Três derrotas diferentes
A gremista – Derrota acumulativa e surpreendente. Ou as fórmulas da Copa do Brasil e do Gaúchão são terrivelmente injustas, ou o rei do mata-mata sofreu um revés inacreditável, ou a velha tese de que o começo de ano pode ser enganador para vários times por causa dos estaduais. O fato é que nada justifica a revolta violenta da torcida do Grêmio. Se há duas semanas, o tricolor era notícia nacional pela invencibilidade, de uma hora para a outra vira o vilão da história? Paixão também é compreensão. Cabe agora à diretoria se virar até 11 de maio, quando entra em campo no Morumbi contra o São Paulo, pela primeira rodada do Brasileirão. Amistosos e boas conversas com o grupo, porque um ano que mal começou já não pode ser um ano perdido.
A santista – Ressuscitou o Chivas Guadalajara, mas não com a força bíblica de um Lázaro. Ainda depende completamente de si. E os dois gols marcados no México amaciaram um pouco a dor da derrota que, cá entre nós, já era esperada por torcida e comissão técnica. Claro que ninguém foi lá para perder, mas o desenho do grupo mostrava que a classificação viria, tomara, dentro da Vila Belmiro. Cabe a torcida esquecer a perda do tricampeonato paulista, talvez lembrando que o Corinthians também não está participando das semifinais, e lotar como nos velhos tempos o estádio. Apoiando a molecada contra um Cúcuta já classificado. Ou seja, a derrota no Jalisco pode ser vista como mais um aprendizado.
A tricolor – O Fluminense tem todas as desculpas para explicar o fiasco na Argentina. Jogou sem atacantes, os reservas do Arsenal estavam animados e violentos, o time estava pensando mais na semifinal da Taça Rio contra o Vasco do que em acumular pontos visando à uma vantagem importante na outra fase. O problema é saber se o elenco engoliu bem a derrota, se contra a LDU Thiago Neves, que deu uma de aspira e foi expulso num jogo que não valia nada, vai fazer falta, e se uma eventual derrota sábado para o Vasco não vai criar um efeito cascata, meio gremista, de que tudo agora vai começar a dar errado. Já uma vitória na Taça Rio apaga completamente o apagão do time na Argentina. Mas que não foi bom perder lá desta forma.... não foi não. Sensação e Decepção não são duas palavras que apenas rimam.
E vocês? Qual derrota causou mais impacto no trio acima?E para não esquecer o
Flamengo... Que calada de boca magistral de Toró & Joel nos arautos do apocalipse rubro-negro. E o tão famoso jogo decisivo contra o Bolognesi, no Maracanã, virou um desafio em busca de mais gols e pontos na Libertadores. Que os apressadinhos não percam mais seu tempo e torçam para mais uma classificação são-paulina agora. Cinco brasileiros na segunda fase é sensacional. Quase 30% do total.
MAIS UMA CHANCE HISTÓRICA


Com a tardia e questionável decisão da Federação em escalar o Palestra Itália para o segundo Palmeiras x São Paulo, emerge das cinzas mais uma oportunidade para as torcidas convencerem o resto da população brasileira de que o ser humano não é inviável. O argumento da Polícia chega a ser assustador. Dando garantias ao jogo como se a rua Turiassu fosse uma alameda perigosíssima da Faixa de Gaza. Será que somos tão monstruosos assim? Será que palmeirenses e são-paulinos não podem dividir a mesma padoca? Será que uma mãe que tenha um filho verde e outro tricolor não pode ficar em casa durante o jogo sem tomar tranqüilizantes?
A chance é histórica. Aliás, as chances, afinal são dois jogos. Já que o interesse equivocado dos clubes e a confusão filosófica dos cartolas vão proporcionar o estapafúrdio espetáculo de uma minoria palmeirense no Morumbi e uma minoria são-paulina no Palestra, a hora é de inverter os papéis. Que as duas torcidas mostrem civismo e civilidade. Que ninguém aceite ou faça provocações rasteiras. Que ambas se preocupem em traduzir a paixão que sentem no cântico mais criativo, na bandeira mais bonita, no grito inesquecível na hora do gol.
Na primeira partida, que seria espetacular com o Morumbi lotado dividido ao meio, fotógrafos de jornal se deliciariam com flagrantes de torcedores confraternizando nas barracas, um oferencendo-se para pagar o lanche de pernil do adversário. Na segunda partida, Perdizes e ruas adjacentes seriam invadidas por gente animada e divertida, jamais violenta, e o bairro, ainda atordoado com a inauguração de um shopping chique, sonharia com dias melhores e mais pacíficos.
Enquanto isso, Campinas e Guaratinguetá prometem um show de animação. A torcida da Ponte Preta, tradicionalmente, lota o Moisés Lucarelli em jogos importantes e decisivos. E vai fazer uma festa lindíssima, qualquer que seja o estádio designado pela federação, se passar para a final. Só que fica no ar a pergunta: depois que o Palmeiras conseguiu enfiar o Palestra nas semis, será que os cartolas de Ponte e Guará terão força política e lobby na Polícia para conseguir fazer um jogo que seja em suas casas? Acho justo.
Voltando ao embate do interior, ao contrário de outras cidades que nutrem simpatia pelo time da casa, mas torcem mesmo é por Corinthians, Santos, São Paulo e Palmeiras, o povo de Guaratinguetá está se apaixonando pelo time rubro e pela possibilidade de substituir São Caetano do Sul como quinta força do Estado. Para quem duvida, uma boa amostra foi o e-mail mandado pelo leitor Willian Lima:
“Sou torcedor do Corinthians e minha cidade natal é Guaratinguetá. Estou escrevendo para mostrar minha sensação nessa divisão do meu coração. A cidade de Guaratinguetá ficou muitos anos sem representação futebolística a nível estadual. Consequentemente torcidas de vários times paulistas se encontram lá. De quatro anos para cá o time vem se mostrando aguerrido e determinado. E isso vem deixando a cidade orgulhosa, relembrando os grandes jogos do histórico Esportiva do interior, que disputou entre 1961 até 1964 a elite do Futebol Paulista, tendo vencido o Santos de Pelé por 3 X 0 e Corinthians pelo mesmo placar. Saudoso Lobo do Vale.”
Saudoso Lobo do Vale. Bem-vindo Lobo-Guará. E que o clube seja mais clube que empresa. E dispute a série C do Brasileirão.
ALTITUDE, ATITUDE E UM TERCEIRO CONTINENTE À SUA ESCOLHA...
Rafael Pirrho é jornalista e companheiro diário de labuta na redação. Foi a Cuzco com o time do Flamengo para produzir uma reportagem exibida domingo no Esporte Espetacular. A pauta: efeitos da altitude e bastidores de uma conquista bacana do rubro-negro da Gávea. Os brasileiros fizeram 3 x 0 nos peruanos. E Rafael escreveu, a pedido do Garamblog, o seu relato xamânico.
Você desembarca em Cuzco, caminha uns cem metros para pegar as malas e seus companheiros de viagem já perguntam:
“E aí, está sentindo alguma coisa?”
No hotel te ofereceram chá de coca, spray com oxigênio e você até começa a se sentir mal por não estar sentindo absolutamente nada. Ignorar a altitude parece uma descortesia diante de anfitriões tão atenciosos.
A verdade é que a altitude tem lá seu lado psicológico, como me disse um torcedor do Cienciano. Os efeitos parecem aumentar de tanto se falar nela. Por isso, talvez, os jogadores do Flamengo tenham preferido evitar o assunto no Peru. Essa é mesmo uma boa forma de tentar minimizar o problema.
Mas se você caminhar uns 500 metros, já percebe que o ar demora a voltar. O coração bate mais rápido, a cabeça começa a doer, a recuperação é mais lenta. Claro, cada um reage de um jeito, mas correr 10 quilômetros em uma hora e meia, como alguns jogadores fazem durante uma partida, parece desumano para qualquer corpo acima de três mil metros de altura.
Quem viu o jogo contra o Cienciano se impressionou com a resistência dos jogadores do Flamengo, especialmente no segundo tempo. Houve até quem sugerisse que a altitude, na verdade, é só uma desculpa para más atuações. Não é.
Durante a partida, os rubro-negros foram várias vezes ao banco de reservas inalar oxigênio enlatado. No intervalo da partida, correram para os cilindros de oxigênio dentro do vestiário. À noite, Renato Augusto sentiu fortes dores de cabeça. Tudo isso, definitivamente, não combina com o esporte.
Portanto, se o Flamengo resistiu bem à altitude, é mérito dos jogadores e, principalmente, da comissão técnica. Mas que ela existe, existe. E ainda que às vezes conte com um belo trabalho de marketing a seu favor, é mesmo de tirar o fôlego.
Rafael Pirrho
V A Z I OMaracanã, sábado, semifinal eletrizante, cheia de ingredientes, Leandro Amaral, Renato Gaúcho, Eurico, Edmundo... Deu praia de manhã, deu para almoçar com a família, deu para combinar com a patroa de pegar a última sessão do cineminha, mas eis que surge o público no placar eletrônico: 46 mil e pouco.
V A Z I OMorumbi, domingo, primeira semifinal entre São Paulo e Palmeiras. Semana cheia de elementos atraentes. Valdívia conseguirá o terceiro amarelo de um monte de são-paulinos, Adriano mais uma vez será decisivo, Luxa dobra Muricy, Muricy dobra Luxa? Federação decide tarde onde serão os jogos. E sai o número de pagantes: 37 mil e pouco.
V A Z I OMaracanã, domingo, quatro da tarde, deu praia de novo, rubro-negros e alvinegros brincando com tricolores e vascaínos que jogo para valer mesmo, para lotar, é no domingo! Vingança botafoguense? Outra vitória flamenguista? Castilho x Souza. Toró x Túlio. Ronaldo Fenômeno vai lá torcer para o Flamengo. Quando de repente, entre bandeiras e foguetes luminosos, aparece, tímido, a quantidade de gente: 43 mil e pouco.
V A Z I OMineirão, sábado, Cruzeiro embalado na Libertadores, passeando no Estadual, primeira semifinal, os ídolos Marcelo Moreno, Ramires e Wagner em campo. Uma vitória esmagadora já praticamente garante o time na final, quem sabe contra o velho rival Galo. Vendo pela TV, estranha-se a quantidade de buracos nas arquibancadas do estádio, será que todos foram comprar cerveja? Não, 17 mil e pouco foram ver a partida.
É pouco.
O Garamblog matutou explicações, já que esperava arenas lotadas, de verdade, e não como força de expressão, no primeiro fim-de-semana cheio de mini-decisões regionais. Ainda não é o fim do mês. Será que havia quatro times de Libertadores, então a torcida está sem dinheiro? Ou o Estadual como aperitivo do Brasileiro não está sendo capaz de seduzir? Ou hoje em dia, quando a fonte de informação parcial de um jogo, quando não estamos no estádio, não é mais apenas o radinho do porteiro, e sim TV a paga, Internet e celular, pensa-se duas vezes antes de se ir a um jogo? Ou por causa da Federação Paulista e suas teorias de mando de campo, mais de 15 mil palmeirenses comeram macarrão e viram o jogo de casa mesmo?
A discussão está aberta, nobres tertulianos. E quem sabe vocês me convençam que estes números estão bom demais da conta. Mas nos casos cariocas e paulista, sinceramente, é público de time grande contra pequeno e não de clássicos inesquecíveis. Como foram, inclusive.
V A Z I O
A perfeição são-paulinaNão existe. A perfeição são-paulina não existe. Como uma foto linda de paisagem nunca é perfeita. Como o corpo da mulher ideal. Não existe. E dá um alívio danado ter a certeza disso.
A perfeição são-paulina era louvada pela própria torcida do tricolor, orgulhosa com tantos sucessos, pela crônica esportiva que, ao cobrir todos os clubes, derramava-se em compreensíveis elogios ao time do Morumbi, pelos torcedores adversários frustrados, que sonhavam ver no próprio umbigo este planejamento e esta mania de acertar todas as bolas da vez nos últimos anos.
Só alguns, mais bravos, e também um pouco cegos pela paixão, teimavam em dizer que era muita azeitona na empada do São Paulo.
Eis que num pequeno hiato de dias um jogador taca a mão em outro, gente contratada não joga nada, artilheiro importado dá cabeçada em zagueiro santista, em campo assume-se a inferioridade e joga-se na retranca em busca de três pontos, por pouco o time fica fora do G4 e, na Libertadores, faltando uma rodada, a classificação ainda não foi atingida, ao contrário de Flu, Fla e Cruzeiro.
Que bom.Não que o Garamblog esteja torcendo contra o São Paulo, mas é muito bom ver nossas verdades demolidas, caindo tijolo a tijolo. Não à toa Nelson Rodrigues disse que “toda unanimidade é burra”, não à toa o filósofo e economista Schumpeter cunhou a excelente frase “tudo que é muito evidente é traiçoeiro.
O São Paulo também pode entrar em crise.
Logo, todos nós podemos!
Podemos rever nossas gavetas e rearrumá-las.
Podemos rever nossas agendas e ligar para amigos do século passado.
Podemos rever nossas estantes e reler certos livros.
Podemos rever nossos pais e novamente abraçá-los.
Podemos rever nossos votos.
Rever nossas vidas.
Nossos amores.
E nossos ódios.O São Paulo está revendo sua história recente. O São Paulo está com medo do Palmeiras no próximo jogo, mesmo tendo a vantagem do empate. A exuberância técnica, a disparada na liderança em vários torneios, as contratações certeiras deram lugar a uma palavrinha presente no conto “A Menina e o Porco”. Quem é pai se lembra o que a simpática aranha teceu no estábulo antes de morrer. “Humilde”.
A perfeição não existe. O time de 70 não era perfeito. O Flamengo de Zico. A McLaren de Senna. A Lotus de Emerson. A Ferrari de Schumacher. O time de Bernardinho. A esquerda de Guga. O reflexo de Narciso não era perfeito.
O São Paulo não é um time extraterrestre e nem a direção do clube é composta por seres notáveis, acima de qualquer questionamento.
Perfeição mesmo, só o título de uma das mais belas músicas do
Legião:
Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade.
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e seqüestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã.
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
(A lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão.
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso - com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção.
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão.
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera -
Nosso futuro recomeça:
Venha, que o que vem é perfeiçãoE o resto são lágrimas.