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Garambone

Sidney
Garambone

Jornalista

Na imprensa há 20 anos e com passagens por Jornal do Brasil, O Globo, O Dia e Istoé, é atualmente editor-chefe do Esporte Espetacular, debatedor do Arena Sportv e colunista do Diário de São Paulo. Tem mestrado em Relações Internacionais, escreveu três livros
(O Caçador de Barangas, em 2000, A Primeira Guerra Mundial e a Imprensa Brasileira, em 2003, e Eu, Deus, em 2006) e acha que futebol é cultura. globoesporte.com
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O pezão do Flu



Este texto já é quase natimorto. Afinal o jogo aqui em Buenos Aires começa daqui a pouco. Porém, fica a lembrança de uma paulista que pode dar sorte ao Fluminense. Quem tem filhos sabe que a obra-prima Abaporu, de Tarsila do Amaral, comprada a peso de ouro pelo Malba ( Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires), ganha outro nome pela visão infantil. Pezão. Pois é exatamente no Malba que está em cartaz uma exposição das obras de Tarsila durante as inúmeras viagens da pintora. Aliás, a quarta-feira promete um sem-número de pinturas pelos gramados. Três shows de imagens, no Morumbi, em São Januário e na Avellaneda. Dois finalistas da Copa do Brasil saindo fresquinhos do forno e uma vaga noção, se não houver goleada portenha, do que teremos no Maracanã quarta que vem. Então, que os pezões sejam metidos sem dó na bola e, dando aquela pachecada, que o movimento antropofágico inspire o Flu a inverter a lógica biológica e engolir o Boca. Bom jogo a todos.
Escrito em 28/05/2008 |Comentários: »


OS FANTASMAS DE AVELLANEDA E O MEDO




Duas da manhã. Dois graus. Frio. El Cilindro de Avellaneda descansa depois de pisoteado por 50 mil boquenses e dois mil tricolores.

Quem vem lá?

No setor 5.

Duas sombras diluídas na névoa portenha. Dois fantasmas. Ohaco e Artola. O primeiro artilheiro da academia do Racing ( 1913-1919), o segundo até hoje homenageado por ter sido o primeiro presidente do centenário clube azul e branco.

Conversavam.

- O que houve aqui hoje? – perguntava Ohaco, que não teve a honra de jogar no estádio, inaugurado em 1950.

- Querido, nosso estádio foi mais uma vez metáfora da vida. Infelizmente sem o nosso time.

- Talvez seja esta a nossa grandeza. Inspirar.

- Pois, Ohaco, desde às dez da noite, petulantes brasileiros ousaram extirpar um pé do tridente.

- Orgulho, Respeito e Medo ao Boca Juniors.

- E nós conhecemos isso muito bem, não? – lembrou Artola.

- Conte-me mais. Cheguei atrasado.

- Como também se atrasaram os boquenses. Enquanto os atletas brasileiros faziam aquela brincadeira deles...

- Bobinho!

- Isto, divertiam-se com um bobinho no meio de campo, esquecendo-se da turba e da pressão que viria das arquibancadas.

- Saudades – lamentou Ohaco.

- Pois meu querido artilheiro, eis o que se passou. Trajando a mesma camisa que nosso rival Vélez usou por tanto tempo, este tal Fluminense, tão secular quanto nosso amado Racing, veio a nossa casa, orgulhoso, querendo fazer história, sem ser heróico.

- Sim, concordo, só os mais fracos e covardes são capazes de feitos heróicos. Os grandes apenas se impõem.

- Termino, pois, Ohaco, afinal já é tarde e precisamos continuar a descansar. Apesar do frenesi de nossos compatriotas, de um volume de jogo que lembrou nossas arrancadas do início do século passado, este orgulhoso Fluminense respeitou o Boca, deixou o jogo correr, procurou também fazer gols, não deixou a bola ser exclusividade portenha e saiu com um empate digno, sabendo que ainda não há nada ganho.

- Afinal o Boca é o Boca – afirmou o fantasmagórico Ohaco.

- Sim, Ohaco. Mas há muito tempo não encontrava alguém pela frente que simplesmente não tem medo da fama deles. E você sabe tão bem quanto eu, que eles são tinhosos na arte de aterrorizar todos os que tentam desafiá-lo em casa ou fora dela.

- Atlas, Cruzeiro e tantos outros.... Mas e a metáfora da vida, presidente? Onde está?

Artola pigarreou, soltou a fumaça condensada pela boca, como que fumando antigas cigarrilhas floridas, levantou, assustou-se com a temperatura fria do cimento que envolvia as cadeiras da arquibancada. E meio que conversando com as estruturas de metal suspensas, filosofou.

- Ohaco, tanto eu quanto você, pioneiros do futebol na América do Sul, encaramos a vida desta forma. Com respeito e orgulho. Medo jamais. Sem ele, pudemos escrever uma história junto com tantos outros. Pode ser que nosso Racing hoje seja isso, uma coletânea de histórias, uma névoa de lembrança nos mais jovens, uma potente nostalgia nos mais velhos. O ar hoje está pesado. Uma navalha afiada seria capaz de cortá-lo, como escreveria aquele menino colombiano que veio depois de nós. Afinal, 50 mil sofreram com a falha do aspirante Migliore, que teve medo e não segurou a bola do rapazote camisola 10 do Fluminense. O medo, Ohaco, existe dentro de todos nós. Talvez sem ele, não tenhamos a coragem de ter respeito e orgulho pelo que vem pela frente. Porém, ignorá-lo é a melhor das alquimias. Agora é hora do Boca não ter medo no Maracanã. E do Fluminense redobrar seu respeito e orgulho. Nos resta ir a Ezeiza reservar duas passagens para o Rio de Janeiro.

- Ora, Artola, e nós precisamos de avião para chegar ao Rio? – indagou um fantasma ao outro.

- Esqueci. Ou talvez seja medo de lembrar do que já mais não sou.

O último refletor apagou, o último funcionário da televisão argentina desplugou o último cabo. E Artola e Ohaco desceram as escadas, deixando atrás de si lembranças recentes e distantes do futebol.
Escrito em 29/05/2008 |Comentários: »

O PATINHO FEIO DO MORUMBI




Palestrino sorumbático me encontra nas ladeiras das Perdizes, tradicional bairro paulistano. Torceu muito para o Botafogo. Não concebe que um mês depois da conquista do Paulistão, esteja com uma ressaca às avessas, orando desesperadamente para o Corinthians não vencer a Copa do Brasil e conseguir o que ele, palmeirense, mais queria. A Libertadores.
_ Eles são igual erva-daninha! Se não matar na hora certa, cresce e domina tudo!
Birra de torcedor. Mas que representa bem o momento corintiano. Desde o primeiro jogo, não se disse tulipa ou gerânio, assumiu-se como grama ordinária e simples. Mano Menezes foi o porta-voz desta nova mentalidade, onde a arrogância é proibida e a humildade é senhora. Bradou para a torcida e para a imprensa que a meta era o acesso à Primeira Divisão. Paulistão e Copa do Brasil eram competições à parte, que seriam levadas a sério, mas jamais com favoritismo.
Vieram um jogo, outro e mais outro. Até o derradeiro caminho rumo à final do torneio. Pela frente, o forte e talentoso Botafogo. Foi quando Mano, pela primeira vez, disse:
_ Não tem favorito. Cinqüenta por cento de chance para cada um.
Deu Corinthians.
E ainda no torpor da euforia, da avalanche de suor descendo pelo rosto, não houve um jogador corintiano que tenha dado entrevista dizendo que, na final, contra o Sport, o bicho-papão seria o time paulista, que tem em suas estantes dois troféus da Copa do Brasil.
_ O favorito é o Sport – diz jogador sicrano.
_ O favorito é o Sport – diz jogador fulano.
_ O favorito é o Sport – diz jogador beltrano.
Não à toa a torcida tem apoiado tanto este time. É um time especial. Não é forte. Não é talentoso. Não é virtuoso. Muito menos favorito. É um time especial, que parece ouvir, desde janeiro, só uma música nos Ipods espalhados pela concentração. Ou melhor, só um refrão. Cunhado por Renato Russo, quando já sabia ser portador do vírus da Aids.
“Quando tudo está perdido, sempre existe um caminho/ Quando tudo está perdido, sempre existe uma luz”
O que mais se ouve pelas quatro zonas de São Paulo é a expressão “quem diria”.
Quem diria que o São Paulo estaria triste e traumatizado com a Libertadores. Quem diria que o Palmeiras seria eliminado da Copa do Brasil tão prematuramente. Quem diria que o Santos ficaria sem Leão repentinamente. Quem diria que o patinho feio de 2007, o combalido e humilhado Corinthians, se tornaria mais belo que o céu de maio.
O Sport, diz a rima, é forte. O Corinthians, tirante o inesquecível primeiro tempo contra o Goiás, ainda não encheu os olhos pela qualidade e eficiência. Continua um pouco frágil. Continua sem o luxo de poder perder tantos gols quanto vem perdendo.
Mas quem disse que a Copa do Brasil precisa disso?
A série B, prioridade de todos, vai ter que ser compreensiva. Afinal, as duas quartas-feiras que virão prometem. O Corinthians sabe que o Sport é perigoso. E tanto quanto os paulistas, os pernambucanos estão vendo o delírio onírico por que passa a torcida do Fluminense na Libertadores.
Uma final maravilhosa que coloca frente a frente redenção e sonho. Dois jogos mais para o palestrino surumbático lá do início do post esquecer um pouco os altos e baixos do misterioso time de Luxemburgo. E torcer contra a maior das reviravoltas esportivas dos últimos tempos. Nunca um patinho feio pôde virar cisne em tão pouco tempo.

Escrito em 31/05/2008 |Comentários: »

CARTA ABERTA ÀS POLÍCIAS DE SÃO PAULO, RIO, RECIFE E BUENOS AIRES E TAMBÉM A ALGUNS TORCEDORES QUE PERDERAM O BOM SENSO E A NOÇÃO DE COLETIVIDADE



Num mundo onde a generalização é senhora, onde rivalidades ultrapassadas ainda são cultuadas, ainda cabe, para desespero de muitos, elogios à Argentina. Primeiro ao time do Boca, não por causa do trio do ataque, do histórico de títulos e tantos outros adjetivos. O elogio vai à postura dos boquenses no jogo de ida contra o Fluminense. Alguém aí viu catimba e antijogo? Espera-se que o Maracanã também não veja.

E o segundo elogio?

Vai para a polícia portenha. Não é muito do feitio de um fã dos Titãs elogiar gente fardada que usa arma, porém a quantidade de relatos de torcedores do Fluminense, pelas calles, restaurantes e aeroportos, incentiva o panegírico. Segundo os tricolores, os tiras de lá deram um show de organização e respeito. Apesar de fortemente armados, escoltaram sem incidentes os visitantes até os lugares demarcados no estádio Avellaneda. Não houve clima hostil nem medo da torcida anfitriã. O relato máximo foi o de uma pedra jogada, o que é lamentável, porém suportável.

Não foi o que aconteceu em São Paulo. Vejam alguns trechos de e-mails:

“Fomos humilhados pela polícia paulista. Ainda fora do estádio, antes do jogo, fomos encurralados num canto e coibidos de festejar. Levamos spray de pimenta nos olhos pelo simples fato de estarmos felizes.

Quem ousasse discordar entrava na porrada, literalmente! E ninguém escapou disso. Nem mesmo mulheres e idosos. Muitos voltaram pra casa com hematomas e sangramentos sem que pudessem se defender.

Fomos tratados como bichos! Quem ousasse abrir a boca pra tentar dialogar recebia tapa na cara, porrada com cacetete, era derrubado no chão, etc.

Grande parte da torcida só conseguiu entrar no estádio no meio do jogo. Por pura diversão e maldade da policia que resolveu segurar na estrada mais de 15 ônibus de nossa torcida.


E não havia possibilidade de diálogo. Quem tentasse educadamente conversar apanhava.”
João Júnior.



“Ontem, na entrada do estádio aconteceu um fato marcante para a minha pessoa, estávamos reunidos vários torcedores do Fluminense radicados em São Paulo, indo ao estádio, quando na entrada destinada à torcida do Fluminense uma menina de 15 anos tirou o casaco que cobria a camisa do Fluminense.

Após este gesto um Soldado, subordinado a Vossa Senhoria não teve dúvida desferiu um golpe de seu ?cacetete? nas costas desta menina, mandando ela vestir o casaco.
Ao ver esta brutalidade de seu subordinado, não tive dúvida entrei no meio da confusão pedindo calma, foi o suficiente para este militar me desferir 03 (três) golpes, um nas costa, um no braço e outro na cabeça.
Eu sei que o Senhor vai pedir que eu peça a instauração de Inquérito Policial, ou então Inquérito Policial Militar, mas infelizmente não farei isso, pois após a história do Coronel José Hermínio Rodrigues, prezo pela minha vida e prefiro não correr riscos desnecessários, e sim apenas quero que Vossa Senhoria leia este manifesto.

No confronto que teve ontem no Morumbi percebi que nenhum dos militares possuíam o brevê com seu nome de guerra, ou seja, dos que estavam nesta confusão notei que tinha sargento, cabo e soldado, porém sem seus respectivos nomes, e infelizmente acredito que tal decisão não venha destes praças, e sim do alto comando, que prefere a obscuridade e proteger estes maus policias.”
Renato Braga



No Rio, o planejamento também foi falho. No primeiro degrau das arquibancadas acima do espaço destinado à torcida são-paulina, pouquíssimos policiais conseguiam conter o show de lançamento de xixi, cerveja e latas por parte de alguns selvagens. Na saída do estádio, também houve clima de terror. Uma lata de lixo foi arremessada do anel externo em direção às famílias visitantes que iam embora. E novamente, não havia segurança estratégica para evitar isso. Relatos de truculência policial também chegaram aos jornalistas.

Agora, no Recife, além do destempero tresloucado do zagueiro André Luis, vimos alguns policiais pernambucanos agindo como integrantes da turma dos Meninos da Rua Paulo, sentiam-se na Hungria arremessando betume nos inimigos da rua do lado. A TV mostra agentes da lei vociferando, como que dizendo: “vou te pegar lá fora!”.

Enfim, o blog não é um libelo contra policiais, até porque nesta violência urbana onde valores foram invertidos completamente, vimos diariamente nas ruas guardas serem oprimidos por motoristas milionários e infratores, bandidos fazendo tiro ao alvo em cabines da PM, salários ridículos pagos para quem tem a coragem de subir morros dominados por armamento pesado e tantas outras mazelas ainda não resolvidas pela turma dos gabinetes, mais interessadas em gozar da politicalha e das discussões estéreis sobre regimentos internos da Câmara dos Deputados.

Apenas uma proposta de reflexão, pois não é possível que torcedores continuem sendo tratados como gado, desde a hora de comprar ingresso até a saída do estádio, seja ele qual for. O policial, como qualquer torcedor, seja de torcida organizada ou não, precisa entender que do outro lado está alguém igualzinho a ele, mas que o destino fez o coração pender para outro clube. Só isso. Falta treinamento mais adequado e compreensão da dinâmica de condução das multidões. E principalmente, bom senso e diálogo. Vários PMs já são craques neste tipo de situação. Que sejam eles destacados para ensinar os colegas mais brutalizados.

Por isso, é passível de gargalhadas estes senhores engravatados, cínicos, que vão aos microfones para dizer que o Brasil começa a mostrar já estar preparado para a Copa 2014. Senhores, o Maracanã, por exemplo, é uma piada em termos de conforto e logística. A comparação com alguns estádios europeus é humilhante. Ganhamos apenas da Argentina, porque poucos notaram, mas no Avellaneda nem placar existe.

Entretanto, é bom lembrar: esse post não existiria se alguns torcedores não usassem as partidas de futebol como descarrego de frustrações pessoais, xingando sem dó qualquer um que pense diferente e expondo, de forma assustadora, preconceitos e intolerância, seja através de alguns cânticos ou de covardia explícita.




Escrito em 02/06/2008 |Comentários: »
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