Durante o Arena Sportv, antes do jogo Brasil x Argentina, Muller conversava no intervalo, como ex-jogador que é, do desesperado tédio que acomete o atleta depois do almoço, nos dias dos jogos. Realmente, passei boa parte do dia da partida perambulando pelo hotel onde os argentinos estão hospedados e também bizoiando a turma brasileira, no alto da colina do CT do Galo. Por isso, o Garamblog incentiva a criatividade dos comentaristas e pergunta:
O que você faria se fosse jogador do Brasil ou da Argentina no dia do jogo, das 14h às 17h, quando não se tem nada para fazer?Abaixo, algumas sugestões:
a) navegaria pela Internet só nas páginas esportivas
b) navegaria pela Internet, porém evitando as páginas esportivas
c) navegaria pela Internet espiando as musas do Brasileirão
d) leria Gabriel García Márquez
e) veria um filme de Felini no DVD portátil
f) leria Machado de Assis
g) jogaria cartas com o zagueiro do time
h) fumaria um charuto cubano
i) repassaria mentalmente todas as instruções do treinador
j) iria para a piscina do hotel
k) ligaria para a família pelo celular
l) desligaria o celular para ninguém te ligar
m) dormiria
n) ficaria fazendo fotos do quarto
o) zapearia a TV até roncar
p) escreveria um conto no laptop
q) jogaria algum game trazido de casa
Um certo Dirceu
Lá estava ele, passeando pela farra dos camarotes do Mineirão, quarta-feira passada, depois da pelada histórica entre Brasil e Argentina. Tez queimada, calvície avançada e vários fios de cabelo tão brancos quanto a marca de cal da grande área. Era Dirceu Lopes, vestindo um agasalho branco do Cruzeiro e olhando curioso para toda aquela badalação em cima dos jogadores brasileiros e argentinos.
Dizem que todo Dirceu é bom de bola. Deve ser por causa dele. No início dos anos 70, encantou o Brasil e as Minas Gerais com seu toque refinado e dribles simples e fabulosos, como um pão de queijo com cafezinho. Dirceu Lopes era o camisa 10 do Cruzeiro e deu o azar, ou sorte, de jogar numa época onde o meio-campo da Seleção era Clodoaldo, Gerson, Pelé e Rivelino. Pior para os mexicanos, que não o viram desfilar em campo.
Pois bem. Entre burros e jumentos presentes ao estádio, Dirceu Lopes lamentava com os amigos o péssimo nível do jogo e, como bom brasileiro, agradecia à má pontaria dos adversários, que impediu uma derrota dolorida. No intervalo de uma prosa e outra, era interrompido por algum torcedor.
- Ô Dirceu, só você sozinho ganhava desses argentinos – disse um atleticano.
- Seu Dirceu, meu pai falou que com o senhor em campo o Luis Fabiano e o Adriano fariam a festa – confessou um pequeno cruzeirense.
Até mesmo um coroa são-paulino, que voou até Belo Horizonte para vibrar com Robinho, mas acabou aplaudindo Messi, interpelou o craque aposentado:
- Dirceu Lopes! Vou te dizer o que já falei para Careca, Sócrates, Tostão e até Canhoteiro. Não tem comparação o que vocês jogavam com este bando de perna-de-pau de chuteira colorida.
É assim sempre. Nossos corações cansados têm preguiça de amar. Preferem a nostalgia das velhas paixões. Os tempos de outrora, que podem ser há 30 anos ou há um mês, serão melhores eternamente. Nossas mentes filtram as jogadas horríveis a que assistimos dos velhos ídolos. Ficamos sempre com a plástica do golaço inesquecível, o drible que entrou para a história, o passe de 40 metros que ninguém nunca mais conseguiu dar.
Daqui a 20 anos, em meados de 2028, as crianças de hoje encontrarão Robinho, mais gordo e grisalho, sorridente, passeando pelos corredores do Morumbi em algum jogo importante da Seleção. Terão vivido cinco copas do mundo e baixado no computador, em alta definição, lances maravilhosos do atual camisa 11 do Brasil. Carentes, abordarão Robinho e, sem cerimônia alguma, rogarão:
- Ô Robinho, que saudade do que você jogava!
- Você, com uma perna só, é melhor que este bando!
- Robinho, se você ainda jogasse já seríamos octacampeões!
Ele sorrirá, saudará os torcedores e por dentro se perguntará se aqueles nostálgicos não lembram da sua atuação fraquinha numa noite enluarada de outono, distante e esquecida, quando 60 mil brasileiros foram testemunhas de um show no Mineirão. De um show de rock antes e durante o jogo. Porque bom futebol mesmo só nas lembranças trazidas pela pequena figura de Dirceu Lopes.