REQUERIMENTO
Ilmo Sr. Presidente da Conmebol, Nicolas LeozViemos por meio desta rogar por um adendo no regulamento da Copa Libertadores da América. Mesmo discordando do item que prevê mecanismos para evitar uma final entre times do mesmo país, achamos que um outro item pode ser adicionado a este quesito. Já que desde 1963, na final contra o Santos, o ilustríssimo clube Boca Juniors não perde para times brasileiros em mata-matas, solicitamos que seja proibido, para sempre, confrontos deste tipo. Perdeu a graça. Neste caminho tortuoso e sofrido do futebol pentacampeão do mundo, sofreram Flamengo, Corinthians, Paysandu, Palmeiras, Vasco... e tantos outros, que agora têm a companhia do Cruzeiro, somando-se assim 11 disputas “mano a mano” vencidas pelo popular time azul-amarelo de Buenos Aires. Longe de pedirmos a mesma coisa para River Plate, Estudiantes, San Lorenzo, Independiente ou qualquer outra agremiação argentina. O problema em questão, senhor presidente, é o Boca.
Atenciosamente,
Um montão de torcedores brasileiros.
Sobre a dor e a paixão
Numa, das inúmeras passagens inesquecíveis do livro
“Crime e Castigo”, de Dostoievski, a personagem Sonja chora e o protagonista Raskolnikov tenta acudi-la. E a narração do russo explica que, naquele momento, Sonja sentia a dor do mundo.
No plano terrestre, aqui no Garamblog, a discussão da paixão é recorrente. Em nome dela, comentaristas agridem-se gratuitamente, o autor do blog sofre ofensas inacreditáveis e levianas, e mesmo assim há quem diga que o futebol é movido a paixão. E tudo se justifica.
Discordo. Paixão rima com civilização. E não com desrespeito ao próximo. Mas cada um pensa como quer. O problema é quando pensamentos agressivos saem da mente para o teclado. E, na maioria das vezes, de forma anônima.
Mas o pequeno introito é para falar não da dor do mundo, mas da dor de quarta.
A tendência natural dos adversários é dar gargalhada, mandar e-mails e usufruir do prazer de ver Cruzeiro e Flamengo aos frangalhos.
Entretanto, imaginar a dor de 65 mil + 50 mil apaixonados que foram ao Mineirão e ao Maracanã causa reflexão. A dor profunda da surpresa, do atônito, da incredulidade. A noite mal-dormida, a decepção, os planos indo para o brejo de forma avassaladora e incontestável. Em Minas, ainda se imaginava que o Boca, sempre ele, pudesse aprontar. No Rio, nenhuma pedra portuguesa da cidade podia supor, imaginar, que os mexicanos fossem capazes de destronar o favoritismo rubro-negro. Não adianta culpar Kleber, Joel, quem quer que seja. No máximo dizer que foi coisa do demo, porque quem conhece futebol sabe muito bem que foi a curva fora da linha, o sobrenatural de Almeida, o mistério inexplicável do inusitado os grandes responsáveis por um resultado que ninguém esperava.
Foi como disse o intelectual Hélio Muniz, ainda atônito, vagando em busca de uma explicação cartesiana para o Mariachiazo de quarta-feira: “acho que estou numa dobra do tempo, em algum momento despertarei na quarta-feira e o jogo ainda não terá sido realizado e, assim, terei a certeza de que na verdade o Flamengo empatará, ganhará e seguirá adiante na Libertadores”.
Chafurdando arquivos antigos que destrincham o futebol, encontrei este parágrafo maravilhoso, cunhado por Terry Eagleton, professor de Teoria Cultural, da Universidade de Manchester, e pinçado do excelente caderno Aliás, do Estadão:
“É verdade que existe uma forma específica de cultura que possui significado político extraordinário. Trata-se do esporte e, em particular, o futebol. Basta pensar em como seria transformada a paisagem social e política britânica se não mais existisse o futebol para fornecer às pessoas a tradição, o ritual, o espetáculo dramático, o senso de existência corporativa, a hierarquia, a lealdade, a agressividade selvagem, o combate gladiatório, o espírito de rivalidade, o panteão de heróis e a apreciação de habilidades estéticas que fazem falta tão grande ao cotidiano capitalista.”