Sobre o tudo, o nada, orelhas, certezas e outras abobrinhas do futebol, já que falar sério o tempo todo às vezes cansa e a quinta/sexta anda morna como empadinha no microondas com defeitoPiada que homem adora fazer para mulher achando que está agradando: “Futebol é uma caixinha de surpresas, querida”. Ela, encantada, acha graça do moço que, encantado, acha que pescou a bobinha.
Mas é bom trocar o disco de lado. Porque tão velhas quanto a vitrola e a bolacha de vinil, as expressões consagradas dos boleiros não resistiram e mudaram. Nenhum jogador, ao dar entrevista, manda na latinha a história da caixinha. Acabou também o “eee... graças a Deus....” e o famoso “é... junto com meus companheiros... fizemos o que o professor mandou”.
Basta uma olhadela na televisão para descobrir a mais nova expressão preferida dos craques do futebol pentacampeão do mundo. E com um brinde. Depois de poluírem as entrevistas com abobrinhas, frases inócuas e declarações várias vezes dispensáveis, os homens que chutam criaram um gesto. Longe de ser obsceno, mas para lá de estranho.
Curioso? Lembra da Leda Nagle? Apresentadora do Jornal Hoje nos anos 80 e hoje comandando o Sem Censura? A culpa é dela. Mas ela diz que é de Maria Bethânia porque a cantora baiana falava muito a tal expressão, daí a jornalista mineira canibalizou, pôs no ar e acabou criando o indefectível bordão.
Com certeza!
É “com certeza” para lá, “com certeza” para cá.... Basta o repórter chegar e perguntar qualquer coisa. E a resposta do jogador começa com a expressão ledanagliana: “Com certeza....” Ainda vai chegar o dia em que questionarão: “Grande cabeça de bagre, jogaste nada hoje, és um pereba sideral, por que não desistes da profissão?”.... E o craque: “Com certeza...”
Pior é o gesto. Repare com cuidado. Mas não espalhe porque as fábricas de cotonetes podem aproveitar e faturar no merchandising. Quase todos os jogadores brasileiros resolveram, de uma hora para a outra, manipular a orelha durante as entrevistas. Cabelo molhado, camisa suada, matraca aberta ao microfone e mão... na orelha! São movimentos circulares, puxando o lóbulo para lá e para cá. Muitas vezes, se o papo com o repórter é longo, o atleta começa a empacotar a orelha num ritual esquizofrênico, estranho e surpreendente. Pelé mexia na orelha? Garrincha futucava o pavilhão auditivo? Rivelino massageava o ouvido?
Ah, essa juventude... sempre inventando moda.
Perguntados sobre o estranho hábito, esta espécie de inconsciente coletivo junguiano auricular, todos os jogadores ouvidos responderam: “Com certeza...”
E viva o Guaratinguetá...



PC, Juca, Garamba, Calaza, Helena e NoronhaA RESISTÊNCIA JURÁSSICA - CAPÍTULO 1É comum vermos em museus estudantes de Belas Artes reproduzindo as obras clássicas. Não é cafona, por exemplo, comprar algum pôster de gente como Van Gogh, Monet, Hooper, Munch, Bacon, Caillebote e pendurar na sala. Reproduzir, hoje em dia, não tem mais o vil significado de outrora.
Por isso, reproduzo abaixo alguns comentários um cadinho intolerantes no Garamblog relativos ao post Melancolia, onde registra-se a tristeza do autor com a ignorância esportiva de jogadores da Seleção, veteranos ou não.
a imprensa saudosista é muito mala!!!! – André
q coisa chata... tem uns caras na imprensa atual q querem transformar futebol em coisa de intelectual.
agora importante é saber a seleção de 58?!?!? – Renato
Quando eu vejo videos do Pelé fico desconsertado com o nivel dos zagueiros, hoje em dia tem peladeiro que faz melhor. – Alexandre
Então parem de ser chatos e dêêm mais valor pros jogadores de hoje – Gustavo
Aí está mais um jornalista que é viúva do futebol arte que não volta mais!!!
Então quer dizer que um moleque de 18 anos que nem o Pato tem que saber a escalação da seleção campeã em 58?!?!?! Futebol não é literatura, pro cara ter que ler e estudar autores do passado, pra aprender alguma coisa! – Anônimo 1
Também achei totalmente pífio o texto. Por mais que eles também sejam jogadores de futebol eles não tem obrigação nenhuma de saber esse tipo de informação. Você falou mais com o coração do que com a razão. – Maxcool
GRANDES COISA OS CARA DAQUELA ÉPOCA NÃO JOGAMVAM NADA , PQ ELES DA QUELA ÉPOCA E POE PRA JOGA AGORA
NAO PEGAM BANCO NEM EM TIME DE ESCOLA – Anônimo 2
Eles não têm obrigação de saber isso, são apenas jogadores. Assim como um médico não tem obrigação de saber quem descobriu a penicilina. – José
Não exagere ninguem é obrigado a saber da seleção na epoca de la vai bolinhas! Conhecer os caras eles conhecem só nao sabe detalhes.....extresso toda vez que fala mal do meu idolo Luis fabiano! – PámelaPara não ser injusto e para acalmar a gastrite latente e rodriguiana, estes comentários acima foram minoria. E certamente escritos sem reflexão. Afinal, nem eu nem a centena de comentários esculhambando o descaso histórico dos craques de hoje desmerecem o talento, em campo, desta turma. O que preocupa hoje é este paternalismo exagerado com os jogadores atuais. Este mimo ingênuo, que impede qualquer crítica. Quando a imprensa estampa fotos lindas dos gols deles, quando a TV encerra programas com clipes plásticos dos gols deles, quando jornalistas escrevem livros sobre a curta história deles... aí ninguém fica chateadinho.
Mas basta propor uma reflexão e até mesmo cobrar uma postura de gente civilizada e brasileira, ou seja, capaz de ler pelo menos um livro por mês, um jornal por dia... que o temporal de pedras começa. Nunca considerei esta turma, jornalistas e torcedores, que reverencia os craques do passado como saudosistas. Simplesmente porque esta mesma turma continua indo ao Maracanã, Morumbi, Mineirão, Arruda, Serra Dourada, Beira-Rio, Olímpico, Aflitos.... para bater palmas contemporâneas. Continua vibrando com as grandes jogadas e o golaços feitos nos século 21.
Fernando Calazans, colunista do Globo, citou o Garamblog esta semana. Foi generoso demais. Não consegui achar verbete no dicionário para agradecer tanta reverência de um jornalista que, já colunista famoso, me viu ainda com cabelos no Segundo Caderno do Globo. Calaza foi brilhante ao comparar o jornalista esportivo aos críticos de arte, que quando buscam referência no passado são elogiados e respeitados.
E cunhou o termo Dinossauros. Reproduzo a coluna dele e convido a todos os que compartilham da aflição pela burrice a fazerem parte desta confraria jurássica. Juntos, podemos tentar evitar a nossa extinção.
Futebol e cultura ( Fernando Calazans)
Na chegada da seleção brasileira a Londres para o amistoso de hoje com a Suécia, ouvimos de alguns jogadores a declaração de que nada sabiam sobre a seleção brasileira que se sagrara campeã mundial em 58 - o primeiro título mundial conquistado pelo nosso país. Nada sabiam daquele time, daquela seleção, e tinha mais: não sabiam dizer o nome de um jogador sequer daquela saga.
Os jogadores ouvidos foram quatro ou cinco. Se fossem os 22, a resposta seria a mesma: não sabemos o nome de nenhum jogador.
Quer dizer: não sabem o nome do Pelé nem do Garrincha. E muito menos do Nílton Santos, do Zito, do Gilmar, do Vavá, do Bellini. Do Didi, então, nem se fala. E sequer conhecem o Zagallo. Alguém aí ouviu falar do Zagallo? Eles não.
A reportagem da ESPN Brasil foi repetida durante o "Linha de Passe", segunda-feira à noite, causando protestos gerais dos participantes da mesa, que começaram com o Juca Kfouri, em São Paulo, e se estenderam até o Mauro Cezar Pereira, a meu lado, no Rio. Que descaso desses jogadores com sua profissão...
No blog do Sidney Garambone, no Globoesporte.com, também há um protesto. Um protesto, não. Desculpem. Garambone manifesta sua tristeza, sua melancolia, por causa daquele desconhecimento. Gênios que foram eliminados do universo do futebol, em seu próprio país.
Gosto de ler o Garambone. A começar pela apresentação no seu blog: Sidney Garambone é isso, é aquilo; gosta disso, gosta daquilo; terminando assim... "e acha que futebol é cultura". Gosto da singeleza deste final. Porque, no Brasil, algo que deveria ser um sentimento nacional virou algo que merece destaque. Merece mesmo: "Garambone acha que futebol é cultura". Acreditem ou não, é pouco comum, hoje, enxergar o futebol como cultura, mesmo entre jornalistas.
Ainda que mais jovem, Garambone é um brasileiro tão provecto e antiquado quanto eu. Achamos que, no país do futebol, o futebol ainda é cultura. Dois dinossauros, eu e ele. Dois, minto. Temos um pequeno clube de comentaristas: o Juca, o Trajano, o Márcio Guedes, o Helena, o Armando, o Sérgio Cabral, o Noronha, o Claudio Mello e Souza, o Renato Prado, o PC Vasconcellos, o José Geraldo Couto, o Areosa, o Roberto Porto - cada um mais velho do que o outro.
Nada mais do que um time de futebol, com algumas promessas no banco, e contando com a adesão de jovens e bravos repórteres que tomarão nosso lugar de críticos, mais cedo ou mais tarde. Somos chamados... chamados não... somos acusados de saudosistas e românticos.
Se um crítico de cinema analisar a obra de John Ford, de Eisenstein ou de Kurosawa, mostrará para seus leitores grande conhecimento da arte.
Se um crítico de literatura interpretar os romances de Machado de Assis, de Balzac e de Tolstoi, exibirá a sua vasta cultura.
Mas, se um crítico de futebol relembrar Garrincha, Zizinho, Didi, Gérson e até mesmo o recente Zico, será tachado de romântico e saudosista, de ultrapassado e senil. Para usar expressões caras ao Nelson Rodrigues, será considerado uma besta quadrada e um chato de galocha. O futebol deixou de ser cultura. É visto apenas com os olhos da competição, do business, da disputa, da violência, da estupidez, da guerra.
Eis o nosso martírio, neste país cada vez mais mergulhado na falta de cultura, na falta de leitura, de alfabetização, no desamor à sua História e à sua Arte.
Recorro à escritora Lygia Fagundes Telles, em seu depoimento ao caderno "A língua da união", publicado no GLOBO: "... essa luta é uma luta pungente, uma luta bela, heróica, porque acontece num país que não dá importância à nossa língua."
A nossa língua, disse ela, não damos importância à nossa língua. Acho que tudo isso começa - ou acaba - por aí.Lembrando os franceses amantes de Fontaine, Papin, Platini e Zinedine, ergamos uma Resistência. Saudável e cheia de referências ao passado, presente e futuro. Contra o Sindicato dos Acéfalos, funda-se a RESISTÊNCIA JURÁSSICA.
Bem-vindos.
Parabéns, Betão
Mas o aniversário dele de 26 anos foi em novembro passado, uai.
Parabéns, Betão.
Mas o zagueiro santista não fez gol algum no clássico contra o Santos!
Parabéns, Betão.
E ainda foi expulso, quase colocando a vitória em risco!
Ah, então o parabéns da coluna é pelo elogio que Betão recebeu de Pelé.“Ele foi o melhor do jogo”, disse Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, sobre Ebert Willian Amâncio, o Betão.
Também não foi por isso.
Betão brilhou quando estava de cabeça quente. Quando seu sangue paulistano borbulhava na metade do segundo tempo na Vila Belmiro. Quando depois de roubar com classe uma bola no meio-de-campo sofreu uma seqüência de covardia e estupidez do argentino Herrera. Além da botinada desleal, Herrera, que apesar de atacante tem os mesmos dois gols do zagueiro Betão na temporada, subiu com os dois joelhos nas costas do santista deitado. Betão perdeu a fleuma, a paciência, enlouqueceu, levantou e deu uma cotovelada no peito do adversário. E ganhou um cartão vermelho e a tristeza. Entrevistado imediatamente depois, não saiu xingando o árbitro, não ficou praguejando, nem falou palavrão algum. Disse apenas calmamente:
_ Eu errei.
Parabéns, Betão.
Mesmo sabendo que o árbitro Sálvio Fagundes Filho errou ao não expulsar também Herrera, que por sua vez cometeu o erro inicial da covardia em cima de um colega de profissão, criado no Corinthians e respeitado pelos corintianos, Betão fez uma auto-análise relâmpago. E viu que o revide é uma burrice. Não só no futebol. Que a vingança pura e simples não leva a nada. Basta lembrar desta estranha semana de chuvas e engarrafamentos. E recordar a capa do Diário, mostrando o rapaz ofendido que matou o amante da esposa, tatuou o nome dele no braço e agora prepara-se para mofar na prisão.
Uma reação completamente diferente, por exemplo, da do palmeirense Kleber, que dias depois da cotovelada, após o julgamento, não teve a decência de se arrepender e assumir o destempero em campo contra o zagueiro André Dias.
Mas o Palmeiras também merece parabéns. Não por isso. Afinal, técnico e elenco, que com razão sempre reclamam da violência contra Valdívia, não levantaram voz alguma criticando o lance de Kleber. Aliás, seria bom que Mano Menezes ou qualquer outro jogador lúcido do Corinthians chamasse Herrera no canto e desse uma bela bronca nele.
Voltemos aos parabéns para o Palmeiras. Jogou no Palestra sábado e se classificou no Palestra. Mérito do mesmo técnico e do mesmo elenco, que não se preocuparam, no início do campeonato, com a desconfiança da imprensa e da torcida. Regidos por Valdívia, o craque sorridente, jogadores como Diego Souza, Alex Mineiro, Henrique e Martinez encaixaram de vez na tática do toque rápido e da correria saudável. E para a alegria da torcida, estão sendo abençoados pelo bom humor e alto astral do goleirão Marcos, que não se esconde na derrota e não exagera na vitória.
Bom, quanto ao Guaratinguetá... vamos esperar o domingo para parabenizar. E lamentar pelo Santos que, sem Betão, deus adeus à classificação.


VOTO ABERTOMais uma prova que o futebol precisa e tem que ser divertido. Mais uma razão para riscarmos de vez a ignóbil palavra “intolerante” de todos os nossos dicionários. É por isso que, ao contrário de certos representantes do povo, o Garamblog revela o seu voto no atual pleito do globoesporte.com:
DANOS MORAIS! O nome é simplesmente sensacional. A opção “desmoraislizante” é bom, namora com a infâmia, mas não tem a força e a representatividade de Danos Morais. Caneta de ouro é saudosista, já que andam me acusando disso, Letra do Samba é um pouco hermético e Soletrando vai parecer propaganda do Caldeirão do corintiano Huck.
Quem vota ou procura saber o resultado parcial deve até tomar um susto. Cerca de 75 mil votos. Isso depois de mais de uma semana de um jogo chinfrim em Bragança Paulista, num campo ensopado, mas que virou manchete por brindar o pequeno público com um lance daqueles ímpares. Um drible novo. Claro, os chatos vão dizer que o Cristiano Ronaldo fez um desses num jogo contra o Queens Park Rangers, aos 17 do segundo tempo. Mas é novo e muito novo. Uma mistura de letra com meia pedalada com a famosa bola debaixo das pernas ( ovinho, rolinho, janela...).
Morais hoje é a única referência famosa do Vasco. Numa enquete imaginária com torcedores de outros times, é o nome do canhoto camisa 98 que mais aparece. Falou em Vasco, falou em Morais. Pena, porque Morais é um jogador diferenciado, mas ainda não consegue vencer jogos sozinhos.
O grande número de votantes é prova cabal de que o torcedor, independentemente das cores por quais torce, vê o futebol como espetáculo, como um chat
divertido entre amigos, como ferramenta única de democratização verbal desse país. Ou qual outra hora que o empresário conversa animadamente com o ascensorista?
Por isso que o bom, para irritar e alegrar muita gente, é sair por aí lançando campanhas e manifestos. Provoca, pelo menos, a reflexão. Vai aqui a primeira campanha do recém-criado movimento RESISTÊNCIA JURÁSSICA:
Abaixo a Rivalidade Sadia!
Porque se é
sadia, não é rivalidade.
Aos que moram no Rio, uma dica para aprofundar a discussão nesta agitada tertúlia. A peça “O Dragão”, em cartaz no Sesc Copacabana a preços populares. Trata-se de uma visão bipolar do conflito Israel-Palestina. O de como gente tão próxima e tão igual foi capaz de se odiar desde que nasce. A atuação do francês Stephane Brodt é digna de prêmios em penca. Já a atriz Fabianna de Mello e Souza interpreta duas mães, uma judia e outra palestina. Mas poderia interpretar, com a mesma maestria, uma mãe cruzeirense e outra atleticana, uma mãe gremista e outra colorada, uma mãe alvinegra e outra rubro-negra, uma mãe palmeirense e outra são-paulina....
Como disse Pedro Bassan na matéria sobre o jogo Coréia do Norte x Coréia do Sul pelas Eliminatórias, encerrando com brilhantismo o Esporte Espetacular, “
o dia em que este jogo não existir, o mundo será um pouquinho melhor”.