Secar ou não secar?Shakespeare, dizem as boas línguas, torcia para o Arsenal. Era fã do centroavante Lear e do zagueirão mouro Otelo. Sempre foi contra Iago, volante traíra, e era contra o futebol feminino, pois achava muito frívolo.
Antes de eternizar o célebre ser ou não ser, pensou muito sobre a dicotomia do secar ou não secar. Mas não teve tempo de discorrer sobre.
Três horas antes do jogo no Maracanã começar, o Garamblog foi dar uma espiada na torcida do Boca. E o que cantavam os portenhos? “Ao, ao, ao, Terceira Divisão”. Ou seja, não eram portenhos. Apenas secadores, rindo a valer, e juntando-se aos turistas acidentais de Buenos Aires. Cruz-maltinos, rubro-negros e alvinegros doidinhos para o tricolor calar a boca, e não o Boca.
É lícito? É. É engraçado? É. É divertir-se com o mastro da bandeira dos outros? Não.
O momento é de combater a hipocrisia. Em todas as áreas. O futebol é feito do dia seguinte. Do colega do trabalho ou da escola, que te aguarda ansiosamente em caso de derrota ou que foge desesperadamente em caso de vitória. E no bom humor, sempre. Apostas, caixas de cerveja, churrascos e por aí vai. Um grande amigo meu, Miguel, tem uma aposta eterna com um grande parceiro dele, Muniz. Um torce pro Flu, outro para o Fla. Sempre que o clássico acontece, o combinado é o seguinte. Quem perder... paga o almoço, mas não só paga o almoço. É necessário pedir a conta e se humilhar para o garçom:
“Deixe que a conta pago eu porque meu time perdeu ontem e ele merece comer de graça”.
Por mais de uma vez, o restaurante inteiro se divertiu. E eles também.
Pensemos em São Paulo. Salvo raríssimas exceções, palestrinos, santistas e são-paulinos colocaram Chico Science na vitrola e torcerão com fé pelos pernambucanos do Sport. Na redação do esporte na Globo, sempre que o Internacional perde, um par de gremistas escancara o sorriso irônico. E quando o Grêmio perde, os cineastas colorados vibram sem dó. Ao mesmo tempo, entre nós, existe ilustre torcedor do Timbu Coroado, que só faltou comprar uma camisa do Corinthians para as finais da Copa do Brasil.
Os flamenguistas adoram dizer que contra eles existe a torcida arco-íris, que muita gente é mais anti-flamengo do que o próprio time. Porém, a história registra a Fla-Manchester, a Fla-Madrid e agora a Fla-Boca. Logo, a brincadeira é geral e liberada. Afinal, pensemos como Descartes. Se o Corinthians vence, vai ser difícil, apesar da forte migração interna, achar muitos torcedores do Sport. Em compensação, face à secação geral dos rivais, a quinta-feira é de delírio e piadas. Idem para o Fluminense, pois ninguém vai passar a manhã na frente do consulado argentino. Em caso de vitória, é para bagunçar o coreto do novo “arco-íris”. Se perder, é ter calma para suportar anedotas até o fim de 2008.
Toalhas ao léu, porque é permitido secar.
Voltem, bandeiras!Não há torcedor do Brasil, por mais birra que tenha com o Fluminense, que não tenha ficado um pinguinho emocionado com o show da torcida tricolor no Maracanã no já histórico jogo contra o Boca Juniors. O anel do estádio, lotado, mais parecia um quadro impressionista de Renoir: pinceladas de grená, branco e verde, misturadas com o talco que subia, as bandeiras tremulando e o toque cítrico e brilhante dos sinalizadores. Bandeirinhas e bandeirões, segurados por crianças e adultos, cortando o vento e incentivando o time do coração. Até bandeiras com as estampas de Chico Buarque, Cartola e Nelson Rodrigues enfeitavam a massa do Flu.
Só que em São Paulo não pode.Um passeio por blogs e sites dos quatro times paulistas mostra como o torcedor se sente frustrado por esta decisão do Ministério Público. A origem é uma batalha campal, em agosto de 1995, entre desequilibrados de São Paulo e Palmeiras, num jogo de juniores. Desde então, os equilibrados sofrem. A preocupação da polícia e dos engravatados é com a violência. Porém, a solução demonstra a falta de soluções para impedir que meia dúzia de acéfalos estrague a festa de milhares de fanáticos pelo espetáculo que o futebol proporciona. Será que a PM não consegue controlar os violentos? Será que não é razoável estabelecer um tamanho máximo de bandeira, se for o caso? Será que em 2008 não temos tecnologia para produzir mastros que não sejam armas? Será que não dá para pensarmos numa tentativa paliativa, teste, de permitir bandeiras nos jogos de uma torcida só?
Em Minas não pode, na Bahia também não. E pela televisão, inveja-se o espetáculo impressionante feito pela torcida gremista em Porto Alegre, com suas faixas enormes emoldurando a “avalanche”. Tive o prazer de estar no jogo de ida do Fluminense, em Buenos Aires. Até guarda-chuvas bicolores, azuis e amarelos, são usados pela melódica e animadíssima torcida do Boca Juniors. Na decisão da Copa do Brasil, os corintianos pularam e cantaram o tempo todo. Fizeram a parte deles, apesar da falta de pano. Já pensou como seria a festa com a ajuda das bandeiras?
O mundo anda muito chato. Os ares democráticos, em tese, já são maioria nos países, porém a mania atávica de “proibir”, “proibir”, “proibir” contaminou os políticos e engravatados do dinheiro público. Não fumo, mas tenho pena do que estão fazendo com os fumantes, tratados como criminosos e relegados à sarjeta, não podendo nem fumar em restaurantes que antes eram sinônimo de conversa animada, chope e fumaça. E ninguém reclamava.
A memória afetiva do futebol nos remete sempre aos carros indo para o estádio buzinando e com bandeiras pela janela. Tinha gente que costurava a própria, emendando tecidos comprados na lojinha da esquina. Outros pintavam heróis e jogadores antigos.
Só que agora em São Paulo, Bahia e Minas não pode.
Está na hora de rever a decisão. De fazer de um jogo de futebol nesses estados novamente um espetáculo inesquecível e plástico. Quando mais bonito fica um estádio, menor a chance dos desequilibrados estragarem a festa.
Voltem, bandeiras!!
E QUANTO À DERROTA DO BRASIL PARA A VENEZUELA, NENHUM COMENTÁRIO?Não, nenhum comentário.