O ÚLTIMO MINUTO
Ele se chama Flávio Henrique, e não Fernando Henrique. É como eu, você ou nossos amigos mais próximos. Um apaixonado pelos mistérios do futebol. Atravessou a madrugada aos goles e prantos. Feliz e sentindo-se recompensado pela coragem, pela fé em acreditar no irracional, no inimigo de Descartes.
Flávio tinha 12 anos quando o pai o levou ao Maracanã. Era decisão, era contra o Flamengo, e o time dele não era o favorito. O empate dava o título ao rubro-negro. E talvez querendo evitar a primeira dor d´alma do filho, o pai de Flávio largou o terrível “vamos embora meu filho”! Foram, já nas rampas do estádio ouviram o urro da turba, era Assis entrando para a história. Voltaram correndo e passaram a noite vibrando.
Pouco mais de uma década depois, já sem pai, Flávio estava novamente no Maracanã, novamente numa decisão, novamente contra o Flamengo. O placar resistia amargo para ele. O empate era rubro-negro e o 2 x 2 parecia ser imutável. Lembrou-se do pai, de Assis, do mistério. Resolveu ir embora antes do apito. As mesmas rampas estavam lá. Mas nada aconteceu. Continuou o périplo rumo ao asfalto. De novo o imponderável. Uma barriga entrou para a história. E Flávio voltou correndo para as arquibancadas. Passou a noite vibrando.
Quarta-feira, 21 de maio de 2008. Contra o São Paulo lá estava Flávio, mais uma vez acreditando no time dele, que passou 91 minutos sem a classificação assegurada. Um pouco antes disso ele virou para um velho companheiro de cimento e bradou, confiante: vou embora! Pela terceira vez seu coração traía os próprios olhos. Ouviu impropérios de quem o considerou um covarde. Seguiu indiferente rumo ao anel externo. Comprou uma cerveja, sentou no chão e chorou. Um coroa passou e disse: “Vamos, menino, vamos voltar para lá, ainda dá!”. Flávio recusou, lembrou dos quilos de Nelson Rodrigues que já lera, do Gravatinha, do Sobrenatural de Almeida, do homem fatal de Bicas e acreditou naquelas bobagens que só nós, apaixonados por futebol, acreditamos como a mais pia das verdades.
Enquanto isso, uma explosão demográfica na área de Rogério Ceni. Mesmo assim, Washington honra um nome já conhecido pelos refletores, sobe mais que a gigantesca zaga são-paulina, pára no ar como um beija-flor e beija com a testa o couro amarelo. A rede dança, o pranto explode e do breu do túnel de acesso, surge mais uma vez Flávio, tresloucado, rouco e feliz.
Com a absoluta certeza de que tudo foi culpa sua.
OS VÁRIOS LADOS DE UM CÍRCULO
O último post teve uma aprovação enorme dos comentaristas, fossem eles tricolores ou torcedores de qualquer time. Talvez por ter sido um texto que foi lá dentro das veias buscar a essência do futebol, seja ele de qual cor. Houve quem desconfiasse que o Flávio Henrique era eu. Era não. O rapaz existe e apenas me relatou o que passara. Como dá para notar, ando meio sem tempo para postagens diárias, infelizmente. Porém, andamos tão refém desta rotina louca cibernética que passamos a ser intolerantes com o tempo, nada mais pode durar menos que um dia. Enfim, papos peripatéticos à parte, reproduzo no Garamblog dois textos muito bacanas sobre o tal embate Fluminense x São Paulo na Libertadores. Desta vez, com o olhar são-paulino. No primeiro, uma visão feminina e poética da crença irracional no resultado dos jogos de nossas vidas. No outro, um relato ímpar, digno, de um apaixonado que, apesar da derrota, soube guardar n´alma momentos inesquecíveis vividos no Rio. Perrone nos ensina que lágrimas podem ser diferentes. Gabriela ministra a fé de que a culpa também foi dela. Leiamos juntos. Abraços...
A CULPA ERA DELA"Assim como Flávio, achei que a culpa era minha. Eu vestia uma uma 9, usada pelo Leandro quando ganhamos o Brasileiro. Presente do meu namorado, tricolor das Laranjeiras. Era a estréia dela em uma decisão. Uma camisa dada por um apaixonado pelo Flu. Um Leandro que também já vestiu as cores do time rival. Não podia dar certo. Que raios fui eu fazer no Maracã com aquela camisa? A minha 10, xodó, dos bons tempos de "Raí, Raí, o terror do Morumbi", ficou no armário. Aquela do Ronaldão, do velho e bom Rodaldão, está muito amarelada, mas já me acompanhou em tantas comemorações, já viu tantos títulos, que bem podia ter ido comigo ao estádio, que fosse como amuleto.
Sempre fui acompanhada de amigos e outros torcedores. Assim foi nas finais de libertadores e no Brasileirão do ano passado, quando ganhamos de um Botafogo apontado como favorito e partimos rumo ao penta. Nesta quarta amarga entrei só no metro, passei pela catraca do Mário Filho sem compania. Estava tensa, talvez sentindo falta dos meus mantos campeões e já pressentindo o pior. Encontrei são-paulinos do Rio, de Sampa e de tantos outros lugares. Mas fiz questão de me perder na multidão e ver o jogo simplesmente como torcedora, sem conhecer ninguém ao redor, sem identidade, somente são-paulina.
É, pois é... Deu no que deu. Voltei para casa com amigos e torcedores. Guardei a 9 no armário. Peguei as camisas de Raí e Ronaldão e deitei abraçadas com elas. Dormi com as lágrima, a culpa e a certeza de quem ficará no armário da próxima vez, será o Leandro."
Gabriela ToledoÉPICOS"Olha, eu estou aqui no Maracanã. Acabei de ver o meu Tricolor perder para o outro Tricolor, estou obviamente triste e não quero escrever nada agora.
Só quero registrar que vi um jogo épico, um time que vai ficar pra história por esta simples classificação, contra outro time de altíssimo nível que perdeu pro futebol, pro acaso, pra competencia, pro matador, pro Renato ousado e pra uma torcida que, confesso, me deixou muito impressionado. Não pelo número, mas pela fé.
Eu nunca vou esquecer o que vi aqui. Nem pelo choro que não contive no final do jogo, quando vi alguns dos caras que eu vejo treinar todo dia sentandos no gramado, e quando entrei na cabine para colocar a manchete na Estação Tricolor.
Pior: Eu vi o último gol dentro da torcida do Flu, porque fui fumar.
E o que era pra ser mais dolorido se tornou um anestesico. Eu senti ali dentro a emoção e a alegria deles, e, juro por Deus, me dói dizer isso, mas eles mereciam.
Como torcedor saio daqui frustrado, magoado, arrasado. Não vou dormir, tenho certeza. Pra se ter idéia do quanto doeu pro time, eu to online com o Alex Silva e ele me conta que 80% do time tá acordado, pensando, mudo. Ele me disse a seguinte frase: "Foi o pior dia da minha vida".
Da minha não foi, porque conheci um Maracanã que eu nem sonhava ser tão lindo. Entrei no gramado, vi ídolos… enfim, coisa de apaixonado por futebol.
Mas, caros tricolores…
Parabéns pra alguns, e calma pra outros.
O mundo não acaba por uma derrota. Mas também não gira se continuarem com a tese do "perdemos pra nós mesmos".
Hoje não! Perdemos, mas perdemos pra um Fluminense forte, guerreiro e que mereceu passar de fase.
Ninguém faz 3 gols no São Paulo. E quando faz, merece passar."Ricardo Perrone