisa levantar a voz. Talvez uma passeata da Vila Madalena até o Tatuapé. Torcedores de todos os times, juntos, unidos, de mãos dadas e num coro só: ABAIXO O PREÇO DA CAMISA AZUL DA SELEÇÃO!
Ou a fabricante enlouqueceu e se apegou de tal forma a maximização do lucro ou a CBF simplesmente acha que gerencia o futebol da França, país temperado onde o salário mínimo é equivalente a R$ 3.500 e não seria nenhum absurdo pagar R$ 250 por uma camisa do escrete nacional.
Mas num país tropical, e de Terceiro Mundo, como o Brasil, onde o salário mínimo acaba de chegar a R$ 415 há pouco mais de uma semana, é maldade cobrar este preço. É maldade, mas é verdade. Lá está ela, exibida, toda pimpona, na vitrine das lojas. A camisa número 2 da Seleção Brasileira. Bonitona, azulona, lembrando de alguma forma o manto que conquistou o primeiro título mundial na Suécia, mas quando olhamos a etiqueta... R$ 250!
Talvez algum gênio do olho grande não tenha entendido a brincadeira de Zito, presente ao lançamento, que ao ver Djalma Santos exibindo a camisa azul original, usada na copa de 1958, ofertou: “Dou mil reais por ela!”
Vale mais, muito mais. Porque é uma relíquia.
Mas no capitalismo de hoje, onde tecnologia e produção em série, em tese, deveriam baratear o produto final, é uma brincadeira de mau gosto com qualquer brasileiro, seja da classe A, B, C, D ou E, cobrar R$ 250 por uma camisa que de relíquia não tem nada. Afinal, ainda não ganhou nada.
E já que tem jogo do São Paulo hoje...
Amores difíceisNão é fácil ser Richarlyson. Aliás, poucos jogadores conseguiriam ser Richarlyson Barbosa Felisbino. Hoje, em Luque, no Paraguai, os 21 que estarão em campo com ele jamais conseguirão ser igual a ele. Talvez seja difícil até encontrar na arquibancada, entre os milhares de torcedores, 30 mil talvez, alguém tão corajoso quando o camisa 20 do São Paulo.

Não é fácil amar Ricky. Boa parte da torcida são-paulina ainda resiste a gritar o nome dele. Ricky é Richarlyson versão 2008. Não é fácil amar Richarlyson. Quando faz gol, comemora rebolando. Quando dá entrevista, não faz pose de troglodita. Quando vai receber o prêmio de melhor jogador do Brasileirão, na festa do Rio, veste um terno claro e bijuterias raras. Quando corre em campo, ninguém sabe que posição ocupa. Quando é xingado de gay, mantém a compostura, a educação e simplesmente procura a Justiça.
Ítalo Calvino é um grande escritor cubano, que foi cedo para a Itália, onde morreu em 1985. Um de seus melhores livros é “Os Amores Difíceis”. Richarlyson seria facilmente personagem de um dos contos de Calvino. Que poderia chamar-se “A aventura de um futebolista”.
Ex-jogador de Ituano, Santo André, Fortaleza e Salzburg, da Áustria, Richarlyson enfrenta o olhar estranho dos outros desde garoto. Já chorou por isso. Mas nunca esmoreceu. Seguiu o caminho da bola, sugerido pelo pai, o ex-jogador Lela, e escancarou o sorriso com aparelho ao saber da convocação para a Seleção, nesta semana, para o amistoso contra a Suécia, na Inglaterra.
No São Paulo desde 2005, já disputou mais de 100 partidas. Com dedicação, educação e elegância, Richarlyson seduziu Muricy Ramalho. “Esse garoto é um ser humano sensacional. Um menino de ouro. Admirado e respeitado por todos no elenco”, disse-me o técnico do São Paulo num papo informal. Agora foi a vez de Dunga dar um bico no preconceito. “É um jogador capaz de atuar em todas as posições”, falou.
Está cada vez mais fácil respeitar e gostar de Richarlyson.
Vai ver foi obra de James Joyce, o maior escritor irlandês de todos os tempos. Joyce nasceu em Dublin, adorava uma boa história, e lá do céu, vai torcer para Ricky entrar em campo e começar a escrever uma história diferente na Seleção.

foto de Alex Silva
Salvem os Valdívias!O futebol anda meio chato ultimamente. Qualquer gracinha é rotulada pelos ranzinzas como falta de respeito, quebra de código, insulto às instituições esportivas. Em campo, cada vez menos temos dribles, cada vez mais temos botinadas. Contam-se nos dedos as jogadas que valem o ingresso, o golaço que será contado e recontado através dos séculos, a finta inusitada e espetacular.
Talvez seja o mundo que ande meio chato. O filme que ganha o Oscar é a saga de um assassino sem nada na cabeça. A música que a moçada começa a gostar é a dança do créu.
Mas voltemos aos gramados.
Como apanha o palmeirense Valdívia. Como se joga o palmeirense Valdívia. Mas certamente o chileno apanha muito mais do que se joga. Será por causa dos dribles? Ou por ser cabeludo? Estrangeiro? Ou o motivo seria a finta divertida que ele inventou, simulando uma furada?
Normalmente criticado pela petulância e prepotência, Luxemburgo tem razões de sobra para reclamar. Estão caçando o Valdívia. E para um time leve e veloz como o Palmeiras, isso é um problema quase tático. Ao parar a jogada de ligação, especialidade do mago, o adversário interrompe o volume de jogo verde e ganha tempo para pensar e se armar. Luxa esperneia também porque acha que atualmente ninguém pode falar nada contra a arbitragem ou mesmo reclamar de cartolas.
Está coberto de razão.
Os poderosos do futebol precisam aprender a contestar acusações com boas respostas, e não com ameaças de punições. Na Itália, o bom menino Kaká resolveu pôr a boca no calzone e reclamou abertamente sobre os pontapés que tem recebido. E foi claro ao pedir punição para os que fazem falta. O camisa 22 do Milan rogou incentivo para os jogadores que procuram jogar bola de forma limpa e criativa.
No caso do Palmeiras, a especialidade são os ataques instantâneos e velozes tão logo o jogo começa. Normalmente, o time acuado, ou sufocado, tenta parar o jogo com uma faltinha ali, outra aqui. Como há uma grita enorme a favor do bom futebol de Valdívia, os juizes precisam ter atenção redobrada. Mas o inverso também pode acontecer, já que há um consenso entre os homens de preto sobre o teatro exagerado que o cabeludo faz quando toma faltas. Ou seja, se encenar demais, Valdívia pode se dar mal duas vezes: ganha pontapé e cartão.
COTOVELOBOLQuando a gente acha que o mundo vai melhorar... Que os motoristas vão parar de avançar o farol, sinal, semáforo, sinaleira... Que os motoboys circularão pela cidade com mais calma e cautela... Que as chuvas apenas molharão o pasto e não mais promoverão o caos urbano... vem o Diego Souza e acaba com nossas esperanças.

Além de ter sido, até agora, o melhor jogo do Paulistão, Palmeiras 4 x 1 São Paulo está demorando para terminar. Cartolas dos dois lados tentam suspender Kleber e Jorge Wagner por condutas anti-esportivas no gramado de Ribeirão. Numa, o palmeirense enfia o cotovelo rosto adentro de André Dias. Na outra, sem muita câmera por perto, o são-paulino tenta dar uma banda no mártir Valdívia.
Aí vem Diego Souza, que em campo está se tornando uma das peças fundamentais para a correria consistente de Luxemburgo, dizer o seguinte parágrafo, copiado e colado do noticiário da página Globoesporte.com:
- Estão querendo mexer com o grupo do Palmeiras com acusações ao Kléber. Ele não agrediu ninguém e aposto na sua absolvição. Foi um lance normal de jogo. Ninguém conseguirá tirar a nossa concentração. Estamos focados na partida contra o Paulista e vamos em busca da vitória para a equipe continuar no G-4 e muito próxima da classificação para as semifinais.
Diego precisa saber que as acusações ao Kleber são totalmente legítimas. Ele agrediu um colega de profissão de uma forma vil. E não foi um lance normal de jogo. Quem gosta de futebol torce muito para que o Palmeiras engrene e retome o caminho recente de conquistas. O elenco é ótimo, o treinador excelente e o camisa 10 é o mais surpreendente e divertido jogador do Brasil, apesar de ser chileno.
Que tipo de pensamento de vítima é esse, que assola o futebol brasileiro? Ninguém pode comentar nada que é criticado. No Rio, condenou-se também o chute covarde que o rubro-negro Toró deu no goleiro do Botafogo, o uruguaio Castillo, enquanto o arqueiro estava deitado no chão, protegendo-se de um círculo de flamenguistas babando de raiva. E Toró, em vez de pedir desculpas, desfiou aquelas baboseiras rasas de que futebol é para macho.
E que Jorge Wagner não ache que escapará também de um convite à reflexão. Jogador habilidoso, canhota poderosa, carreira já cheia de títulos importantíssimos, como Brasileiro e Libertadores, não precisava botar uma manchinha de lama no currículo ao acertar sem bola uma joelhada em Valdívia.
Num momento especial do futebol brasileiro, com a torcida voltando aos estádios, bolando cânticos criativos e inesquecíveis, com campeonatos eletrizantes e cheios de reviravoltas, e com bons jogadores voltando ao lar, caso inclusive de Kleber, já está na hora dos protagonistas darem o exemplo. Ou será que os quatro anos passados na Europa ensinaram a Kleber o arcaico e pré-histórico conceito de que futebol é para macho?
Só se for para macho desleal, cara-de-pau e totalmente sem noção.
2008, O ANO DA INHACA NA F-1?Será que já dá para falar em maldição ou cairemos no mesmo erro dos apressadinhos do futebol, que em janeiro já definem quem vai cair em novembro no Campeonato Brasileiro?

Mas é desagradável para nossos corações acostumados a bandeiradas ver que na temporada da Fórmula 1, depois de duas provas, ainda não houve pontuação verde-amarela. E são três brasileiros, de diferentes gerações, pilotando três bólidos. Um numa equipe de ponta, Massa, outro numa ex-equipe de ponta, Piquet e o terceiro, veterano e prestes a bater o recorde de participações, pertencente a Patrese, numa equipe contraditória. Afinal, japoneses, pela grana e disciplina, não costumam entrar para perder.
Quem sabe a culpa é do horário? Eu fiquei acordado para ver a corrida na Austrália e despertei hoje para a Malásia, mas milhões de brasileiros estavam dormindo. Daqui a duas semanas, no Bahrein, o fuso permitirá a todos uma boa balada no sábado e uma torcida bonita de manhãzinha pelo Trio Ternura.
Quanto à rodada de Massa, difícil avaliar. A telemetria provisória garantiu que não houve problema evidente no carro. A Ferrari ainda vai analisar mais. Felipe já tem cancha suficiente para não cometer o erro de entrar enfiado demais, porém a ansiedade e a tal da "nova Fórmula 1", com menos controle do carro nas curvas, podem ter traído o rapaz.
Nelsinho correu para aprender, mas já vimos calouros brilharem logo na primeira prova, o que não invalida a paciência, a torcida e a boa vontade do fã brasileiro. Pena que Kubica não nasceu no Brasil.
Já Barrica aguarda dias melhores.
Nós também. Não só no automobilismo.
MELANCOLIA
"Melancolia", de Edward MunchQuando mais novo, eu chutaria balde. Não só balde, chutaria chapinhas, latas vazias e talvez até um pé de cadeira desavisado. Hoje, apenas
fico triste. Desde que nasci, vivo com dívidas. Dívidas de gratidão. Dívidas de reconhecimento. Dívidas que me incentivam a tentar fazer história, nem que seja pintando um fradinho no quarteirão de casa.
Agradeço e invejo os primeiros jogadores e torcedores do meu clube de coração. Não fossem eles, não seria este o meu clube de coração. Lá no início do século, fizeram gols importantes, confeccionaram as primeiras bandeiras, foram responsáveis pelos títulos pioneiros. Quando nasci e cresci coube-me apenas a escolha.
Elogio também os primeiros republicanos, que talvez escondidos dos guardas e dos fofoqueiros do império, conseguiram mudar o regime brasileiro, mal acostumado a uma vida de colônia e império, recheada de privilégios sangüíneos e mordomias exacerbadas. Não fossem eles, talvez minha casa ainda estivesse um PR talhado na porta.
Estendo o tapete para os libertários e idealistas, que remando contra maré conseguiram de Isabel a abolição da escravatura. Mais tarde, seus descendentes livraram o Brasil de regimes autoritários
futuros.
Quantos jornalistas escreveram com estilo e coragem uma imprensa combativa e independente, quantos aventureiros resolveram fundar jornais, rádios e revistas empenhando as calças para criar uma indústria altamente competente em nível mundial na comunicação social.
Devo a todos eles.
Como devo a Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos, Didi, Zito, Pelé e Zagallo, Garrincha e Vavá.Por isso fico triste, apenas triste, quando Lúcio, Luis Fabiano e Alexandre Pato confessam em Londres que não sabem nada do primeiro time brasileiro campeão mundial. Nem mesmo o nome de algum jogador.
Apenas fico triste.