Carta aberta ao Senhor Lédio CarmonaComo vai, Dom? Para os recém-chegados, Dom era apelido antigo do dono do Jogo Aberto, dado por outra lenda do jornalismo esportivo, Antonio Roberto Arruda, ainda hoje militante, ainda hoje lembrando a honra que era ser citado por Nelson Rodrigues, o maior de todos, como o “homem fatal de Bicas”. Bicas é uma pequena cidade mineira. Aliás, quando lembro de Nelson lembro de um gaiato, pensemos assim, um grande gaiato que comentou, anonimamente claro, que “esse Nelson Rodrigues é um bundão”.
Talvez tenha sido a maior das pontadas que meu jurássico coração recebeu em quase dois anos de blog. Já me xingaram de tudo, já me rotularam torcedor dos oito times do famoso e maligno eixo Rio-São Paulo, já foram levianos, já foram corretos, mas chamar o maior dos maiores de bundão é chutar de vez o pau da barraca e assumir que a vida nada mais é do que o clã das adagas voadoras. Tirem o coração da frente, porque lá vem uma te magoar covardemente.
E o Lédio? Bão, o Lédio de vez em quando é tema dos comentaristas do Garamblog. Gente que não gosta do blog, gente que gosta, gente magoada, gente ressentida. Sem problemas, já que a RESISTÊNCIA JURÁSSICA continua insistindo nesta mania de não censurar comentário algum, acreditando, nostalgicamente, numa auto-regulamentação anárquica capaz de pôr ordem na casa sem moderação. Até hoje não aconteceu, mas a cada dia os parágrafos aumentam e os acéfalos diminuem.
O Lédio é amigo velho. Não de faculdade. Ele era de uma e eu era de outra, na outra extremidade da Ponte. Trombamos pela primeira vez no Jornal do Brasil, quando o JB ainda era na Avenida Brasil e nem sonhava ser tablóide, como hoje é, tendo o suplemento esportivo liderado pelo peso-pesado Ricardo Gonzalez, outro desta safra de meninos recém-saídos da faculdade e querendo arejar a crônica de então, enxertando referências de outras editorias nos textos.
Sempre me sinto em falta com Lédio. Há muito não nos vemos. Aprendi muito com Lédio e sua sapiência. Invejo a capacidade brilhante que ele tem de saber como anda o futebol daqui e de lá de cima, nas europas. Não só sabe, como destila conhecimento tático e histórico. Lédio é um modelo, devia ser disciplina em faculdade de Jornalismo. Lédio I e Lédio II. Relapso e esclerosado que sou, desta vez, estou devendo uma centena de parabéns e outra centena de lamentos para meu camarada niteroiense. Lédio querido, parabéns. Betão é 10! Lédio querido, que droga. Foi-se o mais amado.
Como ultimamente o Garamblog e a
RESISTÊNCIA JURÁSSICA têm batido na tecla da intolerância, da estupidez binária do mundo, vejo um exemplo doméstico de rivalidade inexistente. Não há um blog melhor que o outro, um Lédio melhor que o Garambone. Eles são
DIFERENTES. Como São Paulo é DIFERENTE do Rio. Como o Globo Esporte é DIFERENTE do Esporte Espetacular. Como o Cruzeiro é
DIFERENTE do Atlético.
Filhos que somos de um ideal libertário derrotado pela maximização do lucro, por que alimentar este viés tão bobo e distorcido do capitalismo? Por que entrar na onda da publicidade preconceituosa, que estampa na TV um ser com cara de Zé Mane só porque o celular não é do último tipo.
Nada é melhor que nada. Apenas diferente. Descobri isso há pouco. E a vida melhorou muito. Quando moleque, era torcedor fanático, até que um dia me vi, no alambrado, tresloucado e transtornado, xingando a mãe do ponta-esquerda do meu time. Por quê? Porque ele errou um cruzamento? Naquele momento, vi o quão ridículo é torcer apenas com a paixão.
Anos depois, já jornalista e fisgado pelas páginas esportivas, aprendi a gostar dos outros times também. Continuo amando o meu. Quero que minha descendência tenha as mesmas cores do meu coração. Mas o futebol ficou muito mais legal quando passei a estudar, pesquisar, ir aos jogos, dos outros grandões do Brasil. Não à toa, até hoje, passeando em dias de folga, no Engenhão, Morumbi, Maracanã, Palestra, Pacaembu, Aflitos, Mineirão e tantos outros estádios por aí, vira-e-mexe, quando eventualmente alguém me reconhece como jornalista esportivo, sou cumprimentado e saudado: Pô, Garambone, não sabia que você torcia pro meu time.
Torço por todos. E o meu? O meu não é melhor. É apenas
DIFERENTE.Beijão, Lédio!Esta última frase é para os acéfalos poderem me xingar e destilar preconceito leviano.... he he he.
O CRÉU DE ESTRELAS E O CHÃO DE ESTRELAS
Obra da chilena Bruna Truffa, em cartaz no MAC, no terceiro andar do pavilhão da Bienal, Ibirapuera, SPA RESISTÊNCIA JURÁSSICA chuta para escanteio a demagogia e a falsa noção de democracia! Abaixo o Créu! Não precisa ser pela força da Justiça. Mas a sociedade civil esclarecida e de bom gosto precisa se manifestar. A comemoração e a música são toscas, rasas e sem o menor pingo de inteligência. Músicas de duplo sentido costumam ser divertidas e criativas. A do Créu é de uma obviedade e apelo que
ofendem a inteligência das classes A, B, C, D e E.
O Créu não é a voz do morro. Não é o ritmo popular. Não nasceu do nada. Nem da realidade diária do compositor. O Créu é a versão musical do axioma
O MUNDO ACABOU HÁ ALGUM TEMPO E POUCA GENTE PERCEBEU.E para não dizer que o Garamblog não falou de flores. Eis aqui uma das letras mais lindas da música brasileira. Será que éramos mais inteligentes há alguns anos? Ou a preguiça intelectual plantou-se de vez no cérebro de certos modernos que, na verdade, são os maiores baluartes do retrocesso cultural que insiste em fincar postes no novo século. Obrigado a Jair Rodrigues, em cartaz em Sampa, que me fez lembrar desssa poesia num show perdido ontem à noite na Avenida São João, esquina com Ipiranga.
Minha vida era um palco iluminado
eu vivia vestido de dourado
palhaço das perdidas ilusões
cheio dos guizos falsos da alegria
andei cantando a minha fantasia
entre as palmas febris dos corações
meu barracão no morro do salgueiro
tinha o cantar alegre de um viveiro
foste a sonoridade que acabou
e hoje, quando do sol, a claridade
forra o meu barracão, sinto saudade
da mulher pomba-rola que voou
nossas roupas comuns dependuradas
na janela qual bandeiras agitadas
pareciam um estranho festival
festa dos nossos trapos coloridos
a mostrar que nos morros mal vestidos
é sempre feriado nacional
a porta do barraco era sem trinco
mas a lua furando nosso zinco
salpicava de estrelas nosso chão
tu pisavas nos astros distraída
sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violãoA letra é de Silvio Caldas e Orestes Barbosa
QUEM QUER PEGAR LOGO O GUARATINGUETÁ?
Neste sábado, no Vale do Paraíba, os roupeiros André e Lúcio vão separar com carinho o uniforme do Guaratinguetá para o jogo de domingo contra o Ituano. Se ganhar em Itu, a surpresa do Paulistão termina a fase inicial em primeiro, se perder, pode até acabar em terceiro. Não importa. Michael, Alessandro, Caiuby, Dinei, Jackson e cia já fizeram história em 2008. Treinada pelo gaúcho Guilherme Macuglia, a moçada de vermelho surpreendeu a todos, mesmo já tendo sido a campeã do interior no ano passado.
E fica no ar a questão!É melhor pegar o Guaratinguetá na semifinal ou na final? Palmeirenses já andam se fazendo esta pergunta. Será que o Guará, numa final, sente a pressão e a possibilidade do título e amarela? Ou o exemplo recente de São Caetano e mais atrás de Bragantino e Inter de Limeira mostra que é possível times do interior ou de menor expressão ganharem o Campeonato Paulista?
Para muitos, o São Paulo já está dentro e a última vaga fica entre Ponte e Corinthians, já que o Barueri ora por um milagre. É e não é bem assim. O Juventus que o tricolor encara no Morumbi é um Juventus fragilizado, que no meio da semana foi eliminado da Copa do Brasil, pelo Náutico no Recife, mesmo tendo vencido o jogo de ida por 2 a 0. Só que o Moleque Travesso está na boca do rebaixamento e se os jogadores tiverem um cadinho de amor pelo time da Mooca, não vão faltar correria e empenho no Morumbi atrás de uma vitória improvável.
Digamos, pois, que o São Paulo passe. É muito melhor pegar o Guará na final. Vale lembrar que o mando de campo das semifinais e finais é da Federação. E que se não houver uma reviravolta política, todos os jogos serão no Morumbi. O que daria ao campeão brasileiro uma vantagem gigantesca num hipotético mata-mata derradeiro com o pequeno notável, já que no primeiro jogo do Paulistão, no Estádio
Dario Leite, o Guaratinguentá não conseguiu se impor e perdeu para os homens de Muricy.
Restam Ponte, Corinthians e Barueri. Sem medo ou temor de ser preconceituoso, Ponte ou Barueri, quem passar, precisa torcer muito para o Guará ir para a decisão. No caso do time de Campinas, a maioria do estádio seria alvinegra. E no do Barueri, provavelmente o estádio não encheria nos dois jogos, o que equilibraria tecnicamente o confronto.
Já o Corinthians....Certamente seria muito melhor para a turma do Parque São Jorge encarar um Guaratinguetá na final, pois seria muito mais difícil para o time-sensação segurar os nervos em duas partidas com as arquibancadas praticamente tomadas por corintianos ensandecidos por um título importantíssimo e de gigantesco valor psicológico.
Agora, o que pouquíssima gente sabe é que por trás de toda a confiança do
Guaratinguetá Futebol Ltda, por baixo de todo o discurso de clube-empresa e de projetos ambiciosos, existe uma certa superstição cromática que pode servir de trunfo para o adversário. Os roupeiros André e Lúcio, que abrilhantaram o primeiro parágrafo da coluna, assumem que a camisa branca não é muito bem-vinda pela diretoria e pelos jogadores. E que a vermelha, combinada com short e meia, é uma aliada fortíssima no estilo de jogo aguerrido, clássico, elegante e cheio de toque de bola do Guaratinguetá. Dez anos de idade e doidinho para aprontar.
E neste caso, o chavão futebolístico de que “time que quer ser campeão não escolhe adversário” vai pro brejo. Escolhe sim senhor. Ou alguém tem dúvida que, por mais que pareça contraditório, é melhor para o São Paulo pegar logo um Palmeiras nas semifinais? É um período de folga da Libertadores e, para Muricy, quanto maior a pedreira maior a necessidade de treinos.
OFEREÇA O OMBRO A UM AMERICANO
Nem a Resistência Jurássica, que tem em seus quadros imaginários o americano José Trajano, foi capaz de evitar a queda do América.
Não interessa a incompetência dentro de campo. Nem a fragilidade profissional fora de campo. O lamento é todo do torcedor. Nenhum jogador do América protagonista da ridícula campanha de 15 jogos e duas vitórias no Campeonato Carioca vai ser marcado pelo vergonhoso rebaixamento. Já já estarão alugados para outra equipe. O pranto é passageiro e só dura até semana que vem, até o próximo contrato.

A lamúria é toda do torcedor. A Portuguesa ressuscitou, o Náutico ressuscitou, mas o mais original dos Américas, o centenário Ameriquinha, prestes a completar 104 anos de idade, foi-se ladeira abaixo. A queda para a série B do Estadual representa a ausência na série C, na Copa do Brasil e a presença, pelo menos por um dia, nas manchetes dos jornais do Rio.

Time antigo e tradicional, quinta força da Maravilhosa Cidade, o América sempre será grande. O problema vai ser convencer as gerações vindouras de que isso é verdade. Talvez lembrando o nome de alguns célebres torcedores:
Lamartine Babo
Tim Maia
Francisco Alves
Dedé Santana
Arnaldo Niskier
Vicente Celestino
Virginia Lane
Cláudio Uchoa
Marques Rebelo
Silvio Caldas
João Cabral de Mello Neto
Luciana Sargentelli
Max Nunes
José Trajano
Ari Fontoura
Dona Ivone Lara
Oscarito
Gilberto BragaOu de craques que já vestiram a camisa rubra:
Heleno de Freitas
Zizinho
Edu
Jorginho
Luisinho
Pompéia
Danilo Alvim
Bráulio
Zagallo
Moreno
Alex
Djalma DiasTalvez não seja o momento de citar tanta gente boa. Apenas oferecer o ombro aos americanos. Eles já foram muitos. Merecem nosso respeito. Se bem que isso eles sempre tiveram. Pelo menos o nosso.
A TOCHA DO MUNDO É NOSSA
A Resistência Jurássica é um movimento brotado no Garamblog e que tem recebido adesões nos comentários e e-mails particulares. Apesar do nome, não pretende ser um libelo de gente com mentalidade velha e chata. O jurássico é uma homenagem ao termo “dinossauros do jornalismo” cunhado por
Fernando Calazans, colunista do jornal O Globo. A Resistência Jurássica pretende, com pretensão e empáfia das boas, resgatar um tempo onde alguns assuntos eram pensados com mais calma, refletidos e, mais importante de tudo, tendo sempre várias opiniões.
Segunda-feira agora a Associação Brasileira de Imprensa completou 100 anos. Numa bonita festa no Teatro Municipal, no Rio de Janeiro, alguns jornalista da Velha Guarda saudaram o passado da entidade, que sempre foi apartidária e teve a liberdade de expressão como maior libelo.
Não é fácil defender a liberdade. Por ela morre-se. Por ela sofre-se. Por ela chegamos a pensar em não mais defendê-la. As ofensas e grosserias nos comentários do Garamblog são exemplo. Mas a auto-regulamentação e a anarquia do bem emergem sempre e no final das contas temos debates bacanas e condenações aos acéfalos de companheiros de luta cognitiva.
Feito o nariz de cera, vamos falar da tocha olímpica? Existem dois pequenos equívocos na transformação da tocha em
isqueiro de revoluções e manifestações. Quando alguns membros do COI e de outras entidades tentam dissociar Esporte de Política correm o risco de tapar o fogo olímpico com a peneira. Se futebol é cultura, como cansamos de apregoar, esporte é política e sempre será. Torcer é um ato político pois denota escolha. Milhares reunidos num evento, seja ele um show ou um jogo, é um ato potencialmente político. Não necessariamente partidário, porém político. Quando em 1984, as torcidas de Vasco e Fluminense, numa final de Brasileiro, cantaram juntas
“DIRETAS JÁ!”, quando Sócrates e Casagrande (
Levanta, Casão!!) lideraram a democracia corintiana, quando atletas negros defenderam a causa no pódio, enfim, a tese já está clara. Esporte é Política.
E o outro equívoco é a famosa fórmula causa-consequência. Talvez inspirados na tese ultrapassada de Fukuyama de que a história acabou, os que aprovaram a candidatura chinesa às olimpíadas, lá atrás, relevaram a capacidade da humanidade de não ter um pensamento único e de não ser homogênea em suas manifestações. Acharam que ninguém iria questionar certas práticas chinesas. Ledo engano. Não foi só o recém conflito no Tibet, este foi apenas o estopim, o responsável pelas interferências populares no caminho da tocha. Foi a história recente da China, que mistura vitórias sociais e econômicas com estranhas práticas de censura e autoritarismo. Problemas com a tocha eram previsíveis.
E saudáveis. Que bom que esteja acontecendo isso com um símbolo considerado intocável. Nos faz refletir e ter esperança de que a própria China reflita. Somos todos habitantes de um mesmo planeta onde, a cada dia, o simples ato de comprar um picolé passa a ser um ato político. Até porque periga ele derreter rapidinho por causa do aquecimento global.