O que nos faz?
Torcer para um francês, um senegalês, um americano, um russo ou chinês? No mesmo dia. Talvez na mesma manhã. Sentados em frente à TV, vendo o desfile de esportes e raças, esquecemos o time do coração e até mesmo o país onde nascemos.
E ninguém é criticado por falta de patriotismo.
Primeira explicação! O Brasil não é uma potência olímpica, logo não temos um leque gigantesco de atletas para torcer pelo ouro. Errado. As olimpíadas mostram que gente do mundo inteiro viaja para participar da festa, para abraçar e fazer fotos de outras raças e credos. Turistas, jornalistas e atletas comungam de uma simpatia ímpar. O sorriso é livre e o interesse pelo super-atleta passa longe da nacionalidade.

Segunda explicação! Ser humano tem que torcer para ser humano. Errado. A Copa do Mundo também é uma festa, mas no embate entre duas seleções o torcedor neutro sempre acaba escolhendo um lado.
Terceira explicação! As Olimpíadas, por terem sido criadas há tanto tempo, revelam um odor de antiguidade que remete a tempos onde fronteiras eram tênues e mutantes, onde o estrangeiro podia ser você de um dia para o outro. Errado. Basta ler Homero.

Quarta explicação! Toda quebra de recorde é uma vitória da humanidade. Errado. A frase é bonita, mas nem todos os recordes são quebrados nas olimpíadas, seja em Atenas, Sydney, Roma, Munique ou Pequim.
Talvez simplesmente a explicação não exista ou seja muito mais simples do que qualquer discussão filosófica de bar.
As imagens de Pequim, que começaram esta semana a realmente povoar nosso imaginário, cutucam um lado interplanetário astronômico sideral perdido em algum buraco negro.
Humanóide vota em humanóide.
As lágrimas de Pequim
Uma das frases mais imbecis do machismo brasileiro foi sepultada há algum tempo. Homem não chora. Morreu porque diariamente, em casa, nas ruas ou no trabalho, temos a chance de ver algum pranto masculino. Seja por júbilo ou tristeza. No esporte então, nem se fala. A alegria de um título, a decepção de um rebaixamento, o gol no último minuto, o recorde dedicado à filha, uma cerimônia de abertura estonteante.
E é sobre essa última que o Garamblog, direto do posto avançado em Pequim, na fila B, assento 17, setor A1, do Ninho do Pássaro, discorrerá. Foi impossível não chorar. E não eram poucas as razões.
Os chineses conseguiram concentrar algumas das grandes questões contemporâneas em quase quatro horas de espetáculo. A maior delas: por que somos assim? Por que o homem, este ser tão contraditório e dialético, não consegue canalizar toda a sua energia brilhante para ações construtivas? A cada solução cênica, a cada metáfora, a cada entrada espetacular de milhares de figurantes, a pergunta se repetia. Felizes, ensaiados, eles se revezavam na formação de desenhos gráficos e multicoloridos capazes de emocionar até o mais linha-dura dos soldadinhos empedernidos que velavam pela segurança da festa.
Vale como exemplo eterno. Se ao invés de brigarmos no estádio, não ganhamos tempo voltando para casa mais cedo para contar os lances emocionantes do jogo aos amigos e família? E por que, em vez de massacrarmos nossos amigos que torcem para times adversários com gozações no caso de derrota deles, não optamos pelo conforto? Afinal, são nossos amigos.
As perguntas são muitas, a resposta é única: Não sei. Talvez daí o pranto brote tão fácil durante um espetáculo como o de ontem de manhã em Pequim. Ver a genialidade humana a serviço da beleza, sentir a idéia insana tornar-se realidade por causa de um extenuante e gratificante trabalho de equipe, honrar os antepassados com homenagens antológicas, observar as crianças... Longe de casa, a 24 horas das filhas, foi impossível não se emocionar com o desfile de chinesinhos ao vivo somados às imagens projetadas de guris do mundo inteiro. Amarelos, brancos, negros, iguais e diferentes.
Deu saudades. Das crianças de hoje, das crianças que fomos, dos nossos avós. Talvez a única saída para este mundo maluco seja o esporte. Que ele não seja mais sinônimo de confronto e duelos bélicos. Que possamos aposentar todos os termos militares do cotidiano esportivo. Que jamais esqueçamos esta cerimônia de abertura. Que todos os 90 mil presentes, principalmente os atletas, lembrem-se das palavras bonitas ditas pelos cartolas olímpicos. Não só eles. Os outros 4 bilhões que viram pela TV também. Ontem, foi impossível não passar a sexta-feira comentando os grandes momentos da cerimônia. Com orgulho. Éramos todos nós dentro do Ninho do Pássaro. Só não viu quem não quis.
A INÉDITA PROVA 32 X 100
O Cubo ao cubo. O que se viu hoje no Parque Aquático de Pequim foi a multiplicação dos peixes. Que merecem os créditos: Quatro americanos, quatro franceses, quatro australianos, quatro italianos, quatro suecos, quatro canadenses, quatro sul-africanos e quatro britânicos. Netuno se orgulhou. Namor bateu palmas. E Aquaman ficou até enciumado. Trinta e dois atletas numa das maiores provas de revezamento que o mundo já viu.
Calhou do Garamblog estar sentado exatamente atrás dos compatriotas de Phelps, Galé, Jones e Lezak. A vibração das nadadoras e nadadores foi contagiante. Os últimos 50 metros vão durar muito mais que 50 metros. E tome crédito: Leveaux, Gilot, Bousquet, Bernard, Sullivan, Lauterstein, Callus, Targett, Calvi, Galenda, Belotti, Magnini, Stymne, Frolander, Nystrand, Persson, Hayden, Greenshields, Russel, Say, Ferns, Townsend, Schoeman, Neethling, Burnett, Brown, Hockin e Davenport. Decorou? Dá control C control V.
Conversando com membros da comissão técnica da equipe brasileira de natação, que aliás estava quase toda lá assistindo à primeira sessão de provas do dia, veio uma boa explicação técnica para o arranque alucinado do veterano Jason Lezak. Por ser experiente, colou ao lado de Bernard, na última metade da reta final, com isso pegou o vácuo, pressionou psicologicamente o francês e tocou seis centésimos de segundo antes.
O balanço deste 4 x 100 estilo livre é impressionante. Deixando boquiaberto especialistas, nadadores e torcedores. Numa mesma prova, cinco países bateram o recorde mundial. As oito raias também deixariam a medalha de ouro de Atenas em nono. E de brinde, Eamon Sullivan bateu o recorde mundial dos 100 metros.
Cesar Cielo vibrou bastante. Não porque treina nos Estados Unidos e conhece pessoalmente alguns dos medalhistas. Sim porque um de seus principais rivais nos 50m é exatamente Alain Bernard, que saiu arrasado psicologicamente da piscina. Pois largou na frente nos 100 metros finais e deixou o primeiro ouro francês dos Jogos escapar pelas mãos e pelos pés.
QUEM BOM QUE BRONZEA matemática esportiva também foi brilhante para o Brasil. Leandro Guilheiros e Ketleyn Quadros. Eles honraram uma tradição que já durava três olimpíadas. Toda segunda-feira tem medalha para o Brasil. Veja oportuno levantamento do jornalista Marcelo Gabrielli:
ATENAS 2004 - segunda-feira 16/08
A primeira medalha do Brasil nos Jogos Olímpicos de Atenas é do judô. Leandro Guilheiro, da categoria leve (até 73kg), venceu nesta segunda-feira (dia 16/8), Victor Bivol, da Moldávia, por wazari, no Ano Liossia Olympic Hall, e conquistou a medalha de bronze.
SYDNEY 2000 - segunda-feira 16/08
A primeira medalha do Brasil saiu na Natação Masculina. Gustavo Borges, Fernando Scherer, Edvaldo Valério e Carlos Jayme garantiram a medalha de bronze na prova do revezamento 4 x 100.
A medalha de ouro ficou com os Australianos e a de prata com os Estados Unidos.Com essa medalha, Gustavo Borges passou a ser o brasileiro com mais medalhas olímpicas: quatro. Ganhou prata nos 100m livre em Barcelona/92, prata nos 200m livre e bronze nos 100m livre em Atlanta/96.
O nadador Fernando Scherer desistiu de competir nos 100m livre devido ao seu problema no tornozelo, deixando a missão para Gustavo Borges. Scherer vais disputar os 50m.
ATLANTA 1996 - segunda-feira (dia 21/07),-
Aurélio voltou a garantir lugar no pódio nos Jogos de Atlanta-96, com a conquista do bronze no meio-pesado.
O DESÂNIMO E O BRONZE
Tiago Camilo esteve na redação da Globo em Pequim. Deu entrevistas, fez foto e num intervalo de gravação papeou. Medalha no peito, não estava eufórico. E confessou que na primeira luta da repescagem, quase pôs tudo a perder. Claro, era um dos favoritos, estava numa forma exuberante, confiança não faltava. Mas a derrota para o alemão estraçalhou a luta pelo ouro inédito.
Eis aí o maior dos elogios para o judoca brasileiro. Quanta vezes na vida levamos tombo e simplesmente desistimos, não levantamos e partimos para outra. Já em outras vezes, respiramos fundo, respondemos e-mails amigos, damos ouvido aos que nos incentivam e conseguimos dar a volta por cima. Tiago não recebeu e-mail nem telefonemas. Em menos de uma hora, teve que digerir os quatro anos de treinos intensos até Pequim. Relembrar a distância dos pais, que moram em São Paulo, longe de onde treina, em Porto Alegre. E superar a gigantesca vontade de chutar o balde.
Um campeão, quando perde, precisa ser mais campeão do que nunca. Tiago foi. Ao terminar a visita à redação, pegou o caminho da Vila Olímpica, acompanhado da jornalista Manoela Pena, que assessora o judô brasileiro. Ia comer algo, provavelmente no bandejão, e dormir. Sem a sensação do dever cumprido. Um pouco frustrado, controlando a ansiedade de jogar no juiz da luta a causa da derrota, e sem querer pensar em Londres 2012.
Daqui a alguns dias isso passará. E Tiago verá quanto é importante e histórico ser um brasileiro com duas medalhas olímpicas.